|
20/01/2006
Dom Cappio agradece pela solidariedade durante o jejum
Por Moacir Beggo
São Paulo (SP) - A chuva que caiu
durante todo o dia, neste domingo (20), não afugentou
milhares de pessoas que participaram da "Missa do Irmão
Baiano", celebrada por Dom Luiz Flavio Cappio no Santuário
de São Judas Tadeu, no bairro do Jabaquara, em São
Paulo. Esta foi a 18ª celebração consecutiva
feita por Dom Cappio para os migrantes baianos e, como não
poderia deixar de ser, foi especial, já que o público
também queria ver o bispo que estava disposto a dar
a sua vida pelo povo que vive nas margens do Rio São
Francisco. Para Dom Cappio, esta celebração
foi a "Festa do Encontro" e aproveitou para agradecer,
emocionado, o gesto de solidariedade que recebeu do povo,
da Igreja, sindicatos, entidades e grupos sociais e populares.
"Queridos irmãos, queridas irmãs. Neste
momento tão bonito de congraçamento, de irmandade,
de fraternidade, de celebração, quero agradecer
a todos vocês. A cada um que manifestou seu gesto
de solidariedade nesta luta árdua, sofrida que travamos
em defesa da vida, em defesa do nosso povo do sertão.
Em defesa no nosso povo ribeirinho do São Francisco
e dos demais rios que nos dão a água que bebemos.
Em defesa da vida do sertão brasileiro, lá
no semi-árido nordestino - baiano, mineiro, sergipano,
pernambucano, alagoano, paraibano, capixaba, maranhense,
piauiense e cearense -, em defesa da vida de todos aqueles
que desejam viver. Mas não apenas que desejam viver,
mas que desejam viver com dignidade", frisou o bispo
da Barra.
A celebração eucarística se estendeu
por cerca de duas horas e meia e chegou a ser questionada
pela imprensa presente, já que Dom Cappio deu a palavra
ao professor e advogado Plínio de Arruda Sampaio,
hoje um ferrenho oposicionista ao governo do presidente
Lula. Para Dom Cappio, contudo, jamais fará "politicagem"
em qualquer celebração, mas a "política
com P maísculo, no sentido da palavra, faz parte
da luta pela vida. E esse povo que estava presente na celebração
conhece bem o que é essa luta", disse.
"Então, a gente quer agradecer de coração,
porque é justamente esta solidariedade que faz com
que a luta cresça e tenha visibilidade e se transforme
num fato social, num fato político, num fato que
provoca mudanças. E o que desejamos é que
seja para melhor. Na busca daquele Brasil que nós
sonhamos, que todos nós queremos, e cada qual faz
a sua parte para que um dia possamos tê-lo. E possamos
deixar para os nossos filhos, netos, para aqueles que virão
depois de nós", enfatizou.
O que chamou a atenção de Dom Cappio durante
todo o processo de jejum foi a "insensibilidade"
do governo. "Eles se fecharam totalmente ao diálogo.
Por isso iniciamos o jejum diante do silêncio do governo",
disse Dom Cappio, criticando especialmente o presidente
Lula, que "cuspiu no prato que comeu", já
que usou os movimentos populares e sociais para chegar ao
governo e agora governa para a elite.
"O projeto é uma imposição do
governo federal, decidido entre quatro paredes de um gabinete",
emendou. Para Dom Cappio, o projeto de transposição
das águas do Rio São Francisco não
vai dar certo, como não deu nos governos anteriores.
"Ele tem fins eleitoreiros e, quando o dinheiro acabar,
vai parar", criticou.
O bispo da Barra lembrou que ainda não choveu no
sertão e os reservatórios de águas
estão abaixo da média. "Para tocar essa
obra, vai ser necessário muita energia elétrica.
E estamos próximos de ter um apagão. De onde
vamos tirar energia para levar essa água a mais de
dois mil quilômetros?", perguntou, lembrando
que todo o povo brasileiro vai pagar pelo custo desse projeto.
"Infelizmente, o governo não olha para o meio
ambiente. Não se olha para a natureza. Ela não
é como um almoxarifado, que serve a gente 24 horas.
Ela tem de ser refeita e cuidada", alertou, emendando:
"Nós não vemos essa natureza como fonte
de vida, mas como fonte de lucros".
Para Dom Cappio, a luta não é dele somente.
É de toda a sociedade. "É preciso que
todos se unam, especialmente os jovens, as universidades,
a Igreja, os sindicatos, ongs e grupos populares contra
esse projeto de morte. Cada um de nós deve se perguntar
de que lado está: a favor da minoria ou da maioria
dos pobres?"
A "Missa do Irmão Baiano" acontece todos os anos no terceiro domingo de janeiro. A de 2009 será no dia 18 de janeiro, no mesmo Santuário de São Judas Tadeu.
|