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       São Paulo, 22/11/2008, 06:01          
 
Frei Vitório e os concelebrantes
A imagem de Santo Antônio e a sua relíquia

Frei Vitório:
“Santo Antônio é essa
ponte de encontro entre
um Deus que nos toca
através de seus santos”


Por Moacir Beggo

A Festa de Santo Antônio da Paróquia São Francisco de Assis, da Vila Clementino de São Paulo, encerrou-se com a missa solene das 19h30 horas, presidida pelo vigário provincial Frei Vitório Mazzuco Filho e concelebrada pelos frades da paróquia: o pároco Frei Djalmo Fuck, o animador provincial do Sefras Frei José Francisco de Cássia dos Santos, o vigário paroquial Frei Aladim Uber e o vigário paroquial Frei Euclides Pezzamiglio.

Além das celebrações, a festa externa tomou conta do pátio ao lado da Igreja, com destaque para a barraquinha do Bolo de Santo Antônio.

Na celebração, Frei Vitório fez uma síntese de toda a espiritualidade e devoção que cerca Santo Antônio. Confira:


Queria saudar os confrades aqui presentes. Para nós, hoje, a liturgia é uma alegria muito grande. Santo Antônio é um santo da Ordem Franciscana, portanto nosso confrade.
É sempre bom saber que temos um confrade que atrai a atenção do mundo inteiro pela sua santidade, pela sua vida, pelo seu exemplo, pela sua obra, pela sua história.

Queria saudar cada irmã e cada irmão aqui presente. É uma alegria dedicarmos este momento maravilhoso da vida na festa de um santo.

Nós temos tantas possibilidades de fazermos festa. Festejar significa sejam bem-vindas todas as realidades, todas as datas, todas as coisas, todas as verdades, todos os encontros. É muito bom podermos dizer “seja bem-vindo” o humano santo!

Situando no tempo Santo Antônio, sabemos que ele nasceu em Lisboa, no dia 15 de agosto de 1195, e faleceu em Pádua, no dia 13 de junho de 1231. Esse é o período medieval, ou seja, a Idade Média que nós, às vezes, somos levados a crer - porque passaram para nós uma informação errônea - que é a idade das trevas, do obscurantismo. Um tempo que é usado hoje para simbolizar um certo retrocesso, como se fosse um período conservador. Muito pelo contrário. Idade Média significa idade nuclear, do meio. O latim medieval nos diz “medio euvo”, isto é uma idade do centro. Ela está entre a antiguidade e a passagem para a modernidade. É humano, a vida, a história, querer encontrar a sua raiz.

É uma época que nos deu uma humanidade muito forte e corajosa, que buscava querer se entender. É a época de grandes heróis, de grandes guerreiros, de grandes santos. É a época que vai tem início o nascimento da escolástica, é a época do conhecimento. O forte da busca da ciência. É a época em que a Teologia é a maior e única ciência que existe. É a época dos mitos e da cavalaria medieval. Código de comportamento de valores, mas é uma verdade muito grande: o humano medieval pensa e age assim. Se tem que ser, tem que ser pra valer. Não arrisca a sua vida por pequenas coisas.

 É neste contexto que vive Fernando de Bulhões, mais tarde Antônio de Lisboa ou Antônio de Pádua. Que em um primeiro momento agostiniano, como nós sabemos, e depois tocado pela missão e pelo martírio dos frades em Marrocos, ele veio conhecer a vida de São Francisco. Chega na Ordem entre 1215 e 1219. O seu primeiro encontro com Francisco foi em 1221, em Assis.

Antônio faz parte de um grupo que, junto com Tomás de Celano, forma os primeiros intelectuais a chegar à Ordem Franciscana. Ou seja, são os letrados, os clérigos. Clérigos, no latim medieval, significava o letrado, aquele que sabia ler, que sabia entender, que sabia interpretar.

