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       São Paulo, 22/11/2008, 05:45          
 
Céu de um azul límpido e ensolarado
O café-da-manhã no salão paroquial
A decoração do Ginásio: faixas em forma de tenda
Imagem de São João Batista
A coreografia do Livro da Palavra (Equipe da Vila Clementino)
O grupo de músicos (cantores e instrumentistas)
Os solistas da Ladainha e a Salmista

FÉ,  BELEZA  E  EMOÇÃO
Ordenação de Frei José Francisco


Por Frei Regis Daher, ofm

A celebração da ordenação presbiteral de Frei José Francisco, em Cachoeira de Minas, possibilitou aos presentes viver momentos intensos de fé, de beleza e de emoção. Mais do que um relato ou crônica, desejo partilhar os significados mais profundos que alguns fatos, palavras e gestos despertaram nos corações de todos.

A cidade e o seu povo
O clima do outono, com céu de um azul límpido e ensolarado, a paisagem típica das Gerais, com suas esplêndidas montanhas e os caminhos da estrada revelando o verde vicejante, como pinturas diferenciadas, à cada curva, revelam toda a poesia própria deste pedaço do Brasil. Não por acaso, deste chão nasceram nossos maiores poetas, escritores, músicos e místicos. Minas Gerais é inspiração pura, em estado natural. E a cidadezinha Cachoeira de Minas, não foge à regra. Sua maior beleza e seu encanto estão exatamente na sua simplicidade, típicas do interior, ainda não totalmente massificado pela presunção dos grandes centros.

E o seu povo, reflete no jeito de ser e de viver, esta simplicidade originária encantadora, que nós, de algum modo, perdemos um pouco. É bem conhecida de todos a hospitalidade mineira. Mas, outra coisa é experimentar e testemunhar essa marca registrada de seu povo. Eles dão o melhor de si, com modéstia e abundância. Todos os que se dirigiram de outras cidades para a celebração, eram recepcionados, já na entrada da cidade, pela equipes de jovens que orientavam os visitantes, convidando para o café da manhã no salão paroquial e para o almoço, após a ordenação. Toda a comunidade paroquial se mobilizou para os inúmeros serviços, sem faltar absolutamente nada. Cuidaram de tudo com extrema delicadeza e dedicação.

Celebrar com emoção
A liturgia sacramental aconteceu no Ginásio Poliesportivo da cidade, uma vez que, a pequena Igreja Matriz de São João Batista não comportaria a multidão de fiéis. No entanto, o espaço esportivo ganhou aspecto sagrado com a beleza da criatividade e da dedicação da comunidade. A quadra central transformou-se num grande presbitério, coberto por faixas brancas, em forma de tenda. O fundo do ginásio, também revestido de branco, foi ornado com uma videira gigante e cachos de uva e, ao lado, uma flâmula com a reprodução do desenho e lema do convite da ordenação.

O mesmo espaço da quadra ficou reservado para os celebrantes, ministros, acólitos, coral e grupo de música, os familiares e amigos de Frei José Francisco e para os inúmeros grupos das caravanas vindas de fora. Nas arquibancadas, em plano mais alto, o povo de Cachoeira, com bandeirinhas e faixas. Atrás do altar, uma grande cruz de São Damião, trazida na procissão de entrada, e ao lado direito, uma bela imagem de São João Batista, sobre uma grande coluna. Dentro dessa moldura, o entusiasmo, a alegria e a felicidade tomaram conta de todos, criando um único ambiente celebrativo. E o rito foi acontecendo de forma simples, mas carregado de beleza e emoção.

A Palavra, o canto e a dança feitos oração
Um aspecto muito significativo da celebração foi a participação diversificada das pessoas e das comunidades relacionadas à história vocacional e religiosa de Frei José Francisco. A comunidade paroquial da Vila Clementino introduziu o Livro da Palavra de Deus, com devoção, fé e beleza, numa coreografia em que o Lecionário veio acompanhado com mulheres trazendo nas mãos os luzeiros em chama viva. Enquanto o solista entoava o canto, algumas frases bíblicas eram pronunciadas, como que, criando uma expectativa no coração.

