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       São Paulo, 20/08/2008, 00:18          
 

A Ordem dos Frades Menores, de 2006 a 2009, está celebrando os oitocentos anos de sua fundação. Em 1209 um ambicioso filho de mercador, de nome Francisco,tornou-se protagonista de uma experiência cristã que desde então até os nossos dias fascina e inspira a vida de uma imensa corporação de homens e de mulheres. Como diz Grado G. Melo, no seu livro Em nome de São Francisco (Vozes, 2005, p.19), o homem de Assis deixou-nos uma herança difícil. O seu legado, porém, não é constituído de bens materiais ou culturais, nem de eficientes estruturas institucionais. A herança é ele próprio, com sua firme vontade de viver segundo a forma do Evangelho de Jesus Cristo.

No período de 2008-2009 ressoa, em nível de Ordem, o forte apelo de celebrar o dom da vocação franciscana, restituindo tudo ao Senhor pela palavra e pelo exemplo de vida. Pois, a vocação de S. Francisco, bem como a de cada irmão na Ordem, teve início sob o signo da graça divina. O próprio Francisco declara no seu Testamento que decidiu iniciar sua caminhada penitencial (conversão ao Evangelho) não por decisão própria, nem por vontade de outrem, mas por divina inspiração: Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência (Test 1). Aliás, Francisco apresenta toda a sua vida como uma gestação divina: o próprio Senhor me conduziu entre os leprosos (Test 2); o Senhor me deu tão grande fé (Test 4); o Senhor me deu irmãos (Test 6); o Altíssimo mesmo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho (Test 14).

Na Regra Não-Bulada explicita-se ainda mais a vontade do Pobre de Assis de restituir tudo ao Senhor porque de Deus procede todo o bem e, por isso, só a Ele pertencem todas as honras, todas as graças e louvores: Restituamos todos os bens ao Senhor Deus altíssimo e sumo e reconheçamos que todos os bens são dele e por tudo demos graças a ele, de quem procedem todos os bens. E (...) ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glória (cf. Ap 5,12), ele, de quem é todo o bem, o único que é bom (RnB 17,17-18).

A atitude de gratidão e de gratuidade de Francisco está radicada em sua profunda experiência de Deus. Na Paráfrase ao Pai-nosso ele expressa a sua experiência de Deus em Jesus Cristo como santíssimo Pai, criador, redentor, consolador, amor, o sumo e eterno bem, a fonte de todos os bens, misericórdia e compaixão. De acordo com o documento do Capítulo Geral Extraordinário da OFM (2006), O Senhor nos fala na caminhada, Deus, que é Pai, doa-se eternamente ao Filho no Espírito Santo e o Espírito Santo é eternamente doado pelo Pai e pelo Filho. A unidade da Trindade é uma unidade de amor. Isto quer dizer que Deus é essencialmente um mistério transbordante de amor e, conforme observa-se no já referido documento, Jesus é o dom por excelência que brota do amor do Pai. Ele deu-se a si mesmo (Gl 1,4; 1Tm 2,6), deu sua vida (Mc 10,45) e não cessa de doar-nos sua palavra (Jo 17,7.14), o pão da vida (Jo 6,35.51), a paz (Jo 14,27), o Espírito (Jo 3,34) e a vida eterna (Jo
10,28).

A aspiração fundamental de Francisco é que toda a sua existência seja impregnada pelo modo de ser absolutamente desprendido de Deus. Ele quer, deseja e procura de todo o coração que seus gestos, palavras e atitudes sejam diferentes revelações do Rosto de Deus. Assim, conforme relata-se no Espelho da Perfeição, totalmente absorto no amor de Deus, São Francisco vislumbrava perfeitamente a bondade de Deus não só na sua alma, já ornada com toda a perfeição das virtudes, mas também em qualquer criatura (2EP 113,1). Diante do espetáculo das criaturas, Francisco cala, arregalando os olhos, porque contempla cada criatura não simplesmente como uma coisa ou um objeto de uso, mas milagrosamente emergindo do nada e das mãos do Criador. O vir-a-ser de todos os seres efetivamente existentes provoca espanto e suscita a admiração de Francisco. Como é possível a passagem da inexistência à existência real de cada criatura? Por que existe a criatura e não antes o nada?

