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Frei Vitório Mazzuco, OFM
Aterrissei em Angola no dia 6 fevereiro para uma visita curta,
mas intensa; aliás, pisar aquele chão africano
é viver tudo com intensidade. Ali, uma longa e lenta
guerra civil destruiu, dispersou, matou, mutilou, desalojou,
perseguiu um povo. Vi tanta coisa pelo chão, mas uma
coisa a guerra não pôde derrubar: a beleza da
raça daquele povo, sua esperança, sua Fé.
Um povo luzente e carente que acredita num futuro. Vi o país
como um grande hospital, onde cada detalhe vai convalescendo
em seu leito de dor e sonhos desta longa agonia pós-guerra
civil.
Fui ver meus confrades missionários, encontrei heróis
resistentes. Eles me ensinaram o sentido da Missio... que
não é apenas envio, mas é pura convivência,
é o bem-estar de uma presença afetiva, espiritual,
efetiva. O bem-estar de uma presença que ajuda a buscar
o material mínimo para uma existência. Existe
a voz do povo, mas o missionário é o eco, a
ressonância, a amplificação do grito de
um povo pobre. E o povo pobre não está só
nas aldeias, está em Luanda e seus bairros, sua periferia
plena de contradições, onde beleza e lixo convivem,
onde limpeza e poeira formam uma eterna manutenção.
Não podemos falar de organização, mas
podemos ver ruínas do período colonial português,
o trânsito insano, o comércio livre formando
um camelódromo cósmico.
Meus confrades missionários me levaram para ver...
e eu ali só bobo de tanto espanto, de tanto maravilhamento,
de tantos detalhes de lugares onde existe ainda a alegria,
o gesto lindo de responder um bom dia ou um aceno com o mágico:
"Obrigado!" Há lugar para a música,
para o colorido dos panos, para a multiplicidade de tribos
e línguas, umbundo, kibumdo, português com acento
lusitano e muita criança! Muitos jovens, mulheres e
crianças! Se Luanda instala-se numa baía...
o que existe ali é um mar de gente! Um oceano de crianças,
o único tesouro dos pobres! Que vontade de aprender,
de estudar, de ter sala da aula ou sala de explicação,
de ter um diploma, de ter conhecimento. Quantas crianças!
Vestidas ou nuas, mas sempre e eternamente a beleza das ruas!
Vi também muitos soldados armados, amados ou não,
os "fazedores da guerra", hoje desempregados ou
beneficiando-se dos espólios. Vi mulheres, milhares
de mulheres pelas ruas, pelas estradas, pelos becos, bosques,
praças e aldeias... todas andando, andando, vendendo,
batalhando a única refeição do dia de
um povo que não tem comida suficiente. Aliás,
a guerra fez o banquete só de alguns. Falta alimento,
mas tem fartura de mutilados, vítimas das minas, das
bombas, dos tanques, dos canhões, dos fuzis e suas
balas. Tem os sem-pernas, tem os sem-braços, os sem-mãos
e os sem nada para fazer. Tem falta de energia elétrica...
mas este povo tem Luz própria! Mesmo fazendo os "gatos"
para iluminar suas casas ou suas clandestinas ligações
para jorrar água..., este povo não perde a energia,
o sonho, a vontade.... E quando você pergunta: E a vida?
A resposta é uníssona: "Está boa!"
O governo que inventou esta guerra fratricida e cruel nacionalizou
os bens das Igrejas e das Missões... Muita coisa foi
destruída ou ocupada; mas o verdadeiro missionário
não fugiu ou mudou de lugar; ficou firme vivendo junto
com um povo martirizado, que não tinha bem nenhum para
ir deixando para trás. Aprendi que ser missionário
é não mudar de lugar, isto é, permanecer
lá onde está a subnutrição, as
doenças que surgem por falta de vacinas, por falta
de cuidado e higiene, por causa de remédios falsos
que entram em Angola.
Ser missionário é ficar pensando dia e noite
o que fazer por este povo! Mas é muito bom ver as igrejas
e as escolas renascendo das ruínas, mesmo que a saúde,
o ensino e a fé se arrastem... vale a pena lutar por
isso! Vi meus confrades heróis levando a paz, a justiça,
os direitos humanos, a não-corrupção,
a presença... tudo segundo o Evangelho. Ah! Como nosso
Pai Francisco está orgulhoso deles! Eles são
instrumentos de paz, pois ajudam com a solidariedade a combater
a miséria e não precisam de armas nas mãos.
E o governo que inventou a guerra agora inventa um jeito de
devolver as ruínas! A fala do Crucifixo de São
Damião é concreta, é real: "Reconstrói
a minha Casa!" E os meus confrades estão lá,
junto com famílias missionárias de tantas congregações
masculinas e femininas de todo o mundo, mostrando que a fé
e as práticas que brotam dela realizam o milagre de
colocar tudo novamente em pé!
