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       São Paulo, 12/10/2008, 07:29          
 
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á um ano atrás, durante nossa VII Caminhada Ecológica Franciscana, contei para vocês a interessante conversa que tive com uma garça branca, chamada Bianca (leia o primeiro artigo). Ela me falava do sofrimento que passou junto com sua mamãe garça e a família. Ela teve que fugir da poluição das águas do Pantanal, da seca que se abateu sobre a Amazônia e mortandade de peixes da Lagoa Rodrigo de Freitas, na esperança de encontrar muito peixe. Decidiu vir para Petrópolis, pois sua vovó garça aqui tinha nascido e falava sempre bem de seus tempos de menina vividos em nossa cidade. Em nossa conversa, a garcinha Bianca estava preocupada com a poluição das águas. Nossa conversa terminou quando a Bianca voou para o Nordeste.

Depois de nossa VII Caminhada Ecológica Franciscana de 2006 várias pessoas me falaram que também viram a garça no Rio Piabanha. Durante meses não vi mais a garcinha branca. Hoje, porém, enquanto esperava a condução no ponto de ônibus, fiquei surpreso ao ver novamente uma garça branca, parada no meio da água, atenta a algum possível peixinho. Logo percebi que era a Bianca, nossa garcinha. Aproximei-me do barranco e puxei conversa com ela:

- Oi, garcinha! É você, Bianca? Que bom ver você aqui de novo! Você deve ter ficado com saudade de Petrópolis, não é?

Voltando-se para mim, ela respondeu:

- Oi, Frei! Estou com saudade, sim! Mas voltei também para ver se vocês, em Petrópolis, estão cumprindo a promessa que fizeram no ano passado. Você me prometeu que todos, inclusive as crianças, iriam defender a qualidade da água. Lembra?

- Lembro, sim! Garcinha! Eu prometi que iríamos fazer cada ano a Caminhada Ecológica Franciscana, iríamos conscientizar as pessoas para cuidarem mais das árvores, da água e do lixo. E que um dia vocês, garças, poderiam vir para cá em bandos porque haveria água limpa e bastante peixe nos rios da Cidade Imperial.

- Foi isso mesmo! – disse a garcinha. Mas até agora, neste rio, água limpa – limpa mesmo! – ainda não vi. Estou procurando ver se encontro ao menos algum peixinho para matar minha fome.

- Você tem razão, Bianca. Água limpa em nosso Piabanha é ainda um problema. Felizmente, na escola, as crianças já estão aprendendo como a gente pode e deve cuidar da água. Algumas famílias também ensinam isso a seus filhos. Muitos adultos, porém, ainda não perceberam que não se deve jogar no rio sacolas de plástico, pneus, móveis velhos, petys, etc. Mas há outros fatores que poluem a água de nossos rios: o óleo de cozinha e dos carros que é jogado no rio, produtos químicos das fábricas, venenos agrícolas e o esgoto de nossas casas.

- Tudo isso vocês jogam no rio!? – exclamou a garcinha.

- Infelizmente sim, Bianca; e isso ainda está acontecendo. O pior é que, em nossa cidade, a maioria das moradias ainda não tem um tratamento de esgoto. Por isso esse mau cheiro que você está sentindo. Mesmo assim, garcinha, eu lhe garanto: nós já fizemos alguns progressos. Por exemplo, estamos aprendendo a separar o lixo para ser reciclado. Muitas famílias já vivem da reciclagem de papel, papelão, latinhas de bebida, vidro e plástico. Há mulheres que fazem artesanato com papel usado e vendem para os turistas. Com isso a qualidade da água vai melhorando e os peixes voltarão a povoar as águas do rio Piabanha.

- Seria muito bom para a água, para os peixes e para nós garças, se vocês fizessem isso – comentou a Bianca. Eu até voltaria outras vezes a Petrópolis, e traria minhas irmãs garças, também.

