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Provincia Fraternidades Carisma Sefras SAV Missões Multimidia
       São Paulo, 22/11/2008, 10:20          
 
Parte da delegação brasileira - eram 140 ao todo
Representantes das 22 delegações, trazendo os retábulos (magem da Ascensão e santos), doados pelo Papa Bento XVI. Os retábulos foram entregues aos bispos, representantes das 22 conferências episcopais, no final da Missa de Encerramento do Congresso, dia 17/08, no estádio de futebol da LDU.
Missa de abertura do Congresso (dia 12/08)
Reliquias de Santa Terezinha do Menino Jesus, padroeira das missões, trazidas para a abertura do Congresso Missionário.
Claustro e igreja de São Francisco,
convento onde fiquei hospedado
Quito, centro histórico
Imagem da Virgem bailarina. A estátua original está na igreja São Francisco. Esta já é uma cópia. Representa a Imaculada Conceição, com expressão alegre, movimentada (por isso bailarina), até alada. Na mão segura uma correte que prende o dragão, dominado debaixo de seus pés. A foto do centro histórico foi tirada de cima do Pichincha, onde está uma réplica gigante (34 metros) desta estátua, um símbolo de Quito.
Placa comemorativa da fachada do Colegio San Andrés, primeira escola de Quito, fundada pelo franciscano Frei Jodoco Ricke (um holandês), em 1550!
Placa na fachada de um prédio da Plaza Grande, lembrando o descobrimento do Rio Amazonas, por Francisco Orellanas, que teria partido em expedição de Quito.
Igreja de São Francisco em restauração. O altar mor está encoberto por um pano pintado
Praça de São Francisco, com a igreja e o convento São Francisco. Mais adiante está a igreja do Carmo.

Por Frei Ludovico Garmus, ofm

O Congresso Missionário acontece a cada quatro anos. Inicialmente incluía apenas os países da América Latina. Por isso, ainda conserva a nomenclatura Comla 8. Isto é, Congresso Missionário Latino-Americano 8. Por exemplo, o Comla 5 aconteceu em Belo Horizonte e foi um dos melhores até hoje realizado, na avaliação de não brasileiros. Mas, nos últimos Congressos participaram também outros países de língua inglesa e francesa, isto é, América do Norte, Guianas francesa e inglesa e Caribe. Por isso a nomenclatura impressa nos materiais do Congresso e ouvida durante o mesmo era CAM 3. A terminologia COMLA 8 está sendo abandonada. Conserva-se ainda para lembrar que estes congressos, convocados a cada quatro anos, tiveram início há mais tempo.

O Congresso foi organizado pelas Pontifícias Obras Missionárias, em conjunto com a Arquidiocese de Quito, hóspede do Congresso, e a Conferência Episcopal Equatoriana. Portanto, em princípio trata-se de um Congresso preocupado com a Missio ad Gentes, a missão a todos os povos. Por isso, direta ou indiretamente estavam presentes representantes dos cinco continentes. Os 3.100 delegados estavam organizados pelos continentes. Por exemplo, o meu crachá, de cor laranja, representava a Ásia. Isso porque os países católicos das Américas e Caribe enviam seus missionários a países de outros continentes e ao mesmo tempo recebem missionários dos mesmos. Assim, a Europa, com 285 milhões de católicos, num conjunto de 731 milhões de habitantes, envia 66.776 missionários e recebe 7.764. A África, com 123 milhões de católicos, numa população de 940 milhões de habitantes, recebe 14.748 missionários e envia 2.585 missionários. Pude conversar com um desses missionários africanos, um nigeriano, missionário no Equador. A Ásia tem cem milhões de católicos num universo de com 4 bilhões e 215 milhões de habitantes; recebe 6.306 missionários e envia 8.481 missionários para outros continentes. As Américas têm 490 milhões de católicos numa população de 910 milhões. A América do Norte envia 8.193 missionários e recebe 1.645. A América do Sul recebe 12.011 missionários e envia 5.785. A Oceania, com 8 milhões de católicos numa população de 30 milhões de habitantes, envia 1.255 missionários e recebe 1.647.

Abertura do Congresso
No dia 12 de agosto, dia que lembrava os missionários enviados e recebidos pela Europa, houve duas atividades. Pela manhã, as delegações todas se dirigiram a um ginásio (coliseo) da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE) para receber uma bolsa com os materiais do Congresso, como crachá, manual litúrgico, manual do participante, o instrumento de trabalho e um livreto em espanhol, com as conferências a serem pronunciadas durante o Congresso. De tarde, às 15h00, estava prevista a solenidade de abertura do Congresso. As delegações começaram a chegar ao ginásio de esportes às 13h00, sendo recepcionadas pela equipe de animação, com cânticos e o lema do Congresso: “América com Cristo: escuta, aprende e anuncia”. O dirigente conclamava: “América com Cristo!” Ao que a assembléia respondia em coro: “Escuta, aprende e anuncia”!