Antes eu não sabia bem o que é solidariedade,
agora eles me ensinaram que é uma Caridade Incansável
e Criativa; que quando não se tem o que se quer, é
preciso querer o que se tem e trabalhar com o mínimo
necessário para não faltar nada para ninguém.
A solidariedade provoca os dramas da humanidade, mas mostra,
que pouco a pouco, pacientemente, pode se construir um mundo
de saciedade, de equilíbrio e de fraternidade. Ser
missionário franciscano lá em Angola é
estar junto na Força, na Festa, na Fraternidade, na
Fé e no Futuro! Tudo isso em oposição
à preguiça, à estagnação,
ao desânimo, à violência, à gatunagem,
à imoralidade e à falta de perspectiva para
o amanhã. Entendi o que é escutar o grito dos
excluídos, só grita quem precisa muito mesmo;
e a guerra não matou a voz daquele povo, nem sua razão
de viver.
Em Luanda, Viana, Palanka, Malange e Katepa percebi que tudo
é plural: as alegrias e esperanças; as tristezas
e as angústias; é plural ser cristão,
ser Evangelho pleno de Ternura e Libertação:
"Estamos juntos!" é uma saudação
nacional! Vive-se no plural de ter ou não ter... mas
ali aparece nítida a convocação da Senhora
Dama Pobreza: "É preciso ter tudo em comum! Estamos
juntos?" Há tudo num processo de Reconstrução:
desde a auto-estima das pessoas até a mínima
necessidade material; fazer que a paz não traga a acomodação,
e assim reconstruir o trabalho, a educação,
a disciplina, a aceitação das etnias, erradicar
o espírito de retaliação e vingança,
o desarmamento.
É preciso reconstruir as vítimas das injustiças
sociais, as famílias destroçadas pelos ataques,
a juventude sem uma referência moral, a criança
abandonada, o analfabetismo crescente, a falta de documentação,
os aleijados, os refugiados, os deslocados, os contaminados,
os que precisam de re-inserção social. É
preciso alertar contra a feitiçaria, contra a proliferação
de seitas oportunistas, contra a falta de respeito aos direitos
humanos, e contra alguns costumes já defasados como
na obituária tradição de arrumar um inocente-culpado
pela morte; e através de uma pseudo-justiça
popular eliminar as pessoas com envenenamento.
Andei rumo ao interior do país; saracoteei buracos,
saltei feito peão-de-boiadeiro na boléia de
uma Land Cruiser em estradas sem a mínima condição.
Mas nada impede, nada detém a força missionária
de meus confrades em dar formação humana, cristã,
franciscana; em dar formação profissional e
intercâmbio de bens, dons e cultura.Nada atrapalha o
grande apoio aos doentes, às famílias, à
juventude, aos grupos sociais marginalizados e escondidos
nos fins de mundo das aldeias. Aprendi que ser missionário
é ajudar concretamente na Reconstrução
Nacional, o novo nome da Paz! É a cristianização
da vida com o nome de saúde moral, o instaurar o Reino,
a salvação!
Vi muitos umbuzeiros, os baobás, as borboletas, a
mandioca, os pilões para a farinha, os tanques de guerra
abandonados, as cercas , as minas, o milho, mulheres carregando
tudo na cabeça: lenha, carvão, comida! É
a primeira vez que vi um país carregado nas costas
por mulheres! Elas trabalham muito, andam muito, lutam muito...
e fiquei até envergonhado, porque aqui no meu país
nós colocamos os filhos em depósito de crianças...
e lá elas levam as crianças bem acomodadas nas
costas. Trabalham, varrem, lavam roupa, vendem produtos da
terra e das mãos, mas não largam a cria! Não
largam os filhos por nada! As crianças dormem grudadas
na pele da mãe enquanto elas vertem o suor da busca
da sobrevivência.
Vi as casas feitas de adobe, cobertas de palha, vi rios,
vi peixes, vi frutas... mas vi uma economia rastejante e bens
de primeira necessidade apenas nas mãos de uns poucos
oportunistas considerados vencedores da guerra. Vi a candonga,
vi a zungueira, vi um povo, que apesar de tudo transpira alegria
por todos os poros. Vi um país rico em petróleo
e diamantes vivendo na miséria. O petróleo e
o diamante hoje pagam as armas da guerra vendidas pelos EUA,
pela Rússia, Cuba e África do Sul... uma dívida
longa de uma guerra que desuniu e complicou a vida de um país.
Vi resquícios de dois partidos: O MPLA e a UNITA, que
em vez de terem criado um programa político só
voltado para o bem humano... criaram um descomunal desnível
social, criaram o medo e o ódio, criaram as mineradoras
e as empresas que levam tudo para fora.
