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Malhar Judas não é uma atitude cristã
Por Frei Pilato Pereira (*)
A primeira vista é de se surpreender com o fato de que o bispo de Barra, na Bahia, Dom Frei Luiz Cappio, com 22,77% dos 11.773 votantes, tenha sido eleito o “Judas da Semana Santa” no município de Crato, Ceará. É surpreendente o fato de Frei Luiz ser eleito o “Judas”, “condenado”, de acordo com o folclore daquela cidade, “por ter traído o povo”. Afinal, mesmo que alguém seja contra a opinião e a causa de Cappio, não teria motivos para compará-lo ao traidor de Jesus de Nazaré, e contrariar sua postura com algo tão ridículo. Mas, pensando bem, não é nada surpreendente assim. Porque quem pratica isto, não o faz por uma motivação evangélica de amor a Jesus Cristo, mas faz isso por uma inspiração não-cristã. Sendo um ato não-cristão, é "normal" que um verdadeiro cristão, como é Frei Luiz, seja condenado neste episódio.
Foram 2.681 pessoas, motivadas por alguns líderes que “condenaram” Dom Cappio desta maneira. O mesmo ocorreu com Jesus Cristo. Os líderes, as autoridades da época motivaram o povo a reivindicar a morte de Cristo e pedir a liberdade de Barrabás. Em primeiro lugar, quero observar isto. Para que Barrabás fosse libertado, Jesus teria que ser condenado. Ou um ou outro. Na lista de candidatos a “Judas da Semana Santa” em Crato, Ceará, na terra de Ciro Gomes, apareceram vários nomes, como o presidente Bush, Hitler, Fernandinho Beira Mar, o Trem do Cariri e o Cartão Corporativo, mas o condenado foi frei Luiz, no lugar de todos estes bandidos, assassinos e traidores do povo. Impressionante as semelhanças da vida de Cappio com a vida de Jesus.
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Na liturgia da Quinta-feira Santa Jesus nos mostra as coisas mais essenciais da vida cristã. Com o gesto de lavar os pés dos discípulos, Ele nos ensina a servir, pois, quer que seus seguidores estejam a serviço dos mais pobres. Ao repartir o pão, que é dom de Deus, Jesus entrega a si mesmo como alimento para a vida da humanidade. Mas, em meio a esta grande maravilha, que é o serviço, a solidariedade, a partilha e a comunhão, aparece a traição de Judas. Dom Cappio pôs a sua vida em risco porque a colocou a serviço da causa em defesa e proteção do Rio São Francisco e de tudo o que isto representa. Mas ele foi traído por autoridades e também por pessoas do povo que não compreenderem sua atitude e o traíram como Judas traiu a Jesus. Realmente Judas entregou Jesus porque desde o início não o compreendeu e, inclusive, também se sentiu traído por Jesus. Na verdade quem está fazendo o papel de Judas, são as próprias pessoas que escolheram Dom Cappio como o “Judas da Semana Santa” em Crato.
Também no caso da festa folclórica de Crato, em que a dom Cappio é atribuído papel de Judas, vejo que isto ocorre porque os que fazem este tipo de coisa não têm inspiração cristã para tal. É uma atitude anticristã, perversa que simplesmente revela um sentimento de vingança e violência adormecido no coração dessas pessoas. Olhando para o personagem bíblico Judas Iscariotes, vemos que ele realmente é cúmplice de um crime bárbaro. Mas, não perdoar Judas também é algo de tão grande barbárie. Esta tradição de confeccionar bonecos representando a pessoa de Judas e depois agredi-lo e acusa-lo como traidor, parece não ser nada cristão, não condiz com o Evangelho de Jesus Cristo. Certamente, Jesus não estaria de acordo com esta prática de vingança. A sua mensagem é de perdão, inclusive pede para amar os inimigos. Quem é cristão deve dar testemunho do amor, do perdão e da solidariedade. O cristão deve lutar pela justiça acusando os verdadeiros responsáveis pelo sofrimento do povo. E não ficar desviando a atenção da realidade, enganando aos outros e a si próprio. Em nada se assemelha com a Palavra e ação de Jesus Cristo o ato de maltratar um boneco, dando a ele o nome de uma pessoa justa e deixar imunes àqueles que roubam a dignidade e a paz do mundo inteiro.
(*) Frei Pilato Pereira, de Bagé (RS), é membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Serviço de Justiça, Paz e Ecologia dos Freis Capuchinhos.
pilato@capuchinhosrs.org.br
www.capuchinhosrs.org.br/sejupe
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