Às 13h00 foram trazidas solenemente as relíquias de Santa Terezinha do Menino Jesus, padroeira das missões. O ginásio tem a capacidade para receber 16.00 pessoas, mas não chegou a encher, porque estava aberto apenas para os delegados e pessoas convidadas das paróquias de Quito e arredores.

Segundo informações, participaram desta missa de abertura 4 cardeais, cerca de 100 bispos e 600 sacerdotes, perfazendo com os delegados e convidados cerca de 15 mil pessoas. A celebração eucarística foi presidida pelo enviado especial do Santo Padre, o Cardeal López Rodríguez, Arcebispo de Santo Domingo. Após os ritos iniciais, o Arcebispo de Quito, Dom Raúl Vela Chiriboga, deu as boas vindas ao Legado do Papa e aos congressistas. O formulário da missa seguido foi o da Evangelização dos Povos. As leituras escolhidas foram Is 60,1-5 e Jo 17,11.17-23. Os textos todos desta missa e de outras previstas durante o Congresso, com os cânticos e a oração dos fiéis (em várias línguas, inclusive o quíchua), constavam no “Manual Litúrgico”. Após a comunhão, Dom Giacomo Ottonello, núncio apostólico no Equador, leu a mensagem de Bento XVI ao CAM 3 E COMLA 8. No final da celebração foram entregues as chaves da cidade de Quito ao Cardeal López Rodríguez, Legado do Papa.

As conferências e os fóruns durante o Congresso
Para cada dia do Congresso (13 a 15 de agosto) era prevista uma programação durante a manhã e outra durante a tarde. As conferências da parte da manhã aconteciam no grande auditório da Casa da Cultura Equatoriana, nas proximidades da Universidade (PUCE), local capaz de abrigar os mais de três mil delegados. Os fóruns da tarde aconteciam nas próprias dependências do campus da PUCE.

A Programação da manhã era iniciada pela oração da manhã. No dia 13 de agosto, dia da África, a oração da manhã, baseada no tema do discipulado, foi dirigida pelo México. Em seguida, o Cardeal Arcebispo de Tegucigalpa (Honduras), Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga (salesiano), expôs o tema “Discipulado: Comunidade discípula de Jesus”. Desenvolveu com boa fundamentação bíblica uma espiritualidade do discipulado. Lembrou os desafios que o discípulo deve enfrentar para se configurar com Cristo e abraçar com fervor e abnegação a missão aos povos (ad gentes).

Após a palestra, cujo texto já tínhamos em mão, seguiu-se o “cafezinho”, aliás, bastante generoso, que por lá chamam de “refrigério”. Era servido num corredor, na saída do auditório. Cada delegado recebera uma folha com direito a três refeições em cada um dos três dias do Congresso: um “refrigério” pela manhã, o almoço e outro “refrigério” pela tarde. Com a folha era picotada, devia-se destacar o respectivo ticket para cada refeição e apresentá-lo na hora de ser servido. Um negócio bem bolado. Mesmo assim, não foi fácil movimentar mais de três mil pessoas para as refeições. No primeiro “refrigério” faltou organização e deu confusão. Depois as coisas funcionaram bem. Imaginem a confusão que deve ter dado quando Jesus mandou dividir os cinco pães e dois peixes entre as mais de cinco mil pessoas, apesar de ter mandado organizar o povo em grupos de cinqüenta...

Terminado o “refrigério”, seguiram-se dois comentários à palestra. O primeiro a cargo de Dom Julio Terán Dutari, bispo de Ibarra e presidente do CAM 3 e COMLA 8. O segundo foi feito por Lucas Carviño, um leigo argentino, missionário na Bolívia; aliás, uma intervenção muito boa e atinente ao tema da palestra. Este último comentário realmente captou o conteúdo da palestra, frisando as características e o perfil do discípulo que compõe uma comunidade missionária. Houve mais dois testemunhos missionários. O primeiro a cargo do Pe. Sergio Espinosa, das Pontifícias Obras Missionárias do México, sobre o tema “A Virgem de Guadalupe, discípula e missionária”. Foi muito longo e com colocações um pouco forçadas, que de testemunho tinha muito pouco. O segundo foi do Secretário Episcopal Colombiano, que por 40 anos foi missionário na Etiópia (África); procurou frisar que os discípulos são enviados em comunidade, como os apóstolos, para fazer outros discípulos, sempre em comunhão com a Igreja. Houve também um testemunho do Cardeal de Honduras, não previsto no programa, relatando uma inovadora experiência do uso da Internet na evangelização. Já são mais de 40 mil jovens que recebem orientação e são estimulados pela Internet ou pelo telefone a fazer diariamente a leitura orante da Bíblia.