Antônio é teólogo, especializado na Teologia Bíblica, na Palavra de Deus. Escreveu seis volumes de comentários sobre a Bíblia. Não são originais. Fez uma cópia dos Santos Padres, isto é, o pensamento dos cinco primeiro séculos da história da Igreja. Mas o fato de não ser original não significa que ele plagiou, porque no período medieval, copiar era sinal de originalidade, de interesse. Não havia imprensa como nós temos hoje. Então, reproduzir obras significava levá-las adiante. Por isso, São Francisco gostava de pedir que Frei Leão anotasse seus ensinamentos.

São Francisco gostava de escrever e pede a Santo Antônio que ensine a Teologia a seus frades, de modo que ensinar e passar adiante significava ampliar. De modo que a Teologia para Antônio é uma missão, mas é amor pela palavra. Seu encantamento pela Palavra de Deus, que tem que ser ilustrada, tem que ser iluminada, aumentada, ampliada. Naquela época, a Teologia era ensinada tanto na parte acadêmica, dentro das escolas, como também nas ruas. Na Idade Média havia a “disputatio”. A “disputatio” simples, onde um teólogo ia para a esquina, lançava uma idéia e se deixava questionar; ou a “disputatio” solene, onde dois teólogos se colocavam num lugar público e cada um procurava emitir a sua opinião, que o povo tomava partido para aprender.

Assim viveu Antônio. Há um dado interessante. O santo que começou na escrita, na ciência, portanto, o santo intelectual é o santo dos pobres, é o santo dos simples, dos iletrados, daqueles que não têm muito acesso aos fundamentos teológicos.

São Francisco que começou exatamente iletrado, na simplicidade, no escondimento, é o santo dos intelectuais. Se escrevem bibliotecas inteiras sobre São Francisco. E nós temos hoje bibliotecas e volumes de Santo Antônio e não sabemos deles. É muito interessante esse paradoxo. Para mostrar que o mais importante é aquilo evoca a beleza do santo.

Para o mundo medieval, ser santo significava ser uma grande alma, ser uma grande pessoa, ser uma grande referência, ser um grande modelo. Até São Francisco não havia a canonização oficial. São Francisco é o primeiro santo canonizado oficialmente pela Igreja, em 1226. Oficialmente quer dizer através de um processo, que consistia em escrever uma biografia de testemunho da sua santidade, relatos dos milagres e depoimentos públicos de comprovação dos milagres.

Antes de São Francisco, como era feita a canonização? Era privilégio do papa. Ele dizia: “este é santo!”. Acontece que São Francisco e Santo Antônio marcaram tanto a vida e os caminhos do dia-a-dia do povo, que ele já não tinha dúvida. São Francisco foi canonizado dois anos após de sua morte e Santo Antônio, onze meses depois teve iniciado o seu processo. Mas o que significa isso? A rapidez com que eles puderam comprovar a transparência de um grande amor. Que amor? Amor pela Palavra, amor para a encarnação da Palavra, transfigurar-se na Palavra, fazer-se com que a Palavra de Deus tomasse forma neles mesmos.

E Santo Antônio nesse ponto é mestre de um amor apaixonado pela Palavra de Deus, que fez com que o seu espírito ficasse afinado às necessidades de todas as pessoas. Por que existe a vida? Para mostrar que Deus tem a história na mão, que ele caminha conosco, que ele resolve as questões da história e das necessidades humanas.

É interessante que Santo Antônio vem mostrar para nós que saúde e santidade não se separam. O que é saúde? O evangelho de hoje falava para nós de vencer o mal, vencer as doenças, vencer os obstáculos da vida. É próprio da santidade. Saúde vem de “salus”, que significa o sadio da existência. Salvar é a mesma coisa que curar, cuidar, sanar, trazer para perto do cuidado.

Esse é o santo que celebramos hoje. Santo Antônio é o santo do amor. Amor é todo vizinhança, cercania, aproximação, trazer para perto para cuidar. O povo se identifica com este aspecto de Santo Antônio. Santidade e saúde não se separam. A própria palavra santo, santa, significa isso: são, sã. São Francisco, o humano são, sadio; Santo Antônio, o humano são, sadio; Santa Clara, uma mulher sã, sadia. Isto é, a totalidade da existência vivida a partir de uma grandeza, de uma escolha por amor por Deus, pelas pessoas, pela vida.

