Untitled Document
Provincia Fraternidades Carisma Sefras SAV Missões Multimidia
       São Paulo, 12/02/2012, 22:02          
 
Imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Lubango: Fr. Laerte, Fr. Fr. Kitadika
e Fr. Almir (à dir.)
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Mamás vendem verduras
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Malange
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Rio Kwanza, o maior de Angola
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Malange: ponte destruída na guerra
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Frei João Major Serrote
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Frei James (de branco) e Frei Angelo
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Banco Nacional de Luanda
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Mercado em Viana
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Montanha de pedra em Kangandala
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Aldeia em Kibala
imagens Frei James Ferreira Gomes Neto
Frei James e crianças na Missão Bola-Cassaxi



 Veja também  Impressões de andanças pelas terras angolanas - 1ª parte

18

Falei da dança. Os angolanos dançam. Dançam belamente, sem a sensualidade de outras culturas e da cultura do hedonismo. Dançam nas celebrações. Dançam as Clarissas. Mas há uma outra dança. Chamá-la-ia a dança da corrupção. Lembro-me do dia da saída de Luanda para a volta ao país. Havia aqueles que dançavam entre os táxis e carros que chegavam e as filas do check-in. Pediam dólares, trinta ou quarenta para fazer com que não fosse preciso respeitar a fila e ir direto ao guichê das companhias aéreas. Dançavam na frente... oferecendo seus serviços. Um país marcado pela dança da corrupção, do suborno... Não queria tocar nesse assunto, mas dói.

19

Ouvi dizer que o PIB de Angola, em 2008, crescerá mais de 30%. Por que tanta miséria nas aldeias e na periferia, por que tanto lixo amontoado, frango e pão vendidos na rua, untados de poeira e mordidos e beliscados por moscas e mosquitos? Por que tanta miséria quando o petróleo jorra e os diamantes cintilam???? Há um descaso do pobre, do pequeno. Será que a tarefa dos missionários consistirá em ajudar materialmente essa gente, levando dinheiro dos países de origem? Por que tanta corrupção nessa terra tão grande e tão bonita? Que futuro está reservado para este país?

20

A celebração de Santa Clara nas Clarissas foi toda especial. Ficou decidido que eu presidiria a Eucaristia. Na manhã daquele dia houvera a missa dos catequistas. Ao chegar lá vi que padres espanhóis, irmãos do bispo e um padre português estavam na igreja. Concelebraram. Quando começamos a celebração chegavam bispos e padres... Veio também o Cardeal Emérito de Luanda Alexandre Nascimento. E o mundo eclesiástico  aterrizou no mosteiro das Clarissas, situado numa das periferias de Malange. Os padres não quiseram presidir, o cardeal emérito não quis fazer a homilia nem dar a bênção. Foi uma presença discreta. Depois da missa, fomos ter com as Clarissas em seu parlatório mais amplo.

21

Entre 13 e 16 de agosto estive na aldeia Saca para uns dias de formação dos catequistas.  Experiência única... Estrada esburacada entre Malange e  Kangandala. Aviso indicando presença de minas do tempo da guerra...  tanques e carros de guerra abandonados ao lado da estrada... Aldeias e aldeias iam desfilando... gente pobre, muito pobre, sempre a bandeira do partido no governo perto da casa do soba, do administrador ancião do lugar... casas cobertas de palha... crianças na poeira, sempre na poeira... e as estradas esburacadas... As pessoas pediam boléia (carona).  Chegamos à casa das Irmãs Franciscanas de São José em Kangandala... escola, poço de água na praça da cidade. Hospital novo ainda não inaugurado, construído pelos chineses, inexistência de água corrente, luz elétrica à base de gerador... Dormimos e comemos na casa das irmãs. Os catequistas vieram de várias aldeias e ficaram hospedados em casas dos moradores da aldeia do Saca. Falei de Cristo, das ânsias do coração humano, da missa e de tantas coisas para esses homens. Os mais lúcidos, talvez, seriam o Capitão e o Domingos. Esse último, pequeno, baixinho, casado, líder em sua aldeia, é também quem trabalha no “cartório”, ou seja, que faz os assentamentos dos batizados e outros sacramentos na sede da missão, no Katepa.

22

Tive a grande alegria de ir até o Rio Kanza.  Que espetáculo. Um rio limpo, com muita água, correntezas, restos de uma hidroelétrica que nunca foi construída, pessoas tomando banho, lavando roupa, lavando crianças... uma belíssima ponte destruída, destroços nas águas... e o esplendor da natureza naquele lugar. Pedras, árvores, pássaros, natureza... tudo às margens do Kanza...

