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       São Paulo, 12/10/2008, 07:06          
 
 








 
 

 



01/07/2008

Por Moacir Beggo

No dia 1º de julho de 1958, Frei Afonso Vicente Vogel era ordenado sacerdote. Nesta semana, a cidade de Xaxim, no Oeste Catarinense, estará em festa para celebrar o Jubileu de Ouro de Frei Afonso, o querido e conhecido Maestro de Xaxim.
A festa, contudo, será realizada no dia 5, com a celebração do Jubileu na Igreja Matriz de São Luís Gonzaga, às 19 horas. Três corais vão deixar a festa ainda mais bela: Coral Arautos do Grande Rei, Coral São Luís e Coral Nova Erechim.
Aos 76 anos, com duas pontes de safena, Frei Afonso Vogel se dedica exclusivamente ao Coral Araultos do Grande Rei, obra que fundou há 36 anos. Hoje, não dá para imaginar este simpático franciscano longe dos seus Arautos. Aliás, só em 77 o Coral teve um breve recesso, exatamente porque ficou sem maestro, já que Frei Afonso foi transferido para Curitiba. Mas, em 78, ele estava de volta e o Coral não ficou mais sem o seu regente. O Coral, não! A cidade ganhou de volta um de seus maiores símbolos.

Nesta entrevista, Frei Afonso fala de sua maior criação como religioso franciscano, já que foi admitido na Ordem dos Frades Menores, pela Província da Imaculada, no dia 19 de dezembro de 1951.

Site Franciscanos – Frei Afonso, como começou o seu interesse pela música?
Fr. Afonso -
Meu primeiro presente de criança, com 7 ou 8 anos, em Bom Princípio, Porto União (SC), foi uma gaitinha de boca, o que já indicava meu gosto pela música.
Nessa época, o meu irmão – somos em doze irmãos, sendo seis meninos e seis meninas – já sabia tocar violino. Meu pai insistia muito para que aprendêssemos música. Tanto ele como minha mãe estimulava a gente a cantar e a gostar de música. Eles cantavam para nós cantos desconhecidos e faziam um belo dueto. (Frei Afonso é filho de uma família de religiosos e seu irmão, Vunibaldo, também é frade na Província)

Franciscanos – No Seminário veio a formação musical?
Fr. Afonso -
Em Guaratinguetá (Frei Afonso ingressou no Seminário Menor em 1942, exatamente quando era inaugurado), tocava harmônio, piano e gaita. Meu professor era Frei Jorge Kneipp. No Seminário de Agudos, comecei a tocar órgão. Depois, no período de formação, toquei órgão no Noviciado - quantas vezes toquei naquele órgão!-, em Curitiba (Filosofia) e Petrópolis (Teologia). Depois, como padre fui crescendo nesta linha. Em Luzerna fiquei dois anos no seminário velho, dois anos no novo e um ano na paróquia. No primeiro ano passei observando Frei Henrique e, mais tarde, ele confiou a mim a aula de música. Depois, dei aula de música em Ituporanga, onde tinha um menino que era sobrinho de Frei Basílio Prim, o Cláudio Prim, um verdadeiro músico. Mas ele faleceu num desastre. Aliás, eu inaugurei o Seminário de Ituporanga, em agosto de 65, depois que foi fechado o antigo seminário de Rodeio, onde tinha dado meio ano de aula. Fiquei em Ituporanga até 1970 e tive como meu aluno Dom Frei Severino Clasen, que jogava muito bem futebol. Eu era o técnico da seleçãozinha do seminário. Em 1971, eu vim para Xaxim.

Franciscanos – E já fundou os “Arautos do Grande Rei”?
Frei Afonso –
Cheguei em 71 com o com o cabedal de música que tinha em Ituporanga. Padre novo, com 38 anos, cheguei para ser vigário numa uma paróquia grande. Em 1972, tinha vinte coroinhas. De repente, eles quiseram ensaiar um pouco de canto e daí nasceu o Coral. A idéia nunca chegou a ser a de formar um coral, mas de a matriz ter crianças que cantassem bonito. Então, comecei a treinar com eles durante o ano e, no Natal de 1972, cantamos pela primeira vez na Igreja um repertório natalino, bem simples. Não me lembro se foi a duas vozes. Mas eram cantos bem entoados, bonitinhos mesmo! O Frei Valentim colocou na crônica da casa que o povo chorou de alegria naquela noite. Nunca tinha escutado um coral de crianças. Hoje, ainda as pessoas se emocionam nas apresentações do Arautos.

Franciscanos – O sr. já gostava de coral?
Frei Afonso -
Esta ligação com o Coral vem acontecendo desde quando era criança. Quando estava em Guaratinguetá, com mais ou menos 14 anos, comecei a aprender harmônio e escutei um canto de Natal em alemão, que nunca esqueci. Pus no papel aquela melodia e depois inventei duas estrofes em português. Passei a minha vida procurando este canto e, um belo dia, o achei na Internet. Acho que depois de 60 anos, a melodia se tornou universal. Você acredita que existem direitos autorais depois de 60 anos (risos). Depois da minha volta a Xaxim, em 78, eu fiz dois cursos de regência: um com o Maestro José Acácio Santiago e outro com o maestro Ernani Aguiar. Quando estava em Curitiba, pude ver uma apresentação dos Meninos Cantores de Viena e voltei mais animado ainda para o Coral dos Arautos do Grande Rei.