Mais do que dinheiro, Angola precisa de valores, consciência
e razões para viver! Angola agora sabe que não
resolve expulsar invasores com catanas, nem criar guerra para
enriquecer os outros; Angola agora sabe que político
não serve o povo, mas serve-se dele. Políticos
que ensinaram a máxima: com guerra e sem Deus! A política
missionária é gritar a ordem contrária:
sem guerra e com Deus!
Vi a esperança e o pavor do povo na perspectiva de
próximas eleições: um partido único
não pode ser o único dono de uma nação.
Vi um povo que sabe que palavras que não toquem a vida
cotidiana não interessam. Vi a realidade de uma guerra
que acabou, mas começou outra batalha: a luta pela
sobrevivência, pela reorganização, pela
reconstrução em todos os níveis de vida;
pelo saneamento básico, e pela denúncia profética.
Como pode não ter paz, não ter hospital, não
ter pão, não ter emprego, não ter escola,
não ter transporte, não ter segurança...
e nunca faltar dinheiro para as armas? Pode Freud? Como pode
uns poucos enriquecerem e mais de 10 milhões de angolanos
passarem ao lado do desenvolvimento e progresso ?
Mas chegou o momento de agradecer! Eu queria muito agradecer
os meus confrades pela grande entrega, pela generosa entrega,
pela mais bela oferenda da vida. Agradecer por serem esta
presença de Fé, Esperança e Reconciliação
no meio de poeira, calor, mosquitos, paludismo, febre tifóide,
violência, ódio e desrespeito pelos direitos.
Agradecer porque vocês incutem valores humanos, cristãos
e franciscanos, com suor e sangue... O Lotário está
enterrado aí e o Valdir foi metralhado em 1998. Parabéns
por acreditar num futuro de justiça e de paz; parabéns
pela intensa comunhão com a Ordem, com a Província,
com a Igreja Local... e esta fantástica amizade e entreajuda
com todas as famílias missionárias masculinas
e femininas. Que testemunho visível este da união
entre as famílias missionárias!
Quero agradecer a paciência e a segurança que
vocês têm em dialogar com as outras igrejas, com
outras culturas e outras forças políticas;sempre
em nome da Verdade, mesmo com todos os riscos que isto comporta.
Que exemplo a disponibilidade de vocês para a mobilidade,
para as contínuas mudanças, a atenção
profunda com o povo, a situação precária
que vocês viveram e vivem em muitos momentos. Como vocês
conseguem unir-se ao povo na falta de médicos, de enfermeiros,
de laboratórios, de medicamentos, de hospitais, de
socorro rápido... como vocês se adequam à
falta de luz, de água, de peças de reposição...
mas não se acomodam e lutam para consertar, para funcionar
geradores, tratorar as lavras, construir escolas e sanatórios!
Quero agradecer à Evangelização... o
deslocamento para as aldeias longínquas, o atendimento
no santuário, na paróquia, no seminário,
no ambulatório, nas Clarissas, na Conferência
dos Religiosos, no cuidadoso trabalho com os nossos Formandos
Angolanos, o nosso amanhã nestas terras. Quero agradecer
às liturgias vividas, cantadas, dançadas, coloridas,
vibrantes, plenas de Deus e de Mistério. Quero agradecer
a pemba, o bubú, a Senhora Negra, Coração
de Mãe, a formação dos Catequistas e
a escuta sábia dos Sobas. Quero agradecer a acolhida
que tive aí... tenham certeza, não voltei o
mesmo! Quero agradecer a atenção que vocês
dão ao povo sem descriminação, o trabalho
com os meninos abandonados, a padaria, as bênçãos,
os sacramentos e a vontade de falar a mesma língua.
Mas chegou também o momento de pedir perdão!
Perdão porque eu achava que Missões eram o que
estavam nas Comunicações; porque eu tinha uma
retrógada mentalidade de que não precisávamos
sair daqui para fazer aí. Perdão por rezar pouco
por vocês, por fazer pouco por vocês, por arrecadar
pouco por vocês e pelo povo de vocês. Perdão
por achar que Angola era a degola de um tal Plano de Evangelização.
Perdão pelas ironias e pelo pessimismo, pelo maldito
clichê de achar que todo africano é um excluído.
Perdão pelos falsos conceitos e preconceitos... até
de achar que eu não ia me acostumar com o fungi, aquele
angu de fubá e mandioca... Eu queria pedir perdão
por pensar como a burguesia acomodada do meu país...
que reclama comendo o filé, mas não sabe o que
é roer o osso! Vocês sabem sentar-se à
mesa com um Povo! "Estamos juntos!"
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