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       São Paulo, 22/11/2008, 09:53          
 
DIÁRIO DO PEREGRINO
 


Basílica de Santa Maria dos Anjos
Porciúncula, berço da Ordem
Frades na Basília de Santa Maria dos Anjos
Monte Alverne ou La Verna
Celebração na Porciúncula
Celebração na Porciúncula
Rivo Torto
Rosas sem espinho
Ruínas do Castelo do Conde Orlando Cattani
Porciúncula - Capela do Trânsito

Diário do Peregrino
Dia 12 de julho (sábado)


Por Frei César Külkamp

Assis (Itália) - A Experiência Reviver o Dom da Vocação, em seu propósito de favorecer um revigoramento da nossa vida e missão de frades menores, no dia de hoje deu mais um passo em busca da graça das origens.

Perseguindo os passos de Francisco, deixamos para trás a parte alta e central da cidade de Assis e seguimos para Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula.

Este é um dos lugares mais marcantes para nossa peregrinação, pois a Porciúncula, reconstruída por Francisco em 1207 ou 1208, está associada aos principais acontecimentos da Fraternidade das origens. Foi aí que Francisco acolheu os primeiros irmãos, que passaram a morar em cabanas muito pobres e improvisadas.

Por isso, é corretamente chamada de “o berço da Ordem” (2 Cel 18) e o “santuário da Missão”, pois daqui partiram os primeiros frades para além dos limites de Assis (LM 3,7).

Desde o começo foi ao redor da Porciúncula que realizavam-se os Capítulos, os “encontros de irmãos”, inclusive o famoso Capítulo da Esteiras de 1221 (LTC 57-59).

É também o berço da Segunda Ordem, pois aqui Clara chegou no dia 19 de março de 1211 (ou 1212) para consagrar-se ao Senhor segundo o estilo de vida de radicalidade evangélica de Francisco (LSC 8). Para esta Igreja Francisco obteve de Honório III em julho de 1216 a indulgência ou perdão da Porciúncula.

Fizemos uma breve, mas reverente passagem pela capelinha da Porciúncula e fomos direto para a capela de Santa Clara onde celebramos a Eucaristia às oito da manhã.

Depois da celebração tivemos uma reflexão com o nosso guia, Frei Beto, que também nos orientou numa visita à Capela do Trânsito (levantada sobre o lugar da cela-enfermaria na qual morreu Francisco), a capela das Rosas (que segundo a tradição ocupa o lugar da cela de Francisco), o antigo Convento de São Bernardino (século XV) e a Cripta, que permite observar o que restou da primitiva edificação, feita pela Comuna de Assis em 1220, o que gerou protesto e indignação em Francisco pela tendência à estabilidade e perda da itinerância (2Cel 57).

O restante do tempo em Santa Maria dos Anjos foi dedicado a uma contemplação pessoal dentro ou fora da Capelinha da Porciúncula que, apesar da complexidade de construções que lhe circunda, conserva ainda sua mística de simplicidade.

E é esta quem fala diretamente ao coração de quem a visita e de forma muito eloqüente, sobre a aventura evangélica que Francisco ousou realizar com os companheiros da primeira hora.

Deixamos a Porciúncula e também a cidade de Assis com uma passagem por Rivo Torto, outro local significativo das origens. Ouvimos aí também uma passagem das Fontes Franciscanas e rezamos em silêncio por alguns instantes.

Seguimos para a última etapa da caminhada pelos lugares franciscanos, La Verna ou, em Português, Monte Alverne. Importante é que, depois de muito subir, chegamos na montanha sagrada da contemplação franciscana, também chamada “Calvário seráfico”.

Chegamos no fim da tarde, fomos bem recebidos na casa de acolhimento de peregrinos “Pastor Angelicus”. Fizemos uma caminhada até as ruínas do castelo do Conde Orlando Cattani, que cedeu a montanha do Alverne a Francisco, nossa oração da tarde na gruta mariana da casa de acolhimento e, depois de um farto jantar, uma sessão de cantorias na varanda e uma caminhada até os pés do Santuário.

As caminhadas serviram como aperitivo de emoções fortes que o dia de amanhã nos reserva. Queremos nos confrontar com o encontro que Francisco fez com o amor despojado do Cristo Crucificado - encontro este de tamanha intensidade que deixou as marcas impressas em sua própria carne.

“Diante da paixão de Cristo, até chorava alto. Encheu os caminhos de gemidos, e não admitia consolação alguma lembrando-se das chagas de Cristo” (2Cel 11).


Um pouco de história:
(Segundo a Cronologia das Fontes Franciscanas)

1224 - ou 1225, dezembro-fevereiro: cavalgando um jumento, Francisco faz um giro de pregações pela Úmbria e Marcas (Ancona).

1225 - Março: visita Clara em São Damião. Suas vistas pioram muito, então. Ele pretende ficar ali numa cela, ou na casa do capelão, mas, cedendo aos pedidos do vigário da Ordem, Frei Elias, consente em receber tratamento médico: a estação é muito fria, e o tratamento é transferido.

Abril ou maio: ainda em São Damião, Francisco recebe tratamento, mas não melhora. Recebe a promessa da vida eterna. Depois de uma noite dolorosa, atormentado pela dor e por ratos, compõe o Cântico do Irmão Sol. Junto a Santa Clara.

Aconselhado por uma carta do Cardeal Hugolino, protetor da Ordem, deixa São Damião e vai para a vale de Rieti.

Inícios de julho: acolhido em Rieti pelo Cardeal Hugolino e pela corte papal (que lá está de 23/6 a 6/2), para submeter-se ao tratamento dos médicos da corte pontifícia. Vai a Fonte Colombo para tratamento, sob insistência do Cardeal Hugolino, mas o difere, devido à ausência de Frei Elias.
Julho ou agosto (?): em Fonte Colombo, o médico cauteriza as têmporas de Francisco, mas com pouco resultado.

Setembro: Francisco vai a S. Fabiano, perto de Rieti (Floresta), para ser tratado por outro médico, que opera sua vista. Restaura então a vinha do pobre padre, danificada por visitantes de Francisco.

1225 - De outubro deste ano a 1226, Francisco vive ora em Rieti, ora em Fonte Colombo.

Abril: vai, a Sena para outro tratamento.

Maio ou junho (?): volta à Porciúncula, via Cortona.

Julho-agosto: no calor do verão é levado para Bagnara, nas colinas perto de Nocera.

Fim de agosto ou inicio de setembro: piorando de saúde, é levado, via Nottiano, para o palácio do bispo de Assis. D. Guido acha-se ausente, em peregrinação ao Santuário de São Miguel, cuja festa se celebra no dia 29, no monte Gargano.

Sentindo iminente a morte, pede para ser levado para a Porciúncula. Chegado à planície, lança sua bênção sobre Assis. Nos últimos dias de vida, dita o Testamento, autotestemunho de incalculável valor para a vida e os propósitos de homem tão singular.

Com a proximidade da morte, pede que o deitem nu no chão. Depois aceita emprestado o hábito que o guardião lhe dá. Faz ler o evangelho da última Ceia e abençoa os filhos seus, presentes e futuros.

1226 - 3 de outubro, à tarde: Francisco cantando "mortem suscepit" (morreu cantando). No domingo seguinte, 4 de outubro, é sepultado na igreja de São Jorge, na cidade de Assis, mas o cortejo fúnebre passa antes pelo mosteiro de São Damião, para a despedida de Clara.

1228 - 16 de julho: Francisco é canonizado. Relíquias trasladadas para a nova basílica, em construção, em 25 de maio de 1230.

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