Pelas 12h00 o palestrante da manhã retomou a palavra e fez uma breve síntese dos ecos de sua fala e das contribuições dos testemunhos sobre o tema do discipulado e missão. Pelas 12h30, orientados pelos mais de 200 jovens vestidos de jalecos vermelhos, nos dirigimos para as dependências da PUCE, uns 500m mais adiante. Como os mais de três mil delegados deviam utilizar uma rua para chegar até a Universidade, a polícia isolava o local. Era uma verdadeira “procissão”, ao final da qual, cada delegado, seguindo a cor de seu crachá, se dirigia até as barracas de seu respectivo continente, onde apresentava o ticket refeição e recebia uma espécie de quentinha, acompanhada de sobremesa e de um refrigerante ou água. As pessoas podiam acomodar-se sobre a grama de um campo de futebol ou dirigir-se até um ginásio coberto. No ginásio, durante a refeição dos delegados, cada dia eram apresentadas danças folclóricas, músicas ou ginásticas artísticas, preparadas pelos alunos (as) da PUCE.

O tempo do almoço durava até as 14h15, hora em que cada delegado devia dirigir-se até o respectivo fórum, previamente marcado em seu crachá. Os locais dos 16 fóruns utilizavam salas dos vários prédios da universidade. Cada delegado participou do mesmo fórum nos três dias do Congresso. Como no meu crachá não estava nada determinado, tive que escolher um fórum. Vários fóruns me interessam. Escolhi o fórum n. 9, que tratava da Missão e Ecologia. Os outros fóruns eram: Missão ad Gentes no mundo de hoje; missão e família; missão e globalização; missão, exclusão e migração; missão e laicato; missão, atividade e dignidade humanas; missão, culturas e povos; missão e meios de comunicação social; missão, ecumenismo e diálogo interreligioso; missão, educação e mundo intelectual; espiritualidade missionária; missão e fundamentalismo religioso; missão e presença da mulher; missão, ciência e tecnologia. Alguns fóruns tinham mais de 400 delegados inscritos. O nosso da Missão e Ecologia tinha apenas 110. Cada fórum tinha um ou mais países responsáveis, uma pessoa que apresentava cada dia o tema, relacionado com a palestra da manhã, um moderador e um secretário(a). O Brasil foi o responsável pelo fórum “Missão, exclusão e migração”. O fórum “Missão e Ecologia” era presidido pelo Chile e Panamá e a palestrante era a Irmã Marina Arosemena, uma educadora ambiental. Além da palestra diária do fórum, que se orientava pelo tema da palestra da manhã, havia um vídeo, alguma pequena comunicação e duas perguntas a serem respondidas pelos presentes, após um cochicho de dez minutos. Tudo se concluía com a apresentação em plenário pelos secretários(as) dos grupos de cochicho das respostas dadas às perguntas. Esse material era depois sintetizado pelos respectivos secretários dos fóruns. O palestrante e o moderador faziam uma síntese conclusiva da tarde. É claro que a metodologia adotada pelo fórum “Missão e Ecologia” não conseguiu recolher as ricas e prováveis contribuições dos delegados, mas era o que se poderia fazer durante três horas de trabalho, que terminavam com o “refrigério” servido nas dependências da Universidade.

Dia 14 de agosto
Como no dia anterior, os trabalhos começaram com a oração da manhã dirigida pela Costa Rica. Os cânticos, as leituras bíblicas e a oração dos fiéis seguiam o tema do dia “Pentecostes: A comunidade conduzida pelo Espírito Santo, aprende do Mestre”. As orações dos fiéis eram respondidas com bem animado cântico ao Espírito Santo, a que dizia “Espírito Santo vem, vem! Espírito Santo vem, vem. Espírito Santo vem! Vem em nome do Senhor”!

A conferência foi pronunciada pelo Arcebispo de Toja (Colômbia), Dom Luis Augusto Castro. Se no primeiro dia do Congresso a tônica foi o discipulado como “escuta” do Mestre Jesus, a conferência deste dia queria acentuar a necessidade de aprender do Espírito Santo a ser missionários ad gentes no mundo de hoje. Dom Luís é conhecido como uma pessoa com bom manejo da linguagem da comunicação. Sua fala foi permeada de textos bíblicos, imagens e exemplos concretos, prendendo a atenção dos ouvintes de modo leve e, ao mesmo tempo, com profundidade teológica. Definiu a ação do Espírito Santo como uma força que impulsiona o fiel e, especialmente o missionário, para a missão. O Espírito Santo é um dinamismo que nos empurra em várias direções: para fora, em direção a todos, para dentro, para o fundo, para o lado, para trás, para frente, para baixo e para cima.