23

Lembrei-me agora de rapazinho deficiente, jovem, com a mão torta que vinha sempre correndo para tocar nos freis, pegar em sua mão: “Frei Alexandre!” Ou: “Frei Evaristo!”, gritava ele portando no semblante uma imensa alegria de ter aqueles homens como seus amigos. Nunca esquecerei essa imagem... talvez uma das mais belas de Angola! Ao lado desta imagem penso também naquelas mães que carregam os filhos às costas, na altura da cintura, envoltos em panos amarrados à cintura das mães. Carregando vasilhas pesadas na cabeça, lavando roupa. Essas mães jovens ou mais velhas sempre têm os filhos às costas, amarrados em panos... amarrados em panos vistosos...

24

Tive dois grandes encontros pastorais em Malange. Um foi com os catequistas da cidade. Conversamos sobre a missão e função do catequista. Outro foi com membros da Pastoral Familiar também da cidade de Malange. Um auditório cheinho numa tarde de domingo. Falei da família, de sua importância, do casamento, de sua construção, dos filhos que deveriam ser muitos, mas não demais, da necessidade de harmonia na vida do casal, harmonia conjugal, harmonia sexual. Importante, frisei eu, num determinado momento, que seja extirpada toda postura de machismo e que os pais tratem os filhos com compreensão, mesmo que tenham cometido erros. Uma jovem, antiga postulante à vida religiosa, veio à frente e concordou com minhas ponderações. Dizia que os pais, muitas vezes, são pouco delicados com os filhos e não mostram compreensão. De repente, num auditório colorido de panos e  trajes as pessoas se sentiram meio ofendidas. Uns se levantaram dizendo: “Como? Quem é esta para querer corrigir os pais... Onde estamos?” Tentei acalmar os ânimos. Procurei dizer que a moça talvez tivesse razão... que ninguém atirasse pedra... Mais tarde, em Luanda, no quintal dos Franciscanos, fiz as mesmas considerações para casais daquela região. A reação foi menos violenta... Que família para Angola?

25

Na última semana malangina tive contatos com os frades e irmãs em formação, tanto no seminário quanto na casa das Franciscanas de São José. Por vezes esperava um pouco mais de participação. Mesmo não participando dei-me conta que participavam.  Conversamos mais sobre a mística e o carisma de Clara e Francisco.  Houve também  reunião com membros da Família Franciscana, à noite, na casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. Conversamos sobre o sentido da missão. Falamos muito do testemunho discreto, do serviço humilde e do anúncio explícito de Cristo. Certamente muito é feito em termos de serviço humilde prestado a essa gente tão carente em todos os sentidos. Os missionários estão e deverão sempre estar em estado de reflexão sobre o sentido de sua presença naquelas regiões com tão poucos sacerdotes. Os bispos contam demais com os religiosos missionários que estão em todas as partes: na formação dos catequistas, nas escolas e ambulatórios, nas aldeias ajudando as crianças a nascer e os velhos a morrer, nas salas de aula do seminário, levando doentes para os hospitais, falando de Cristo, celebrando a Eucaristia, ajuntando as pessoas em comunidades. Por que ir para Angola? Para ser com essa gente toda... Há muitos desafios a serem superados. Não é aqui o lugar de tocar em determinadas questões delicadas. Será fundamental que todas aquelas populações possam ser gente de pé, que todos tenham consciência de sua dignidade de seres humanos e  que possam ser cristãos com sua cultura e seu modo de ser. Que Igreja para uma Angola do pós-guerra, dos diamantes e do petróleo, das firmas chinesas, coreanas e brasileiras? Todos querem um pedaço de Angola? Talvez os verdadeiros missionários queiram simplesmente ser irmãos e irmãs dessa gente simples do campo e das aldeias!!!  Antes de terminar os dias malanginos tive a alegria de conhecer as Quedas do Rio Kalandula... maravilhosas, uma miniatura das Cataratas de Foz do Iguaçu... Mas a estrada entre  Malanje e  Kalandula é insuportável... Tive ânsias de vômito e quase desesperei... não fosse a agradável e estimulante companhia de Frei Evaristo e de sua irmã Tuti...

