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Se perguntarem no Convento São Francisco pelo José Roberto Pereira, ninguém conhece. Mas se perguntarem pelo Betinho, todo mundo sabe quem é. Aos 36 anos, Betinho é funcionário da Província Franciscana da Imaculada Conceição, onde atua na elaboração de projetos de sustentabilidade para o Serviço Franciscano de Solidariedade. Nesta entrevista exclusiva, ele conta como nasceu e cresceu o Centro Franciscano de Luta Contra a Aids, um projeto pioneiro em São Paulo, quando a Aids crescia como epidemia mundial. Betinho foi um dos fundadores do Cefran, junto com o Frei Reynaldo Amexeira. Acompanhe!

Por Moacir Beggo

Boletim do Sefras - Como co-fundador do Cefran, você poderia relembrar o nascimento desta obra?
Betinho
- O Cefran era um projeto novo, quase um piloto no Brasil, pois tinha uma peculiaridade que o diferenciava dos demais, que até então atendiam pessoas vivendo com Aids, como aquele de dava apoio jurídico, ou o que dava só assistência social, o que oferecia cesta básica, medicamentos ou era uma casa de apoio para quem não tinha moradia. O Cefran, não. Ele nasce com uma nova proposta de luta contra a Aids, no momento em que a doença no Brasil passava pela fase mais crítica e que chamávamos de "Holocausto da Aids". Não existiam drogas, não existia tratamento e as pessoas morriam muito rapidamente. Em quatro ou cinco meses de descoberta da doença, vinha todo aquele processo de degradação física e, em seguida, o óbito. E a proposta iluminada que Frei Reynaldo teve foi essa de criar um Centro de promoção do indivíduo em três dimensões: corpo, mente e espírito. Na época, sem os medicamentos, tinha-se de buscar uma forma de viver com as ferramentas disponíveis, buscando o equilíbrio nas três dimensões. Na época, o projeto foi apresentado ao nosso provincial Frei Estêvão (Ottenbreit) - o Frei Caetano (Ferrari) era o vice e Fr. Augusto Koenig, hoje ministro provincial, era o guardião do Convento - e Frei Reynaldo me perguntou se voltaria para São Paulo - eu estava trabalhando e Santos - se o projeto fosse aprovado. Disse que sim.

Boletim do Sefras - E o projeto foi aprovado?
Betinho
- Foi aprovado e eu cheguei aqui no começo de agosto. No primeiro momento, a gente foi trabalhar onde era o Porta Aberta. Ficamos com duas salas e fomos em busca de recursos. No dia 3 de setembro de 1994 tivemos uma bela missa de inauguração. Me lembro que distribuímos rosas para toda a Igreja, que estava muito lotada. Nós divulgamos bem. A gente chamou de a "Missa de Saúde dos Enfermos". Ela tinha uma visão mais ampla: não era só para a Aids. Todos que estavam doentes vieram e foram ungidos com óleo. Ali nascia o Cefran. Me lembro de um dado muito interessante. Quando eu e o frei Reynaldo abrimos a porta do porão - hoje é a hospedaria -, estava tudo escuro, nada funcionava. Só havia uma salinha que funcionava como depósito do Pró-Vocações. Quando entramos naquela escuridão, olhamos para a cara de um do outro e perguntamos: "por onde que a gente começa?". Só tínhamos um papel na mão aprovado. Vamos começar pelo básico: cada um pegou uma vassoura e começamos a limpar. A gente tinha um sonho e precisava materializar esse sonho.

Boletim do Sefras - Como encarar a Aids quando o Cefran estava começando?
Betinho
- Talvez as pessoas que são afetadas pela epidemia hoje não tenham mais a noção do que foi a Aids no Brasil nos anos 90. Só para ilustrar, no início da epidemia há um fato curioso: o maior número de homossexuais de São Paulo estava na região da Santa Cecília e esses dados foram levantados porque ali estava o maior número de suicídios de pessoas morando em São Paulo. Quando se descobriam portadoras do vírus, atiravam-se dos prédios. No final dos anos 80 e início dos 90, quando a Aids tomou a proporção de epidemia mesmo - porque antes estava escondidinha -, a gente via situações horríveis. Nos finais de semana chegávamos a ir a três e quatro velórios ao mesmo tempo. Nós víamos amigos que estavam bem, saudáveis, e de repente em quinze dias ele começava a definhar , definhar, definhar, até morrer. Hoje, os remédios enchem as prateleiras e as pessoas brigam porque está dando dor de barriga. Na época, não tinha nada. O AZT era comprado a 600 dólares, sendo que uma caixinha dava apenas para quinze dias e a gente hoje sabe que ele só é eficiente associado a outras drogas. Mas era o que tinha e as pessoas se arrebentavam para poder comprar o tal do AZT, que hoje custaria R$ 2 mil reais. Quando as pessoas começaram a bater na nossa porta, a gente se deparou com pessoas extremamente doentes, e aí o Cefran descobriu um novo perfil: doença, preconceito, dor, sofrimento e pobreza. Essa população não ia a outras entidades buscar atendimento. E se iam, tinham uma assistência social só de balcão: "olha, leva uma cesta básica e vai para casa". Elas não traziam para acolhida, para o abraço, como fez São Francisco ao beijar o doente: "o que era amargo tornou-se doçura do corpo e da alma". Então, o Cefran vem e faz essa inversão.