Francisco contempla todos os seres do universo na radical dependência do sopro vivificador de Deus e, portanto, como dons de Deus (Cf. Jó 34,15). Os renomados pensadores cristãos da Idade Média expressaram essa condição de criatura pelos termos ens ab alio (um ente a partir de um outro) e ens per aliud (um ente por graça de um outro). Concebiam, portanto, a existência da criatura a partir de e por graça daquele que, gratuita e liberalmente, lhe dá o ser e lhe mantém no ser. Por conseguinte, a criatura não tem o ser por si mesma, mas o tem enquanto participa do ser que lhe é comunicado livremente pelo Criador. Assim, o sumo e eterno bem se presencializa essencialmente em cada criatura, porém, sem reduzir-se idolatricamente (do grego eidolon) ao que se vê. Cada criatura está, portanto, suspensa ontologicamente no abismo do não-ser e da livre vontade do Criador que com o seu poder a cria, com a sua sapiência a rege, e com a sua providência benignamente a sustenta na existência.

Entre todas as criaturas, o homem é de uma dignidade especialíssima por ser criado à imagem de Deus. É claro que não cabe aqui explicitar todo o sentido teológico desse dom maravilhoso concedido ao ser humano. Pretende-se apenas enfatizar que, enquanto imagem de Deus, a alma humana é essencialmente receptividade e difusão gratuita, livre e sem medidas de tudo o que recebeu. Nesta perspectiva, reportamo-nos mais uma vez ao documento franciscano, O Senhor nos fala na Caminhada, enquanto ali se diz que constantemente recebemos nossa vida como dom e com a capacidade de doar-nos gratuitamente aos outros mediante um movimento semelhante ao incessante dom de si da parte de Deus. Por conseguinte, em todas as nossas boas obras somos impelidos pela centelha do divino alojada no fundo de nossa alma. Razão pela qual ninguém pode se apropriar e se vangloriar de suas boas obras, nem invejar as do seu irmão. A propósito, exorta Francisco nas Admoestações: come da árvore da ciência do bem aquele que se apropria de sua vontade e se exalta dos bens que o Senhor diz e opera nele (Adm 2,3). E, todo aquele que inveja seu irmão, por causa do bem que o Senhor diz e faz nele, pertence ao pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo (cf. Mt 20,15) que diz e faz todo o bem (Adm 8,3). Enfim, são vivificados pelo espírito de Deus aqueles que não atribuem a seu eu toda letra que conhecem e desejam conhecer, mas pela palavra e pelo exemplo, as atribuem ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo o bem (Adm 7,4). Portanto, nada nos pertence, tudo é dom recebido, destinado a ser partilhado e restituído.

Francisco intuiu de forma extraordinária a vocação divina do humano, ou seja, de nada reter para si mesmo para que totalmente nos receba aquele que totalmente se nos oferece (Cf. Ord 29). A vocação fundamental do humano consiste em ser todo de Deus que é tudo e todas as coisas. Apropriar-se de qualquer coisa é, então, macular a imagem de Deus impressa na alma humana, bem como é ser ladrão, é praticar um roubo a Deus. Caso o ser humano levasse realmente a sério sua genuína vocação, tudo seria de todos, e nada faltaria a ninguém.

Todavia, considerando o que já dissemos, ou seja, que Deus é essencialmente bondade que dá tudo com copiosa benignidade aos dignos e aos indignos (LM 7,10,6) e que em tudo é eterno e sumo dom de si, apoderar-se de alguma coisa não é propriamente um roubo, mas um ultraje, um abuso à bondade de Deus.

Assim, o preceito do sine proprio, que pertence ao cerne da espiritualidade franciscana, adquire toda a sua força. Francisco quis ser pobre porque, afinal, tudo é dom de Deus e a alegria da pobreza consiste precisamente na possibilidade de poder restituir tudo ao Senhor (Cf. Adm 18,2). A pobreza, tal como a concebemos, é o caminho por excelência à perfeição da vida humana nas pegadas de Jesus Cristo que, totalmente despojado na Cruz, restituiu sua vida (espírito) ao Pai: E, inclinando a cabeça, entregou o espírito (Jo 19,28-30).

Por fim, é preciso ainda observar que a porta para o reino da liberdade perfeita abre-se especialmente pela virtude da humildade. Só os humildes são capazes de restituir tudo ao Senhor, fazendo de sua palavra e de sua vida um hino de louvor e de gratidão a Deus. A gratidão requer uma ruptura com o orgulho, a prepotência e a auto-suficiência que estão na base da ingratidão. No opúsculo Perfeição da vida de São Boaventura, lê-se: Não há nada que torne o homem tão digno das dádivas divinas como o contínuo agradecimento pelos dons recebidos. (...). Pois a ingratidão, no dizer de São Bernardo, é um vento abrasador que estanca e seca a fonte da piedade, o orvalho da misericórdia e os rios da graça (in: Obras Escolhidas. Porto Alegre: EST, 1983, p. 423-424)

Frei João Mannes, OFM, é Doutor em Filosofia e leciona no Instituto de Filosofia São Boaventura, em Curitiba (PR)

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