Esse é o Santo Antônio, o santo do afeto. A mística franciscana, a escola franciscana de onde ele vem, as virtudes e os valores de onde ela nasce, ensinaram para ele que saúde, santidade e afeto não se separam. Por isso, Santo Antônio é o santo da ternura, da aproximação, do toque. O povo aprende com Santo Antônio, com São Francisco que Deus não é uma coisa distante, mas é alguém que eu posso ver, tocar e sentir. É o Santo onde o povo vem beijar suas fitas, tocar os seus lírios, as suas flores.

 É o santo do Menino Jesus no colo. É o santo da ternura, o Santo do encantamento, o santo do afeto. Resgatar isso é salvar o humano. Como que Jesus curava?  Na proximidade, no toque, e no encontro e na aproximação.

 Esse é o Santo Antônio. Um santo que nos ensinou a saborear um Deus pela Palavra, mas ensinou também a matar a fome do pobre. Por isso, pão de Santo Antônio. Significa saborear a experiência do amor, do cuidado e da caridade e resolver a fome do outro. A fome de justiça, a fome de amor, a fome de pão, a fome de paz, a fome de reconhecimento.

Este é o Santo Antônio, o Santo Antônio das bênçãos. Bênção é uma transmissão de energia que vem de Deus e do humano que habita em Deus. Abençoar significa convocar o outro para a sua grandeza, aumentar a grandeza do humano. “Deus te abençoe!”. Essa grande pedagogia na qual nós fomos criados: “a bênção mãe; a bênção pai; a bênção vó!”. Hoje, filhos e filhas não sabem mais, talvez, o que é isso. Mas quanta força, quanta energia a bênção que estava em nós. Era a segurança de sentir-se percebido, sentir-se amado.

Hoje é dia da bênção. Em Curitiba, na nossa Igreja; em Agudos, no Seminário; no largo São Francisco, no Pari, aqui na Vila Clementino, no Rio de Janeiro, no largo da Carioca. Hoje, milhares e milhares de pessoas acorrem para a bênção. Santo Antônio é essa ponte de encontro entre um Deus que nos toca através de seus santos.

É o Deus dos lírios, o natural. Colher lírios, colher flores, é colher a nata. Colher o natural, colher o melhor. Na Legenda dos Três Companheiros, uma legenda franciscana de 1247, diz é preciso relatar esses fatos como alguém que ali no prado colhe flores. Colher flores significa colher a beleza da existência e ofertar a beleza da existência.

Esse é o Santo Antônio, com seu andor sempre florido. Com seu jeito sempre bondoso e acolhedor. Aonde passam os santos sempre nasce alguma coisa. E onde a humanidade encontra com o seu santo, ela já não é mais a mesma.

Esse é o Santo Antônio dos altares, das capelas, dos andores, das praças, das ruas. É o santo mais homenageado com logradouros públicos. Semana passada no Rio, na Trezena de Santo Antônio, os frades tiveram a idéia de reunir todas as pessoas com o nome de  Antônio. O abade do Mosteiro São Bento, Dom Antônio, era o celebrante principal. Muitos concelebrantes chamados Antônios e na assembléia muitos Antônios e Antonias.

Porque para o mundo bíblico dar nome significa ter uma missão. O nome antecede a nossa existência. É pelo nome que somos amados e desejados. Foi a primeira purificação de escolha na nossa vida. Por isso, o nome forte que temos nós entregamos ao nome do Senhor, através dos nomes de seus Santos. Invocar o nome significa convocar para a existência. O Gênesis diz que Deus pediu que o humano nomeasse todas as coisas. Por isso, nesta noite, vamos entregar o nosso nome, a nossa história, a nossa identidade a Santo Antônio.

É o Santo Antônio do milagre. Milagre significa do latim medieval “mirare”. Significa ver a maravilhosa atuação de Deus na existência.