Ao ouvir isso, fiquei imaginando bandos de garças brancas voando sobre as águas límpidas do rio Piabanha, alimentando-se de seus peixinhos e até fazendo seus ninhos sobre as árvores do bosque do Museu Imperial. Sem dúvida, Petrópolis ficaria muito mais bonita. Mas logo voltei de meu sonho para a dura realidade: diante de mim estava a Bianca, parada no meio da água suja, mais uma vez decepcionada por não encontrar o peixinho desejado. Então voltei a conversar com a garcinha:

- Bianca, no ano passado, quando você se despediu de mim, me falou que iria voar para o sertão do Nordeste. Estou curioso para saber como vivem os sertanejos, como as pessoas estão cuidando da água.

- Eu teria muita coisa para contar sobre minha viagem – disse a garcinha. Lá é tudo muito seco e chove muito pouco.

- O pior, garcinha – disse eu –, é que nossos cientistas já estão avisando: os gases de nossos carros, das fábricas e das usinas termoelétricas e das queimadas nas florestas, lançados cada dia na atmosfera, estão provocando o assim chamado efeito estufa! O clima está ficando mais quente, o gelo está derretendo nas montanhas e nos pólos. Haverá enchentes e secas mais freqüentes no Brasil e no mundo todo; e o mais grave é que o clima no Nordeste vai ficar ainda mais seco.

- Eu vi o que é a seca no Nordeste – continuou a garcinha. Quando passa um ano ou mais sem chuva no sertão, até os rios ficam secos. A água dos açudes vira lodo e os peixes morrem. Por lá não há mato como aqui. A pouca vegetação é baixa e eles chamam de caatinga. O povo é muito pobre e passa fome, como nós garças, quando vocês humanos matam os peixes com a poluição e os venenos. Não consigo imaginar como essa gente consegue sobreviver. Eu quase não vi água por lá – comentou a garcinha.

- Sabe, Bianca, com a ajuda das Igrejas e de outras Organizações, o povo do interior está construindo cisternas para armazenar a água da chuva. Já construíram 160 mil cisternas e querem fazer mais de um milhão. As cisternas precisam ficar cobertas para evitar que a água evapore. Como no sertão o clima é muito seco, 30% da água acaba evaporando. Você não viu a água porque ela fica escondida.

- De fato – comentou a garcinha. Eu só consegui matar minha sede disputando com cabritos e galinhas a água que eles tiravam das tais cisternas e derramavam nos bebedouros.

- Mais difícil – continuei – é para as famílias que ainda não têm cisterna. Devem buscar água nos açudes, a quilômetros de distância, carregar em tambores no lombo dos jegues ou trazer em baldes sobre a cabeça. Imagine que sacrifício!

- Eu vi isso – disse a Bianca. Percebi logo que lá não era o meu lugar. Sem água e peixe não consigo viver! É verdade que nos açudes, enquanto a água não seca, ainda há peixe. Mas eu vi tanta gente pobre querendo pescar algum peixinho para levar para sua família. Fiquei com muita pena. Não era justo eu, podendo voar longe e procurar comida em outro lugar, ficar disputando os poucos peixes com os pobres, que não têm asas para voar como eu. Decidi, então, voar para o tão falado Rio São Francisco.

- Puxa, garcinha! Eu não sabia que você era tão sensível para com os humanos, especialmente com os pobres. Fico feliz em saber que as garças pensam na gente também. Infelizmente, não acontece o mesmo conosco. Muitos ainda não perceberam que todos os seres vivos, homens e animais, os peixes, as garças e todas as aves, enfim tudo que vive e respira, precisa da mesma água limpa, do mesmo ar puro, das mesmas árvores e plantas e dos mesmos alimentos que a Terra produz. Nós humanos somos tentados a pensar que somos os únicos no mundo, os donos de tudo e podemos fazer com as coisas o que bem queremos, sem pensar nos outros seres vivos. O pior é que nós sujamos tudo. É bem verdade o que escutei uma vez: “Onde você encontrar lixo, é sinal que o bicho-homem passou”. Ou então, como dizia um sábio indígena da Amazônia: “Onde o homem branco pisa, vira deserto”. Mas há também muita gente que pensa em vocês, garças, e nos animais todos. Um deles foi São Francisco de Assis.

- Me fala um pouco deste Santo homem – pediu a garcinha.