Franciscanos – Participou dos Canarinhos de Petrópolis?
Frei Afonso –
Na fase da adolescência e da mudança de voz, dediquei-me mais ao aprendizado de instrumentos musicais. Uma vez formada a voz grave passei a ser componente dos corais nos seminários e clericatos em que estudei. Em Petrópolis, chegamos a gravar dois discos com os Canarinhos. Cantamos com os Canarinhos no Congresso Eucarístico de Petrópolis em 1955 e no 36º Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro no mesmo ano.

Franciscanos – Como nasce a inspiração?
Frei Afonso –
É difícil falar. Tenho a impressão que muita gente possui conhecimentos musicais e tentam fazer melodias. Tecnicamente. Para mim, isso não acontece. Sem mais nem menos, não dá. O ‘Hino a São Luiz’ é um caso desses. Eu pensei durante anos que ‘tinha de fazer um hino a São Luiz’, mas nunca vinha a inspiração. Até que surgiu o texto da vida do próprio santo. Ele era jesuíta e morreu jovem. Sendo jesuíta, ele era da Companhia de Jesus. Ele atendeu uma voz divina para entrar na Companhia de Jesus. ‘Atendendo a voz divina, carrega a tua cruz, reconhece a tua sina, ser soldado de Jesus’, com rima. Depois, ele é Padroeiro da Juventude. Agora, só palavrinhas doces não adiantam. Então, a gente diz: ‘Grande foi sua virtude, que do mundo se fez luz, és para toda a juventude um farol que a Deus conduz’. Ele morreu jovem cuidando de doentes em Roma... Não adianta eu ficar pensando ‘vou fazer assim’! Agora, poesia, como ‘Maria, Mãe de Deus’, a gente fica meditando. Cada dia de manhã, depois do café, vou à Sacristia, fico meia hora caminhando a 120 passos por minuto, em marcha marcial – cada segundo dois passos -, então fico refletindo, matutando, rezando, pensando, divagando. Às vezes surge uma poesia. Uma criação que vem naquele momento.

Franciscanos - Como é o Maestro de Xaxim?
Frei Afonso -
Que vou dizer!? Para segurar um coral desse jeito, você tem de ter umas qualidades que são difíceis de ter, e a gente procura realmente ficar dentro delas. E com minhas pontes de safena - duas -, não posso mais trabalhar tanto e nem devo ficar bravo. Mas o meu dever eu cumpro. O Provincial sabe disso. O que eu posso fazer, eu faço direitinho. Não visito capelas porque com um carro meio xucro elas (as pontes de safena) parecem vibrar. Então, me deixaram livre aqui em casa.

Franciscanos – O Sr. é muito disciplinador, já que a música exige disciplina?
Frei Afonso –
Digamos, que por natureza, as crianças gostam de ser independentes e não gostam de receber ordens nem dos pais. Mas o Coral tem um regimento a cumprir e volte e meia os maestros chamam a atenção. Se não obedecem, eu passo uma descompostura bem bonita. No fim, pergunto: ‘Estou certo ou errado?’ Todas as crianças respondem juntas que estou certíssimo. E todos continuam amigos.
Sou uma espécie de pai para eles. O tenor Beto Battistella me chama de segundo pai.. Você atrai as crianças sem querer. Com a música. Não precisa ficar enganando ninguém. Você tem de ser o que é.

Franciscanos – O Arautos produziu muitos frutos, cite alguns deles?
Frei Afonso -
Dos meus alunos que preparei, tem o Fabiano Zoldan, que fez Laboratório Química, mas estudou música. Foi trabalhar em Tubarão, na Universidade Unisul, e gravou dois cds lindos. Tem a Maysa Stainsack, o Márcio Buzatto e o Alberto Battistela. Falando do Buzatto, não sou capaz de compor como ele. Eu reconheço que o aluno deve superar o mestre. Deve poder. Como Beethoven superou o Mozart, mas sem comparações (risos).

Franciscanos – Por que a preferência pelo coral infantil?
Frei Afonso –
Quando ensinei crianças a cantar, notei que de fato estava promovendo o ser humano em sua comunicação com Deus e com o outro pela voz, pela fala e pelo canto. Se o instrumento musical, por melhor que seja, é inerte e só responde à sensibilização que eu lhe dou como tocador do instrumento, com o ser humano, principalmente com a criança é diferente. A sensibilização dada pelo mestre que ensina a cantar tem geralmente como resposta uma ressonância positiva inimaginável. A criança quer aprender, bastando haver alguém que saiba ensinar e mostrar: “é assim”. Fiz minha primeira experiência como regente de coral infantil em 1963, no Seminário de Luzerna. Reuni alguns meninos voluntários com os quais fiz treinos especiais de voz e empostação. Deu certo. Notei que eu tinha jeito e, o que é importante, as crianças queriam aprender. Este pequeno coral recebeu o nome de “Corinho de Frei Afonso”. Com minha transferência, alguns meses depois, para a Paróquia de Luzerna o “Corinho” se diluiu no meio dos outros seminaristas.

Confira o site do Coral Arautos do Grande Rei
http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias_especiais/freiafonso/