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       São Paulo, 22/11/2008, 08:20          
 
Filas para receber a bênção de Santo Antônio
Fiéis tomam conta do Largo São Francisco
Lírios de Santo Antônio no Largo São Francisco
Bênção de Santo Antônio durante todo o dia

Sermão de Frei Anacleto:
"Hoje, existe por aí uma sociedade que só não cai de podre porque ainda tem alguma coisa que a sustenta não sei onde"

Por Moacir Beggo

Tão tradicional como o tricentenário Convento São Francisco do Largo São Francisco, no centro de São Paulo, é a sua trezena e festa no Dia de Santo Antônio. E não foi diferente neste ano, em que o Convento exibe novas cores e o brilho da restauração que ainda está em curso. Durante todo o dia, de hora em hora, foram celebradas missas e os frades se revezeram sob um sol forte para atender a todos os fiéis que foram ao convento pedir a bênção de Santo Antônio.

Em uma das celebrações já tradicionais, a missa do meio-dia, o guardião do Convento, Frei Anacleto Gapski, fez um sermão provocativo e não poupou críticas à nossa sociedade permissiva, onde tudo é possível. Antes de disparar suas críticas, contou a seguinte história.

"Um senhor caminhava olhando para o chão quando viu um patacão (moeda antiga) de ouro. Dizem que “onde tem um, tem mais”. Então, a partir daquele instante, esse senhor ficou cheio de desejo, de vontade para encontrar o outro patacão. E caminhou, caminhou, caminhou, sempre olhando para o chão. Um belo dia, desistiu, achou que não dava mais. Desistiu de procurar o patacão de ouro. Quando ele quis olhar novamente para a frente, para ver o sol, ele estava tão corcunda que não conseguia mais ver o céu e nem o sol".

E Frei Anacleto completou: "Por causa de um patacão de ouro, ele perdeu o dom maior, que era o sol. A sociedade moderna, dos últimos cento e tantos anos, quase 200 desde a Revolução Industrial, achou o seu patacão de ouro, que é o ter, o poder e o prazer. E ela quer sempre mais patacões de ouro. Em troca desses patacões de ouro, ela abriu mão de todos aqueles valores que eram essenciais e fundamentais para a vida e o relacionamento das pessoas. Abriu mão da ética, da justiça, da paz, da bondade, da verdade. Hoje, mente-se descaradamente em qualquer meio de comunicação com a certeza absoluta de chamar aquilo de marketing", enfatizou.

O guardião do Convento lamentou que nossa sociedade esteja tão encurvada e não consiga mais olhar o sol. " Hoje, Dia de Santo Antônio, o nosso grande pedido é para que obtenhamos a graça de recuperar o que nós perdermos".

Recuperar o quê?, perguntou Frei Anacleto. "Em termos de vida pessoal, nós perdemos a nossa capacidade de nos relacionarmos bem com as pessoas, de não termos medo do outro, de convivermos, de podermos simplesmente amar o outro, de podermos ser solidários. É hora de nós pedirmos a recuperação desta alegria da vida. Depois de morto não se faz mais nada. Tem que fazer agora. Tem que amar quem está do lado agora. Tem que dar a mão ao outro agora. Nenhum dos patacões vão nos acompanhar nos caixões. Quem ficou, em vez de louvar as nossas boas obras, vão dizer 'estúpido', pois só acumulou riquezas e não usufrui de nada", acrescentou.

Outros valores foram perdidos neste binômio de poder e prazer, explicou Frei Anacleto. "São os valores familiares, como o amor conjugal, fraternal, filial. Fidelidade parece ser coisa do passado. O amor parece ser disco do Roberto Carlos. Eu te amo, eu te amo, eu te amo.... e não diz nada. Em termos de famílias, casamos e descasamos".

Já nos valores sociais, disse foram totalmente perdidos. "Nós temos violência à vontade, temos mentiras à vontade, emoções à vontade. Hoje, existe por aí uma sociedade que só não cai de podre porque ainda tem alguma coisa que a sustenta não sei onde. Perdemos os valores da espiritualidade, perdemos os valores sócio-ecômico e políticos. O que vale é 'quem pode mais chora menos', disparou.

Segundo o frade franciscano, hoje, é dia de pedir a Santo Antônio que nos faça usar os nossos patacões de ouro como lastro. "Jogue para fora seus patacões, jogue fora suas preocupações imediatistas, consumistas, que você vai poder abraçar seu filho, conviver mais com sua esposa, com os amigos, quem sabe, sentar-se à porta de casa sem ter medo de ser gente", completou.

Além da parte litúrgica, a Festa de Santo Antônio, que dá início as tradicionais festas juninas, teve barracas de bolo de Santo Antônio, de fogazza, de doces e quentões, armadas no Largo São Francisco.

A equipe de leigos, voluntários e paroquianos do Convento e Santuário São Francisco teve a ajuda dos postulantes, candidatos à vida religiosa franciscana, que se preparam no Seminário de Guaratinguetá (SP), para dar conta, principalmente, de distribuir o pão de Santo Antônio.

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