Seguiram-se dois comentários à conferência, um do Pe. Vito del Prete e outro da Madre Geral das Irmãs Marianitas. Após o “refrigério” da manhã, houve mais dois testemunhos missionários, marcados pelo Espírito de Pentecostes: O Pe. Carlos Alberto Correa – um tipo carismático –, Diretor diocesano das Missões da diocese de Sonsón Rio Negro (Equador), fez um histórico de sua diocese, que conta com 480 sacerdotes, sendo que 180 deles estão em missão, fora do país. O segundo testemunho foi sobre a vida da beata Mercedes de Jesús Molina, fundadora das Marianitas, com um belo trabalho missionário na Amazônia equatoriana. Houve até um musical sobre a beata, que será canonizada em outubro próximo. A Congregação das Marianitas, fundada por ela em 1873, hoje está presente nos cinco continentes.

Após o almoço, no local de costume, continuaram os trabalhos dos 16 fóruns, com palestras e duas perguntas a serem respondidas em plenário. Em nosso fórum “Missão e Ecologia” foi lembrada a figura de São Francisco de Assis e seu Cântico ao Irmão Sol, as religiões afros e indígenas que nos ensinam o amor à criação. Citaram-se também as palavras de Bento XVI, que na Festa da Transfiguração (06/08/08), afirmou: “A defesa do meio ambiente exige de nós um câmbio moral”. Um vídeo sobre a relação do Espírito Santo com a natureza introduziu a palestra da tarde voltada para o respeito com a criação. Necessitamos hoje de uma urgente conversão moral, capaz de levar a atitudes comunitárias, como a prática da reciclagem, a valorização da medicina alternativa, a agricultura orgânica, a ecologia humano-ambiental e o respeito pela sacralidade do meio ambiente. Usando as palavras de Leonardo Boff, precisamos mudar nossos paradigmas comportamentais em relação à natureza.

Dia 15 de agosto
No Equador a Festa da Assunção de Nossa Senhora é celebrada no próprio dia. A oração da manhã foi dirigida pela delegação do Brasil. Cantamos nossos cânticos bem conhecidos, como “Mãe do céu morena” (Pe. Zezinho), o mantra “Escuta, Israel!” em várias línguas, “Virá o dia em que todos” (Canção de Maria) e “Teu nome é Maria” (Zé Vicente). O evangelho lido em português foi o da visita de Maria a Isabel (Lc 1,39-56).

A Conferência do terceiro dia do Congresso Missionário esteve a cargo de Dom Erwin Kräutler, bispo de Xingu, representando o Brasil. Abordou o tema “Evangelização: Comunidade missionária para a humanidade”. Leu seu texto traduzido em espanhol, mas com um tom vibrante. Sua exposição foi a mais aplaudida, porque estava com os pés no chão da realidade dos pobres, injusta, sofrida e violenta. Insistiu muito no Documento de Aparecida, especialmente a idéia da Igreja como casa dos pobres. Segundo comentários que escutei, esta deveria ter sido a primeira das três conferências. Foi muito profundo, tocou e comoveu as várias delegações. Mesmo assim, houve quem considerasse o conteúdo da fala de Dom Kräutler mais política que missionária, ou que lhe faltasse espiritualidade... Seguiram-se dois comentários como reação às colocações da Conferência, um da Irmã Brabilla, superiora geral das Missionárias Combonianas e outra de Frei Luís Cabrera (equatoriano), Definidor Geral dos Frades Menores, em nome do Ministro Geral, que não pôde estar presente no Congresso. Depois do “refrigério”, foram apresentados alguns testemunhos missionários. Um leigo do Chile contou a experiência bem sucedida de mais de mil universitários e outros jovens que fizeram missão de porta em porta, visitando casas, orfanatos, hospitais, etc. Outra experiência foi com 180 jovens universitários que começaram a fazer missão entre outros universitários e também pelas paróquias. Hoje são mais de 1500 os missionários universitários. Entre estes jovens surgiram muitas vocações sacerdotais, religiosas e leigas. Ultimamente fazem intercâmbios missionários com vários países, inclusive o Brasil (Amazônia). Contactos podem ser feitos: www.misióncontinental@misionpays.com . Um jovem sacerdote, Coordenador das Pontifícias Obras Missionárias do Líbano, falou de seu país, onde 18 confissões religiosas convivem em “total” harmonia. A violência que o Líbano sofre é conseqüência do conflito Israel e países muçulmanos. Os católicos do Líbano entendem que sua missão, além de trabalhar com os jovens que estão emigrando para outros países, é encarnar a esperança, viver a solidariedade com outras religiões dentro do próprio país. Neste sentido, concluiu com as palavras do Papa João Paulo II em visita ao Líbano: “Líbano é mais que um país, é uma mensagem para todos os povos”.
Após o almoço, cada delegado se dirigiu para o respectivo fórum. No fórum “Missão e Ecologia” a coordenadora, Irmã Marina, elogiou as palavras de D. Erwin Kräutler, uma corajosa denúncia contra os interesses dos grandes que agridem a generosa natureza da Amazônia. Sofrimentos e ameaças fazem parte da missão dos missionários. Frisou que, no campo da ecologia, temos que trabalhar em rede. Nosso processo de conversão deve começar com uma mudança de comportamento ecológico, pelas nossas práticas. Neste sentido, após o cochicho para responder as duas perguntas costumeiras, foram sugeridas várias ações concretas, inclusive de os participantes deste fórum estabelecerem uma rede de comunicação e intercâmbio de experiências.