 Dom Caetano recebeu o Livro e o ergueu para a saudação de todos numa palpitante salva de palmas. A Sra. Cleusa de Oliveira Ribeiro e Silva, membro do grupo de canto, entoou o Salmo Responsorial, com grande beleza e suavidade. Dois jovens rapazes, André Luiz de Carvalho Ribeiro e Alexandre Rodrigo Costa, provavelmente,  foram os responsáveis por um dos momentos mais densos da celebração: o canto, a duas vozes, da Ladainha de Todos os Santos. A suavidade e a beleza do acompanhamento musical, criaram um momento de profunda fé e inspiração. No ofertório, um grupo de meninas coreografou o canto do Santo com graça e beleza.

Uma história de fé
Frei José Francisco é o 21º presbítero nascido em Cachoeira de Minas. Certamente esse fato revela mais que uma curiosidade numérica. Num local tão pequeno Deus gerou, fez germinar e crescer não somente as vocações ministeriais da Igreja, mas sobretudo a vivência genuína da fé cristã nas famílias e na própria comunidade eclesial. Alguns sinais. Os dois padres diocesanos, o pároco Pe. Dirlei Abércio da Rosa e seu vigário Pe. João Luiz Peçanha, envolveram toda a paróquia na preparação da ordenação, numa demonstração clara de que são, de fato, os animadores e a referência da evangelização. Foram autênticos irmãos na atitude de hospitalidade e na generosidade fraterna com que acolheram a equipe missionária vocacional para a preparação da comunidade.

Ao final da celebração, Frei José Francisco reuniu ao seu redor, chamando um a um, algumas pessoas que marcaram sua trajetória vocacional. Começou pelos seus pais, Alfredo e Maria Augusta, que lhe deram a vida familiar. A madrinha de batismo, sua avó Sra. Maria Ribeiro de Oliveira, que veio caminhando lentamente ao seu encontro, aos 83 anos de idade. Emocionou-se às lágrimas quando fez a memória de dois falecidos: seu padrinho de batismo, o avô paterno, Sr. Francisco Fernandes dos Santos e do pároco que o encaminhou ao seminário diocesano, Pe. Otávio Lourenço Sant’Ana. Sua primeira catequista, a Sra. Maria Imaculada Tenório, que o preparou para a primeira eucaristia. Frei Fábio Panini, na época vivendo em Bragança Paulista, foi quem o acolheu e o preparou para o ingresso na vida franciscana.

Dom Caetano Ferrari, enquanto Ministro Provincial, de quem recebeu o hábito na admissão ao noviciado e nas mãos de quem emitiu os votos temporários. Para cada um, Frei José teve uma palavra de carinho e de agradecimento. Mas mais do que isso, ele destacou a presença de cada um como uma forma de aprofundamento da fé e do chamado que Deus foi realizando em sua vida.  Lembrou ainda que, entre essas pessoas estavam todos os demais, as famílias, os amigos, os confrades, a comunidade local e a Província Franciscana, que o ajudaram a responder o contínuo chamado de Deus. No fundo, a vocação é uma obra coletiva de fé.

“E o Senhor me conduziu para o meio deles”
Ainda como diácono, Frei José Francisco acolheu a incumbência de acompanhar e animar o trabalho com os soropositivos no Cefran (Centro Franciscano de Luta Contra a Aids), em São Paulo. Posteriormente, foi nomeado pelo Definitório como Animador Provincial do Sefras. Tudo isso, a nós frades, é uma evocação daquela experiência referencial de São Francisco, quando ele revela no seu Testamento que, tanto o chamado, como a missão e o serviço que realizamos é uma obra contínua e inacabada, sempre por fazer num novo recomeço. A profissão solene ou a ordenação de um confrade é sempre ponto de partida para um novo chamado e um novo envio, com a consciência de que é o Senhor mesmo que nos conduz.

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