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Por César Lobato
Diante da condição existencial da pessoa necessitada de ajuda, podemos nos fazer a seguinte pergunta: o que fazer diante dessa pessoa marcada pela dor e pelo sofrimento? Inúmeras são as possíveis alternativas de resposta.
Todas elas, certamente, orientam-se no sentido de oferecer alívio ao sofrimento e amenizar a dor dessas pessoas. Todas elas, portanto, tem seu valor. Contudo, cremos que seja oportuno oferecer um modelo de interpretação do sofrimento e de intervenção sobre a situação trágica dessas pessoas, que seja respeitoso da dignidade do homem, entendido como ser bio-psio-social-espiritual.
O modelo de interpretação a que nos referimos é a logoterapia. Para essa abordagem, a vida é compreendida como "tarefa" e como necessidade de descobrir e responder ao significado da existência, nas situações concretas do quotidiano.
O fundador dessa orientação psicológica, o médico e psiquiatra austríaco Viktor Frankl, nos coloca diante de uma tríplice categoria de valores que, segundo ele, constituem a base para a realização da tarefa existencial de cada pessoa: o trabalho, o amor e o sofrimento.
No trabalho, o homem pode se expressar, dando à realidade a sua marca pessoal; no amor, ele pode viver as experiências mais fortes e íntimas; no sofrimento se manifesta a sua grandeza, pois só no sofrimento o homem se encontra tragicamente colocado em confronto consigo mesmo, com sua capacidade não só de trabalhar e de gozar a vida, mas de sofrer.
O homem, segundo Frankl, tem o direito não só à vida, ao trabalho, à alegria e à paz, mas também tem um direito fundamental que ninguém pode tirar-lhe: o direito de sofrer a própria dor, o direito de inundar de significado também uma vida aparentemente destruída.
O sofrimento "não representa simplesmente uma possibilidade qualquer, mas sim a possibilidade de atuar o supremo valor, a ocasião para conferir plenitude ao significado mais profundo da vida" (Frankl, 1997). Este significado resplandece na atitude que o homem toma diante de um destino marcado pela dor, diante das forças adversas do cotidiano e de situações irreparáveis.
Para Frankl, a resposta ao porquê do sofrimento humano está na atitude que o indivíduo toma diante da situação de sofrimento. Trata-se de superar uma passividade aprendida que insiste em dizer que não se pode fazer mais nada (e que só aumenta o sentimento de impotência) e assumir uma atitude positiva e ativa, carregada de sentido diante do sofrimento; "a dor pertence à esfera mais íntima e pessoal do homem. O homem não educado pela dor permanece sempre uma criança! O crescimento, o amadurecimento e o enriquecimento de uma vida humana estão ligados à dor e à resposta à pergunta: Por que sofrer?
Essa resposta não é pronunciada em alta voz, com arrogância e soberba, mas dita no profundo do próprio coração, no íntimo do próprio ser. A resposta que o homem sofredor dá à pergunta sobre o porquê da dor, através de como ele a suporta, é sempre uma resposta sem palavras... No entanto, é a única resposta significativa".
Mas podemos nos questionar: como se aproximar do homem que sofre a partir desta concepção? Qual atitude o operador social deve tomar quando se encontra em situações nas quais não é mais possível curar, nem reduzir as dores e os sofrimentos físicos? Normalmente os operadores são tentados a desviar-lhes a atenção mediante formas de compensação inúteis e, na maioria das vezes, contraproducentes.
Frankl sugere uma postura provocadora. Eis o seu posicionamento: "...uma última palavra, não ao homem sofredor, mas ao homem que se aproxima de quem sofre e sofre com ele: assim como a dor, o conviver é significativo, o sofrer com (o outro)! Mas ele é também silencioso. O conforto tem limites: onde as palavras seriam poucas, lá toda palavra é demais".
César Lobato, psicólogo e professor universitário, agente da Pastoral DST/Aids. Texto extraído do livro da CNBB "Igreja e Aids".
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