É o Santo Antônio das coisas perdidas. Porque nós temos nosso momento de ansiedade, de tensão, de correria. Quanto nós perdemos as coisas é porque não prendemos a nossa atenção. A correria, o agito de nossa vida faz com que nós não sintamos mais o grito de abandono de todas as coisas. E nós perdemos as nossas coisas, os nossos relacionamentos, nós perdemos tanta coisa!

Nós vamos diante do santo para que ele nos recomponha e nos ajunte num belo mosaico e diz: “olha, aqui está você inteiro. Eu te devolvo inteiro para a vida”.

E Santo Antônio é o santo do amor. Aliás, eu tenho um sonho quando alguém ainda resolva trazer a data de ontem para hoje. Porque ontem foi considerado o Dia dos Namorados. Por que existe esse dia? Nós sabemos que este dia só é celebrado no Brasil, porque o mundo inteiro celebra em fevereiro na festa de São Valentino. Mas foi João Dória, o pai de João Dória Jr que, empreendedor, reuniu todos os diretores de clubes lojistas do Brasil e instituiu esta data comercial, porque o mês de junho era um mês fraco de vendas. E ele conseguiu transportar essa data para junho e o comércio então fez a sua parte. Ele atingiu lá a veia do afeto. E hoje comemorar o Dia dos Namorados significa comprar. Por outro lado ele teve também a feliz intuição de trazer esta data para a proximidade da festa de Santo Antônio. Porque Santo Antônio é o padroeiro dos relacionamentos. Isso é muito importante. Na beleza de uma relação, há uma profunda revelação de amor, de encontro do melhor do humano, e do melhor de Deus e do melhor do afeto. Então, está muito bem que seja dia 12, dia 13, que a gente faça essa convergência de amor para o Santo do afeto. Santo Antônio é o santo do afeto, da ternura, da leveza, da beleza. Isso vai contra até um modo duro dos nossos relacionamentos.

E Santo Antônio é o Santo da festa junina. A festa junina é algo muito próprio em nosso povo. Ela coincide exatamente com este momento, enquanto nós estamos no inverno, a Europa vai explodindo, saindo da primavera. Depois de um inverno rigoroso, tudo começa a  florescer. Acontece que os colonizadores portugueses e espanhóis, quando vieram ao Brasil, perceberam que para esta terra não importa a estação. Aqui, o ano inteiro tudo desabrocha, é fecundo. Mas junho é o momento de recolher as primícias da terra. A simplicidade da terra que alimentou colonizadores, batalhadores, desbravadores e pobres e todas aquelas pessoas que vieram para cá naquela aventura colonizatória, encontraram aqui uma terra com uma cesta oferente de batata doce, de mandioca, de milho, de todos os produtos naturais da terra que nunca deixaram o povo ter fome. Isto é celebrado com danças, ritmos e festas.

E se no mês de junho o povo também trouxe a força da profecia e da pregação com São João, com São Pedro e com São Paulo, aqueles que fizeram a festa da eclesialidade, de transpor fronteiras, de unir cultura do evangelho, o povo não deixou de colocar junto a São João, São Pedro, São Paulo, o seu santo, tão português, tão brasileiro, tão nosso, tão humano.

Essa é por assim dizer a síntese de um Antônio que hoje é um catalisador, aquele que converge todos os povos, todas as raças, todas as línguas, todos os jeitos.

Santo Antônio reduz a liturgia a uma extrema simplicidade. Reduz o mistério a uma simplicidade muito grande. Reduz a Teologia no encontro de pegar Deus no colo e dizer “esse é o jeito menino de mostrar a grandeza e a onipotência que se revela assim”.

Por isso, irmãos e irmãs e meus caros confrades, para nós nesta noite é um privilégio estarmos aqui aos pés deste santo. Porque olhar para ele nós olhamos. A vida de Santo Antônio é a nossa vida. Uma espiritualidade familiar, natural, amiga, caseira. Bem Antônio. Assim seja!                            
                                                          

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