No dia 15, após o “refrigério” da tarde, estava prevista uma conclusão interna do Congresso com uma missa. A celebração foi presidida pelo Arcebispo de Quito, Dom Raúl Vela Chiriboga, e concelebrada no grande auditório utilizado para as Conferências da manhã por muitos bispos e sacerdotes.

Dia 16 de agosto – Mini-missão nas paróquias
Sábado de manhã, os delegados hospedados pelas famílias das paróquias, junto com os respectivos catequistas e movimentos de Igreja, realizaram uma mini-missão. Saíam em pequenos grupos, visitando as famílias para deixar-lhes uma mensagem de animação e com elas partilhar as experiências vividas durante os dias do Congresso. Assim, a delegação do Brasil fez sua missão em três diferentes paróquias, onde estava hospedada. Alguns de nós, hospedados no Convento São Francisco, fomos fazer nossa pequena missão numa paróquia franciscana vizinha, junto com outros delegados ali hospedados. O tempo das visitas foi muito breve.

Após o almoço, servido para os frades no convento franciscano junto à paróquia, o pároco e um frade estudante nos levaram até outra paróquia franciscana vizinha. Ali se encontra o Santuário de Nossa Senhora de Guápulo, o mais antigo santuário mariano do Equador (1587). Não foi fundado por franciscanos, mas nos últimos dois séculos eles são os responsáveis por esta relíquia histórica. A igreja é de estilo barroco, como a maioria das igrejas antigas de Quito. Suas paredes da igreja chegam a ter cinco metros de largura! É um esplendor de ricas esculturas, banhadas de ouro, no altar mor e nos laterais, bem como na capela do Santíssimo. A igreja foi recentemente restaurada, sobretudo os afrescos da cúpula. Destaca-se o púlpito, com riquíssimos detalhes – seria o 2º mais belo do mundo: em baixo, no início da escadinha que conduz ao púlpito, está esculpido um cão de guarda; como nos dizia o pároco, era para lembrar ao pregador que ele devia ser o guardião da verdade dos dogmas...

Em seguida voltamos para a paróquia de Floresta, onde o pároco coordenou uma reunião de revisão e avaliação do trabalho dos missionários. Os testemunhos dos leigos foram, em geral, de muito entusiasmo. Meu grupo visitou uma rua considerada de pouca segurança, sujeita a muitos roubos e assaltos. Fomos batendo de porta em porta. Aliás, portões de ferro, com grades em janelas e portas. Várias vezes ninguém respondia. Outras vezes as pessoas rejeitavam imediatamente a visita, dizendo que não podiam nos receber, porque estavam ocupadas... Notava-se uma desconfiança, um medo de que poderíamos ser pessoas mal intencionadas. Outros nos atendiam e escutavam apenas atrás das grades de ferro dos portões. Apenas uma família nos recebeu de fato, pedindo que entrássemos em sua casa. Mas outros grupos de missionários foram muito bem recebidos. Foi, portanto, uma experiência válida e positiva, dentro das propostas do Documento de Aparecida para a ação evangelizadora. Durante a revisão, foi notável a presença de membros da OFS e de um grupo juvenil de jovens franciscanos (JUFRA), coordenado pelo frade estudante que ali estagiava. Esta presença, sem dúvida, demonstra uma participação viva nas pastorais da paróquia. Na noite de sábado, às 19h00, estava prevista uma missa de encerramento em todas as paróquias onde as famílias hospedavam os delegados do Congresso Missionário.