- São Francisco – continuei – era um jovem muito rico, filho de um comerciante da cidade de Assis (Itália). Mas deixou tudo para viver com os pobres e cuidar dos leprosos. Muitos jovens de Assis imitaram seu exemplo. Francisco vivia pobre e não queria ser dono de nada. Queria ser o menor de todos e o irmão de todas as criaturas. Chamava todos de “irmão” ou “irmã”: Irmã Terra, irmão Sol, irmã Lua, irmã água, irmão lobo, irmã garça... Enfim, respeitava tudo que vive aqui na terra, tanto plantas como animais. Evitava pisar até numa minhoca. Os passarinhos, as aves e todos os animais gostavam de estar perto dele e escutavam com prazer as palavras que lhes dirigia.

- Foi por isso que eu voei até o Rio São Francisco. Ah! Como eu gostaria de conhecer esse santo homem! – exclamou a garcinha.

- Infelizmente – disse eu – ele viveu há quase oitocentos anos atrás. Mas com seu exemplo ele ensinou muito para todos nós, como a gente deve respeitar a cuidar da natureza e conviver com ela. Por isso, hoje ele é considerado o padroeiro da ecologia, isso é de todos os que se preocupam em cuidar das pessoas, das plantas, da água e de tudo que vive em nosso Planeta. Nós, franciscanos, franciscanas e admiradores de São Francisco de Assis, queremos também abraçar a causa da preservação da vida de todas as criaturas.

- Gostei de ouvir esta promessa – disse a garcinha. Com a ajuda de vocês, poderemos cuidar melhor de nossa querida Terra. Nós as garças faremos a nossa parte. Voando de um lugar para outro, nós podemos fiscalizar tudo e informar a vocês sobre como vai a água dos rios, lagoas e mares.

- A propósito, garcinha, você foi conhecer também o bispo Dom Luiz Flávio Cappio? Aquele franciscano que fez greve de fome para defender a água, o povo, os peixes, as garças e de toda a vida que depende do Rio São Francisco? Lembra? No ano passado, quando você decidiu voar para o Nordeste e conhecer o Rio São Francisco, eu lhe falei deste santo homem e de sua corajosa greve de fome para salvar o rio.

- É claro que me lembro – exclamou a Bianca. A primeira coisa que eu fiz foi voar até um lugar, chamado Cabrobó, às margens do rio. Ali fica uma capela, onde o bispo Dom Luiz gosta de fazer seu retiro espiritual, atender o povo pobre e rezar com ele. Curiosa como estava de conhecer essa pessoa tão simples e boa, pousei junto com outras garças e aves numa pequena árvore ao lado da capela. O bispo estava falando com o povo, animando a luta dos pobres pescadores e agricultores em defesa do rio, que segundo todos dizem, está morrendo. Fiquei impressionada com este homem que estava pronto a sacrificar a sua vida para que ninguém morresse de fome, nem garças nem gente. Gostei tanto, que me deu vontade de ficar sempre por lá, escutando o santo bispo franciscano.

- Aliás – garcinha – você sabia que nós enviamos uma carta a Dom Frei Luiz Flávio, com mais de mil assinaturas em apoio ao seu jejum profético. Prometemos rezar por ele para que a defesa da vida do Rio São Francisco fosse bem sucedida.

- Um dos motivos por que voltei a Petrópolis – disse a garcinha – é para agradecer em nome do Dom Frei Luiz Flávio as orações e o apoio que vocês lhe deram. Quando eu ia partindo, ele me recomendou: Diga a todo o povo de Petrópolis que se una a nós na defesa do Rio São Francisco; que todos cuidem de sua água, das florestas, das matas, dos animais e, especialmente, das irmãs garças; não joguem lixo nas ruas e nos rios; cuidem da natureza toda como se fosse a própria casa, porque todos somos irmãos, criaturas do mesmo Pai do céu.

- Bianca – muito obrigado por este belo recado. Pode ficar certa que nós não vamos decepcionar o santo bispo nem a vocês, garças. Mas agora me desculpe. Preciso interromper este gostoso papo com você, garcinha. O pessoal já está me esperando para participar da VIII Caminhada Ecológica Franciscana. Outro dia a gente continua a conversa. Tchau! E assim me despedi da garça.

Petrópolis, 04 de maio de 2007.

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