Boletim do Sefras - Foi um trabalho pioneiro que ganhou reconhecimento e prêmios em todo o país?
Betinho
- Sim. Porque muito antes de os estados fazerem mapeamento de populações vulneráveis, de mostrar pessoas abaixo da linha de pobreza com Aids, de campanhas de prevenção, o Cefran já começava este trabalho. Quem é que procura os conventos desde o tempo de São Francisco: os miseráveis. E, obviamente, o mais miseráveis com Aids. Mas o nosso projeto não foi elaborado para o atendimento social. Ele visava o atendimento psicoterapêutico, como dizia o nome: Centro Franciscano de Acolhida e Atendimento Psicoterapêutico. Só que o povo vinha com fome. Na nossa cabeça era tudo igual ao do GIV, tudo bonitinho, arrumadinho. Hoje, tem muito carente lá, mas na época não. E aí a gente falou: "e agora?". Tivemos que acolher. Montamos uma farmaciazinha emergencial, depois começamos a pegar uma comida daqui e dali, começamos a inventar terapia ocupacional para poder gerar renda, começamos a vender terçinhos em todos os lugares do Brasil, que eles fabricavam para gerar renda. Então, ele começa a desenvolver toda uma metodologia própria sem sair do objetivo proposto no no projeto. E foi muito interessante. O Cefran tem esse marco histórico na epidemia da Aids. Porque ele consegue acolher, trazer para dentro da casa pessoas com Aids em situação de pobreza. Foi assim também com a Casa da Brenda Lee, que tem um marco histórico quando ninguém queria tratar de travestis, mas aí vem a Brenda Lee e diz: "eu sei como acolher e tratar de travestis". O Cefran sabe atender a população em situação de pobreza com Aids. É o trabalho que faz até hoje com muita eficiência.

Boletim do Sefras - Quantas entidades se preocupavam na época com os soropositivos?
Betinho
- Aqui, em São Paulo, tinha Casa Alivi (Associação Aliança pela Vida), a Casa Brenda Lee, o Gapa, o GIV. Na verdade, todo mundo estava começando. O Gapa foi o primeiro, depois veio o GIV, do José Roberto Peruzo, que foi muito amigo do Reynaldo. Foram duas grandes lideranças do movimento social de São Paulo de luta contra a Aids. Hoje São Paulo tem umas duzentas entidades porque 25% da epidemia no país está aqui. No município. Temos em São Paulo por volta de 60 mil casos, dos quais 30 mil foram óbitos.

Boletim do Sefras - Como era o Frei Reynaldo?
Betinho
- Eu trabalhei com Frei Reynaldo de 90 a 96. Em junho de 96, exatamente no dia de Santo Antônio, ele faleceu. É difícil falar sobre o perfil dele. Era um grande amigo... Mas uma das coisas que destaco do seu perfil do Reynaldo era uma pessoa muito fácil no trato de lidar. Ele tinha uma capacidade de dialogar, de trazer para a acolhida. Não de se sobrepor pela intelectualidade ou pelo sacramento do sacerdócio. Ele acolhia e tinha uma capacidade de comunicação como poucas vezes vi. Tinha uma oratória fascinante: ele falava e o povo ficava pasmo. Era uma pessoa extremamente generosa. Uma coisa peculiar da vida dele era não gostar nada do que é eletrônico. Até o fim da vida dele trabalhou com a máquina de escrever. Ele falava: "Betinho, não gosto nem de microondas para não ter que apertar botão". Ele gostava de tudo que era manual. Claro que a gente viveu numa época onde o computador era uma novidade. Quando o Reynaldo faleceu, pensei que ficaria só para tocar o projeto, mas em seguida Deus nos trouxe o Miguel Sanchez, que também deu a vida pelo Cefran.