Dia 17 de agosto – encerramento do Congresso Missionário
O local da celebração eucarística de encerramento do Congresso Missionário era o estádio de futebol da Liga Desportiva Universitária (LDU). Era um lindo dia de sol, sem nuvens, mas soprava um vento frio dos Andes. Desde as 7h00 da manhã as pessoas foram chegando de todas as partes de Quito e arredores. Os sacerdotes se concentravam e se paramentavam no pátio de uma das entradas do estádio. Os bispos foram chegando. Havia uns duzentos coroinhas, meninos e meninas, uma centena de seminaristas, uns 400 sacerdotes, uma centena de bispos e alguns cardeais, além de umas 30 mil pessoas. As delegações e o povo foi se acomodando nas arquibancadas. Os sacerdotes ficaram nas arquibancadas, atrás do altar monumental armado à beira do gramado. Antes do início da missa foram trazidas solenemente as relíquias de Santa Terezinha do Menino Jesus, padroeira das missões. O arcebispo de Quito fez uma longa saudação, com um tom um pouco político, dirigido para a situação interna do Equador onde dia 28 de setembro o povo está sendo convocado para dizer sim ou não ao projeto da nova Constituição. Há até um conflito entre a Igreja e a sociedade civil sobre alguns artigos polêmicos do texto a ser aprovado. Depois, fez-se a oração dos fiéis em várias línguas. Para o ofertório os seminaristas e diáconos trouxeram para junto do altar uma centena de píxides com as hóstias a serem consagradas. A comunhão foi distribuída nas arquibancadas.

Ao final da missa foram trazidos para frente do altar 22 retábulos com a pintura do Sagrado Coração de Jesus e de santos, doados pelo Papa Bento XVI, para serem entregues a cada uma das 22 conferências episcopais presentes no Terceiro Congresso Americano Missionário. Por fim foi feito um solene envio de uns 15 missionários e missionárias, sacerdotes, religiosos(as) e leigos do Equador, para as missões nos cinco continentes. Um casal, com dois filhos, deverá vir ao Brasil, talvez para a Fazenda Esperança, a fim de servir, aprender e levar a experiência para o próprio Equador.

Na tarde do domingo, dia 17 de agosto foi convocada uma reunião dos delegados franciscanos, no convento São Francisco, para avaliar o Congresso. Estiveram presentes uns 25 frades franciscanos e capuchinhos do Equador, do Brasil, do Peru, da Colômbia, e da Argentina, além de três bispos franciscanos. A reunião foi presidida pelo Definidor Geral, Frei Luís Cabrera. Duas perguntas foram respondidas: O que mais impressionou e que conseqüências o CAM 3 trás para a família franciscana. Na opinião geral, o Congresso foi bem organizado, foi uma belíssima expressão cultural e religiosa, a presença marcante da família franciscana (de hábito) tanto na preparação do Congresso, como nos serviços em geral. Foi destacada a conferência dada por Dom Erwin Kräutler como positiva, apesar de criticada por alguns. O CAM 3 estimula os franciscanos a não se afastarem do povo e pede a nossas Províncias a generosidade de dar de sua pobreza missionários para as missões. Fica a pergunta: Como nós franciscanos vamos concretizar em nossa ação missionária o desafio proposto por Aparecida e pelo CAM 3.

Por fim, o Pe. Provincial, Frei Walter, agradeceu a todos os franciscanos que durante dois anos trabalharam intensamente pelo sucesso do CAM 3. Fez também agradecimentos especiais ao Pe. Guardião, Frei Mário, pela sua dedicação no atendimento aos delegados missionários que se hospedaram no convento franciscano. De fato, durante todos os dias fomos tratados com muita atenção e espírito fraterno. A todos os confrades de Quito, um muito obrigado!

Como comentário conclusivo do Terceiro Congresso Americano Missionário diria o seguinte. Estes congressos, promovidos sempre com apoio das Pontifícias Obras Missionárias, estão voltados de modo especial para a missão ad gentes, isto é, para a missão fora do país de origem do missionário. Isto ficou claro pela predominante presença do clero, religiosos(as), tanto na organização, como nas celebrações litúrgicas, conferências, comentários e testemunhos e mesmo nos fóruns. Senti falta de maior presença dos leigos. Talvez por isso a conferência de Dom Erwin Kräutler foi tão aplaudida. Ele se dirigiu mais à situação interna dos países, divididos pelas injustiças e pelos conflitos. Procurou resgatar um pouco mais o Documento de Aparecida, cuja preocupação é a evangelização dentro do próprio país, sem excluir a evangelização ou missão ad gentes.

