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       São Paulo, 22/11/2008, 05:54          
 

                Frei Rui Depiné: a luta pela vida dos hansenianos
Por Aguinaldo Ap. Campos, especial para este site

Frei Rui na Colônia para Ir. Inês, Solange
e Fr. Johannes

 Banner da Associação São Roque

Visita à Pró-Hansen: Dr. Rui Miranda entre
Frei Rui e Solange

Curitiba (PR) - De longe se percebe a cabeleira branca, os passos agitados, ágeis e determinados. Frei Rui Depiné é desses homens cujo olhar expressa a clareza daquilo que quer: cuidar dos doentes do “Leprosário São Roque” ou “Colônia São Roque” de Piraquara, na grande Curitiba. A isso ele dedicou toda a sua vida.

Entre muitas histórias que conta dessa longa caminhada de ajuda, no corpo a corpo com os doentes, com voz transparente e pausas que lhe conferem um acento muito peculiar, ele costuma narrar a história de um homem que vivia na Amazônia, em plena floresta e que foi trazido para tratamento. Esse homem sofria demais por causa das deformidades causadas pela Hanseníase. Depois de algum tempo na Colônia, sendo tratado por Frei Rui e pelas enfermeiras, uma certa noite o frade acordou sobressaltado: alguém batia fortemente na porta. Frei Rui se levantou e foi ver quem e o que era.  O homem, apesar do sofrimento pelas seqüelas da doença, sorria. Indagado sobre o que queria àquela hora, ele disse que tinha uma preocupação que ninguém até aquele dia conseguira ajudá-lo a resolver: disse que sentia muita falta de casa e da floresta amazônica e emendou: “Frei Rui, o senhor sabe quantas estrelas tem no céu?”. Com sua forma franca e acolhedora de se expressar, o frade respondeu que ninguém jamais lhe havia feito tal pergunta: “Olha, eu não sei... mas desconfio que é uma coisa que a gente pode saber. Vamos contar juntos? Eu desenho uma cruz, assim, no céu, você conta as estrelas do lado direito e eu do lado esquerdo.” Terminada a contagem, Frei Rui somou as estrelas que ambos tinham contado e disse ao homem: “Bom, agora, é só pensar o seguinte: o universo deve ter quatro vezes esses tamanho que a gente contou, então, o céu deve ter uns 20 milhões de estrelas. Tá bom assim?” Seus olhos azuis, muito límpidos, encaravam o sujeito que lhe disse: “Tá bom. Eu estou muito feliz porque, pela primeira vez na vida, alguém teve tempo para me dizer o que eu sempre quis saber.”.

Foi esse mesmo homem franco, acolhedor, de conversa fácil e amigável que recebeu a equipe da Hanseníase no dia 08/05/08. Frei Rui fez questão de mostrar os locais onde seu trabalho é desenvolvido. Primeiramente, a visita à “Fundação Pró-Hansen”, instituição filantrópica que desenvolve atividades de pesquisa, ensino e assistência médica, incluindo a reintegração social dos hansenianos. Lá, conhecemos seu fundador e presidente de honra, Prof. Dr. Rui Noronha de Miranda, que além de especialista em Hanseníase, tendo dedicado toda a vida profissional ao assunto, é também um pensador e escritor que mantém acesa a necessidade de fazer refletir por meio de seus escritos. Entre tantas histórias, brindou-nos com algumas lembranças do sanitarista Souza Araújo, que “elaborou uma vacina curativa para a Hanseníase mas não viveu para alcançar os bons resultados que tanto desejou.”, concluiu.

Frei Rui nos levou também à “Associação Beneficente São Roque”, criada para dar apoio à Capelania São Roque e Comunidade Religiosa Franciscana. Ali é desenvolvido um trabalho cujo foco é a família dos assistidos, buscando a assistência social e a promoção humana dos portadores da Hanseníase internos e egressos do Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná, antigo Hospital São Roque. Trabalho não falta: os voluntários da associação atendem a 236 famílias carentes do município de Piraquara, na grande Curitiba. Entre diversas atividades, são distribuídas mensalmente aproximadamente 4 toneladas de alimentos para as famílias cadastradas, além do reforço escolar para crianças de 7 a 12 anos, oficinas multidisciplinares para oferecer oportunidade de emancipação econômica, sem falar nos casos em que o apoio material também é oferecido. É notável a boa disposição e atenção amável com que os voluntários prestam seus serviços fazendo com que os usuários e visitantes sintam-se bem-acolhidos.

Um Hospital Modelo

Mas o ponto alto da visita ainda estava por vir: foi no meio da tarde que chegamos à Colônia São Roque. No trajeto, Frei Rui é muito cumprimentado pelas pessoas que passam de um lado a outro. Para todas ele tem sempre uma palavra, um gesto de atenção. Sempre alfaraz, ele nos introduz no saguão do Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná. Logo à frente, ao centro, se abre uma imponente escada dando acesso ao piso superior. Seguimos por baixo dela, à direita, e entramos na ala feminina: quartos muito limpos, ventilados, pacientes bem tratadas. Uma delas cantava quando entrávamos e Frei Rui brincou querendo saber que música era aquela. “A mãe que gostava, ela cantava quando estava fazendo alguma coisa lá em casa. Eu, hoje, acordei com saudades dela.”, sorria a mulher, baixa, de corpo cheio, rosto com muitos vincos, cabelos grisalhos, ocupando pouco espaço na cama, mas com um brilho vívido no olhar. “Aqui a gente tem muitas histórias...”, completava Frei Rui emocionado.

Mais alguns quartos e voltamos ao corredor. No final, a ala masculina. As histórias se repetiram com outros matizes, outros rostos mas a mesma determinação diante do sofrimento. “A gente não consegue dar conta de tudo, de todos os problemas do mundo, mas o que a gente pode, a gente faz. Aqui não falta nada para eles, é tudo limpo, quase dá para se pentear olhando no chão. A comida é boa, as enfermeiras cuidam muito bem, então, o que mais eu posso querer? Eu aprendi que a gente faz o que dá para fazer.”, dizia Frei Rui. Ele ainda fez questão de nos mostrar a linda capela da colônia.

A tarde já terminava quando nos despedimos da Colônia São Roque. Sabíamos que deixávamos para trás muitas histórias e a história recente de evolução no caminho para a cura e a eliminação da Hanseníase. “Não me convidem para palestras, essas coisas... eu hoje me preocupo com o meu doente naquilo que ele precisa: é arroz, a gente vai e consegue um pouco; é a conta de luz atrasada... a gente reúne um aqui e outro ali e arruma o dinheiro para pagar. Graças a Deus a Província sempre foi uma mãe para mim e os confrades sempre ajudaram. Então, o que mais eu posso querer? Eu quero ajudar como posso.”, finalizou o religioso, há mais de trinta anos dedicando sua vida aos hansenianos do Paraná.

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