“Ou estamos do lado dos pobres ou do lado de quem os oprime”
Por José Carlos Freire, especial para o site
Na tarde de terça-feira, teve início uma etapa importante no Congresso Missionário da Ordem dos Frades Menores para a América Latina e Caribe, que se realiza na cidade de Córdoba, na Argentina: as apresentações de diversas experiências significativas de evagelização realizadas pelos franciscanos da América Latina e Caribe.
A primeira apresentação foi feita por Frei José Francisco de Cássia dos Santos, Animador Provincial do Sefras - Serviço Franciscano de Solidariedade. O Serviço foi apresentado aos congressistas, com destaque feito por Frei José à natureza evangelizadora da ação social (Veja texto na íntegra abaixo). Frei José também apontou a importância da partcipação dos leigos no trabalho do Sefras, o que veio ao encontro das reflexões realizadas anteriormente no Congresso. O animador provincial deste serviço também afirmou que o Sefras tem conseguido realizar uma ação ao mesmo tempo evangelizadora e com implicação na defesa de políticas públicas pelo fato de se tratar de uma opção provincial, e não apenas iniciativas de alguns frades.
Após a apresentação de Frei José Francisco foi a vez de Frei Luis Patiño, que trouxe o trabalho realizado pelos frades da Província de São Paulo Apóstolo, na Colômbia, junto aos desabrigados.
Em seguida, os congressistas puderam fazer perguntas aos dois expositores, o que mostrou a grande ressonância dos trabalhos realizados. Assim como estas experiências, outras serão apresentadas nos próximos dias do Congresso.
Íntegra da apresentação do Serviço Franciscano de Solidariedade – Sefras -, feita pelo animador provincial, Frei José Francisco de Cássia dos Santos:
“Quando fomos convidados a apresentar o Serviço Franciscano de Solidariedade – o Sefras -, eu me perguntei: “O que podemos levar para Córdoba”? Pois não portamos nenhuma novidade, não somos inventores de uma nova possibilidade de trabalho. Se fôssemos falar de trabalho social, vemos, pela história franciscana, que os frades sempre estiveram envolvidos com a ação social. Pela chave de leitura da justiça, o Serviço de Justiça, Paz e Ecologia esteve sempre empenhado nessa área.
Desse modo, penso que a nossa contribuição não esteja tanto no que fazemos, mas sim no como fazemos. Eu destacaria dois pontos. Primeiramente, vale lembrar que em toda história da nossa Província da Imaculada, o trabalho social foi realizado por iniciativa de um frade ou fraternidade, numa ação localizada. Nesse sentido, cabe afirmar que o trabalho do Sefras se constitui como opção provincial, da mesma forma que outras como paróquias, universidades etc. A ação social aparece, assim, como legítima frente de evangelização, numa iniciativa organizada pela Província em seu conjunto.
Desta opção emergem necessidades como a organização. Precisamos fazer a opção e encaminhar formas concretas de sua realização. Isso exigiu de nós um planejamento, o que nos fez deparar com limites, entre eles, a constatação de que não temos condições de fazer tudo, nós precisamos de assessores, da contribuição dos leigos. Trata-se, pois, de um trabalho de equipe.
Um segundo aspecto é que o trabalho deixa de se configurar como atendimento fortuito, de socorro imediato às necessidades dos pobres. Eu diria que vai além do conviver com o pobre: leva-nos a assumir um compromisso com eles, o que nos exige uma decisão política, uma vez que a opção pelos pobres, como temos refletido no Encontro, não se trata apenas de um conceito teológico, nem uma frase espiritual, mas sim um com implicações sociológicas e políticas. A fé repercute em nossa experiência prática do dia-a-dia, de tal forma que assumir a causa dos pobres significa muito mais que simplesmente cuidar deles.
O teólogo Pe. José Comblim, em um Congresso teológico ocorrido no Brasil, no ano passado, disse que a evangelização em nosso tempo se configurará de acordo com o grupo que for capaz de tomar decisão, aquele que disser de que lado está. E penso que, na reflexão que temos feito ao longo do Encontro, fica claro que precisamos optar: ou estamos do lado dos pobres ou do lado de quem os oprime. É uma decisão que urge tomarmos.
A partir dessa compreensão, apontaria dois aspectos que são relevantes ao nosso Encontro. Primeiro, o fato de que o trabalho social se apresenta como uma contribuição para a nossa vocação. Ele não nos deixa apenas no encontro com os pobres, mas nos leva para o meio deles. Em segundo lugar, considero que este tipo de trabalho nos coloca num espaço no qual a igreja institucional não consegue se fazer presente, ou seja, impulsiona-nos para fora dos muros da igreja, nos espaços em que não temos o domínio pastoral. Isso é desafiante e, por vezes, leva-nos a querer abandonar a proposta.
No entanto, acredito que é próprio de nossa missão ir ao encontro da realidade de pobreza, sobretudo em nosso tempo. Para isso, cito uma contribuição feita pelo Congresso teológico de São Paulo, a que me referi anteriormente. Nas reflexões do Congresso, constatou-se que a evangelização de nossos dias precisa levar em conta aspectos como a relação de etnias e de gênero, o diálogo religioso e o ecumenismo, a ecologia e o pluralismo cultural. Não podemos deixar de lado tais aspectos, visto que se apresentam fortemente no contexto das grandes cidades onde estamos atuamos. São aspectos, inclusive, que nos forçam à mudança, ao aprendizado de como dialogar e relacionar com a realidade do mundo urbano.
Estes são alguns pontos que julguei importantes colocar, a partir do trabalho social que temos realizado”.
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