Boletim do Sefras - Como você avalia o trabalho da Pastoral DST/Aids no Brasil e especificamente em São Paulo, como coordenador do regional?
Betinho
- A Pastoral nasce no final dos anos 90 com a necessidade de a Igreja dar uma reposta à epidemia de Aids do Brasil. Só que aí quem a fomenta não é a Igreja, mas são os membros, as comunidades espalhadas no Brasil que atendem Aids, como o Cefran, a Província. Nasce, então, uma Comissão formada pelo Irmão Henrique, de Manaus, que dá os primeiros passos com D. Jacyr e depois vem o d. Eugênio Rixen. Inclusive há uma história bem interessante desta época. Na viagem para formar a pastoral, no caminho para Santos, quando ia falar com d. Jacir, o presidente nacional das Pastorais Sociais, Fr. Henrique ficou hospedado aqui, no Convento São Francisco. É interessante: o Convento São Francisco faz essa ponte de articulação entre as instâncias da Igreja. D. Eugênio aceitou de bom agrado e aí nasceu a Pastoral. Hoje, ela está nos 17 regionais da CNBB, nos 27 estados da União, em alguns, mais desenvolvida e em outros nem tanto, já que ela tem apenas três anos. Pelo tempo de outras pastorais, com 30 ou 40 anos, a gente até caminhou bastante!

Boletim do Sefras - Quais as diretrizes da Pastoral?
Betinho
- A Pastoral é fundamental, não só para atendimento externo, mas como orientação interna. Percebe-se que a própria Igreja precisa de mais ferramentas: de comunicação, informação, de reflexão - teológica, antropológica, sociológica - e conhecer mais os desafios da sexualidade humana. Porque a Aids não traz uma enfermidade. Ela traz no bojo, na essência dela, muitos fenômenos que eram escondidos pela sociedade, pela Igreja, pela comunidade, pelo Estado e que, de repente, booom! E veio, então, a pergunta: "O que a gente faz com tudo isso, que já acontecia, e todo mundo escondia sob o tapete?" E aí: vamos trabalhar esses desafios humanos de nosso mundo contemporâneo ou vamos culpar o ser humano, à imagem e semelhança de Deus?. A Pastoral, então, trabalha com acolhida, serviço e atua muito na prevenção. Uma prevenção, obviamente, dentro da diretrizes da CNBB, respeitando a Medicina. Não se contrapondo com o que a Medicina diz, mas mostrando que é possível várias formas de prevenção. E não unicamente através do preservativo. Olha como é diferente a conotação. Eu posso ser feliz tendo uma parceira única. Eu posso ser feliz sendo fiel. Se não houver essa possibilidade, não cabe à Igreja fazer o julgamento. Existe os métodos sanitários de prevenção. Agora, isso vai fazer com você tenha uma vida plenamente feliz? Então, em vez de você falar "use camisinha", você traz ela para a reflexão do que realmente é uma vida saudável.

Boletim do Sefras - Esse trabalho seu na Pastoral é voluntário?
Betinho
- Sim, é um serviço. A Pastoral não tem um trabalho de atendimento na base, mas de fomentar comunidades católicas ou cristãs de boa vontade de atuar junto à comunidade. Se a Pastoral daqui a alguns anos continuar irradiando, ela vai chegar aos rincões onde o Estado não chega. O Brasil tem cinco mil e pouco municípios. No programa de Aids, tínhamos até o ano passado, 200 programas e agora foi para 400. Está alcançando 10% de todos os municípios do Brasil. Agora, com certeza, nos cinco mil municípios tem ao menos uma capelinha. Quer dizer, a Igreja está nos lugares mais afastados do Brasil e ela tem força de articular, através dos regionais. Mas a gente precisa do apoio de congregações, de abadias, de conventos, dioceses e colégios. E não é financeiro, não, mas de boa vontade. O curioso é que a Pastoral nem mexe com dinheiro. Ele trabalha com material informativo. Mas que aquela paróquia, aquela comunidade, fala: "olha, eu me interessei, tenho um grupo de jovens aqui e eles querem trabalhar". Imediatamente nós providenciamos a capacitação. Está criado um agente multiplicador naquela comunidade. É um trabalho fantástico.

Boletim do Sefras - O que você diria para quem se descobre hoje um soropositivo?
Betinho
- O impacto do resultado positivo em uma pessoa com o vírus continua o mesmo de antigamente. A diferença é que depois ela se adapta a viver com a Aids. Antes a pessoa só via a possibilidade iminente de morte. Mas hoje não morre, em tese. É claro, se a pessoa não se tratar, vai do mesmo jeito. Eu diria para as pessoas que façam o teste de HIV sem nenhuma reserva e que não se culpem. A culpa, acredito, é pior do que o vírus HIV. Deus nos deu a vida para viver em abundância. Ele fala para que todos tenham vida. Ele não fala para que "bonzinhos" tenham vida. Se nós temos dores e sofrimentos, isso não é dado por Deus. Isso é conseqüência dos desafios humanos, do período histórico que vivemos. Deus está aberto para acolher como um Pai acolhe um filho, lembrando as parábolas do Filho Pródigo e do Bom Samaritano. Quem tiver o resultado positivo, deve aceitar a sorologia e ver o que se tem a fazer para continuar vivendo exatamente do jeito que se vivia. Com a mesma qualidade, perspectiva, com a mesma garra e determinação. E se for difícil no começo, procure ajuda especializada.