Quito turística e seus arredores
Quito é uma cidade de dois milhões de habitantes. A população é uma amostra da população do Equador: 70% são crioulos, isto é, descendentes de espanhóis com alguma mistura com raça indígena; brancos, indígenas puros (5%) e descendentes de negros perfazem o restante da população. É uma cidade rica de história e cultura. Uma história violenta, na qual os conquistadores espanhóis, ávidos de ouro, prata e pedras preciosas, dominaram de modo violento a cultura inca. Quito orgulha-se de ser a “luz da América”, pois ali se deu o primeiro grito de independência, no dia 09 de agosto de 1809. De Quito, em 1541, partiu a expedição de Francisco Orellanas que descobriu o Rio Amazonas. Para comemorar a data do primeiro grito de independência, por iniciativa da Prefeitura e do Governo da Província de Quito, houve mais de 50 manifestações culturais nas praças e museus, que neste dia estavam com a entrada franca para toda a população. À noite do dia 08, Frei Nestor Schwertz e eu, junto com um confrade equatoriano, saímos para ver e sentir a festa popular. Passamos por praças e ruas onde se realizavam shows de conjuntos que apresentavam a riqueza musical do folclore tradicional ou de música moderna. Era difícil movimentar no meio da massa de gente circulando com dificuldade, pais acompanhados com seus filhos, na mais perfeita ordem, sem a presença de pessoas bêbadas. Parecia que a metade da população de Quito estava nas ruas e praças.

Desde 1976, o centro histórico de Quito foi reconhecido pela ONU como patrimônio cultural da humanidade. Inclui dezenas de igrejas barrocas, uma mais bonita que a outra, conventos antigos, centros culturais, belíssimas praças e museus. O patrimônio histórico está continuamente investindo para conservar e restaurar as esplendorosas igrejas, a maioria capaz de competir com os melhores exemplos de igrejas barrocas do Brasil, e até mesmo superando-as em beleza. A igreja do Convento São Francisco, em que estive hospedado, é um destes monumentos históricos que, no momento, está sendo restaurado pelo patrimônio histórico. São no mínimo 30 pessoas, entre engenheiros, carpinteiros, pedreiros e restauradores que estão trabalhando intensamente, todos os dias. Uma estrutura de ferro isola o teto da igreja, que está sendo restaurado por fora e por dentro. Um pano está colocado na frente do altar mor, para permitir o trabalho de restauro e as celebrações litúrgicas ao mesmo tempo. Dois corredores do claustro principal, com cinco metros de largura e uns 80 metros de comprimento cada um estão cheios de partes do altar de madeira e do teto para serem restauradas e banhadas em ouro. Este trabalho deverá estar pronto até outubro, quando a igreja será fechada para trocar o piso antigo de madeira, feito de tábuas largas. Aliás, a maioria das igrejas antigas tem piso de madeira, talvez por causa do frio, pois a temperatura média varia entre 4º e 25º acima de zero, o ano todo. Em algumas igrejas restauradas já foi renovado o piso de madeira antes existente. Quito de fato está investindo no turismo e na cultura. Em todos os museus, mesmo nas igrejas abertas em determinadas horas para a visitação turística, a gente encontra guias oficiais, jovens bem educados e preparados, funcionários públicos, que recebem do governo para fazer o seu trabalho com competência.

Como a moeda no Equador é o dólar americano, para um brasileiro, os custos de uma estadia em Quito são baixos. Uma passagem de ônibus (ou trolebus) urbanos, por exemplo, vale apenas 25 centavos de dólar!

Dia 09 os frades nos levaram de carro para visitar a cerca de 50 km de distância até o monumento que marca “la mitad del mundo”, a metade do mundo. Trata-se de um marco monumental construído depois que uma missão científica européia, composta de matemáticos e geógrafos, estabeleceu que naquele ponto passa a linha divisória entre o hemisfério norte e o sul. Esse trabalho foi feito na segunda metade do séc. XVIII. Desde então o país se chama Equador (aequalis pars?). O monumento, exibido com orgulho, é um ponto para o qual todo turista costuma ser conduzido. A uns 10 km de lá fomos até a beira de um vulcão extinto; No meio de sua cratera, 300 m mais abaixo, estende-se uma pequena planície fértil, utilizada pelos agricultores.

Dia 10 tomamos um ônibus que nos levou até Otavallo, a duas horas de viagem, passando por estreitos e profundos vales. As encostas destes vales eram bastante áridas, com pouca vegetação, pois o terreno frágil é composto de cinzas vulcânicas. Otavallo fica a cerca de 2.300 m de altitude, bem abaixo de Quito. Em Otavallo fomos muito bem acolhidos no convento dos franciscanos, que já nos estavam esperando. O convento, que fica ao lado da igreja paroquial, é também a casa de formação dos postulantes. A propósito, 12 postulantes estavam prontos para começar o noviciado. Em agosto sete frades fizeram sua profissão solene. Por sinal, a média de idade da Província de Quito é de apenas 35 anos.

Depois do almoço, o pároco, muito gentil, levou-nos de carro a um lugarejo próximo, chamado San José, famoso pelo seu artesanato e pelos artistas escultores em madeira. Retornando a Otavallo visitamos a praça onde se expõe o rico artesanato de confecções de ponchos, agasalhos, jaquetas, mantas, xales, etc., feitos de lã de lhama ou de ovelha. Enfim, roupas próprias para enfrentar o frio dos Andes, com as mais vivas cores, desenhos, figuras de animais para satisfazer a todos os gostos. Pelas 16h00 tomamos nosso ônibus de volta para Quito.