26

Os últimos dias passados em Angola foram em Luanda. Houve ainda a animação do retiro mensal da Clarissas. Não posso deixar de mencionar a alegria de ter visitado Kalamboloca onde vivem Irmãs Franciscanas de São José. Irmã Goretti, irmã de nosso Frei  Valdecir Schwambach, é a responsável pela casa. Pobreza, simplicidade, amor pelas pessoas pobres e simples, cuidados médicos. Ali senti a presença de irmãs profundamente boas e missionárias... Tudo limpo, pouca água, vida dura, mas a alegria da missão. Estive lá com Frei Sebastião numa tarde de domingo. E vi uma floresta de Baobás, a árvore do deserto mencionada também no Pequeno Príncipe. Não esquecerei essa tarde de domingo, 26 de agosto.

27

A viagem de volta começou no sábado, 1º de setembro. Uma epopéia para poder fazer o check-in! A viagem foi interrompida na África do Sul. O vôo só continuaria para São Paulo no dia seguinte, dia 2 de setembro. Passei a noite de sábado para domingo na casa de conhecidos de Niterói, o Cel. Antônio Carlos e a esposa Teresa. Ele é adido militar na embaixada do Brasil em Pretória. Pude, ao menos, ver alguma coisa de uma das capitais da África do Sul (as outras são a Cidade do Cabo e Durban) num domingo ensolarado, percorrendo estradas esplêndidas, sem buracos e sem poeira. Por acaso passamos perto de uma Igreja (Our Lady, Queen of Peace) da Província Franciscana da África do Sul. No domingo, dia 2 de setembro, deixei Johannesburg num avião lotado da South Africa Air Lines. Foram dez horas de viagem até Guarulhos... Um boa mas cansativa viagem. Em Guarulhos me esperavam Frei Almir Bonetti (o Gaita), e Frei Ivair que já viveram em Angola. Eles queriam ouvir falar das coisas de lá. Perto de Santa Isabel, na Dutra, fomos saudados por uma breve chuva de granizo que durou pouco tempo...

28

No fim destas reflexões deveriam ser tiradas algumas conclusões. Limito-me a fazer umas perguntas e algumas constatações:
• os frades que lá estão dão a impressão de estarem contentes, cada um com seu estilo e seu temperamento;
• não temem doença alguma: alguns já foram tocados pelo mosquito da malária muitas vezes, mas não se atemorizam;
• há necessidade de fomentar novas vocações para Angola: a reabertura de Kibala e a construção do noviciado pedem mais missionários;
• no Katepa vai se concretizar o velho projeto de uma escola de catequistas: há já casas que serão reformadas e prédios serão construídos: os missionários poderão dar uma boa ajuda na formação dos catequistas (tarefa interessante, mas difícil);
• haveria um trabalho de administração que poderia ser desempenhado por leigos missionários: compras, cuidado com os carros, geradores, transformadores, escolas, etc...
• complicada e sempre preocupante é a questão da legalização e atualização dos vistos  provisórios e permanentes: muitas vezes os frades perdem muito tempo com essas coisas burocráticas...
•  Frei Valdir Nunes lembra uma expressão dos franceses falando dos mistérios ou fascínio da África: le mal d’Afrique; era como se as pessoas fossem tocados por um “mal”  “le mal d’Afrique”; ou seja, talvez alguns missionários na Ásia ou alhures tivessem feito o trabalho bem e voltado para suas terras sem muita saudade, mas os missionários na África são como que mordidos por um mal, como dizem os franceses, um “mal d´Afrique”: mais cedo ou mais tarde voltam... essa doença não teria cura...
•  não gostaria de deixar de testemunhar minha gratidão pela boa hospitalidade que me foi propiciada por todos os frades: os da casa “mãe” em Luanda; a equipe do Katepa, tão simples, tão missionária, os frades do seminário, as delicadezas dos frades de Viana.

29

Angola, antiga colônia portuguesa, terra de mistérios, país africano que fala a nossa língua com sotaque de Lisboa ou do Porto. Angola, no momento vivendo a alegria da paz! Os angolanos não querem mais a guerra! O país está em reconstrução. Angola vive em estado de efervescência!  Até quando?  Para onde se encaminha aquela nação? Os países que trabalham na reconstrução, amam o povo?  Ao mesmo tempo há contrastes e contradições: riqueza e miséria, beleza e feiúra, progresso e situações desumanizantes. Nesse contexto todo estão nossos confrades missionários. Que eles sejam abençoados por Deus e que possam um dia saber que dez ou vinte frades com saúde estão dispostos a viver a ventura da fascinante Angola, terra de efervescência e de contrastes.

| VOLTAR |