Na segunda-feira, dia 18 de agosto, visitamos o museu do Convento São Francisco. O acervo do museu foi formado pelos frades, com peças próprias e de outras proveniências. Reúne, sobretudo, grandes quadros da Escola Quitenha de pintura e escultura, imagens de santos e santas e de Cristo sofredor. É um patrimônio artístico de inestimável valor, muito visitado. Funcionários do patrimônio artístico e cultural, presentes em cada sala do museu (como em outros museus da cidade), recebem os turistas e lhes explicam as características de cada peça ou quadro. Depois, guiados por um confrade, visitamos outros espaços físicos do grande convento. Merece destaque o grande e belo refeitório, hoje restaurado, que costuma ser alugado pelas autoridades civis de Quito para banquetes oferecidos a visitas de autoridades estrangeiras. Interessante é também a cervejaria interna do convento. Aliás, os franciscanos foram pioneiros não só na fabricação de cerveja (1566), mas também os primeiros a introduzir a plantação de trigo na região; os primeiros a abrir uma escola para espanhóis e indígenas em Quito (1550); os primeiros a construir um aqueduto que provia a nascente cidade de Quito de água limpa e abundante. A escola funcionava nos moldes das reduções jesuíticas posteriores. Portanto, incluía a formação intelectual, religiosa, profissional e artística. Hoje, no local da primeira escola de Quito, funciona a Faculdade de Teologia dos Franciscanos, que concede título através da Universidade Católica de Cuenca.

Quanto à cervejaria, funcionou até 1976. Recebia os insumos (lúpulo, cevada) de um fabricante local de cerveja, mas o segredo era dos frades. Os próprios donos da cervejaria da cidade preferiam beber a cerveja dos frades... Hoje está em estudo a reabertura da fábrica artesanal de cerveja do convento, com apoio de empresários locais e até da Alemanha.
Dia 18 à tarde, frei Nestor tomou seu avião de volta ao Brasil e eu visitei a antiga biblioteca do convento São Francisco. O acervo contém alguns códices manuscritos e cerca de 8.000 volumes antigos, alguns do final do séc. XV e muitos dos séculos XVI a XVIII. Devido ao clima frio e seco, a maioria está em ótimo estado de conservação. Um casal de italianos de uma universidade do norte da Itália, em convênio com o patrimônio histórico e o Convento São Francisco, já durante cinco anos vem passar suas férias de verão em Quito, para catalogar os livros. Ele é professor de história e ela, bibliotecária profissional. O serviço de classificação, fichas por autores e títulos, estará concluído até 11 de setembro e, em breve, disponibilizado em CD para pesquisadores. A grande maioria das obras está em latim, mas há também obras em espanhol, francês e algumas em português. Os assuntos principais desta preciosa biblioteca são: teologia, pregação (sermões) e história. O próprio casal está impressionado pelo ótimo estado de conservação dos livros. O papel parece que saiu ontem da fábrica, me diziam. Mostraram-me alguns volumes. Não notei nenhum deles furado pelos “bichinhos”, como acontece com nossos livros antigos da Biblioteca do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, recolhidos de vários conventos da Província. Mostraram-me também algumas páginas onde os leitores escreveram observações marginais, em letra bem clara e legível. Um deles não gostou de um livro de sermões e escreveu: “Estos sermones no valen nada!” E assinou! Trata-se de uma biblioteca preciosa para pesquisadores de história.

Após a visita à biblioteca, dei mais um giro pelo centro histórico e aproveitei a ocasião para visitar a igreja dos jesuítas, restaurada em 2006. Esta e outras igrejas não podem ser visitadas por turistas durante os ofícios e celebrações litúrgicas. Fora destes horários, funcionam como museus, com entrada cobrada e guias que dão as explicações. A igreja dos jesuítas é considerada uma das mais ricas e representativas do estilo barroco quitenho. De fato, é um esplendor, esbanjando esculturas em madeira, folheadas e douradas em ouro. A guia nos dizia que no restauro foram gastos uns 53 kg de ouro para recobrir as preciosas esculturas dos altares de madeira e do teto.

Caro leitor, se você tem a possibilidade de viajar a algum país, vá conhecer Quito e verá com os próprios olhos mais um motivo por que os equatorianos consideram sua capital a “Luz da América”. Devido a nossa moeda, o real, forte em relação ao dólar, moeda adotada no Equador, os custos serão menores do que certas viagens turísticas dentro do Brasil. Com certeza não vai se arrepender.

Petrópolis, 30 de agosto de 2008.

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