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O Centro Franciscano de Luta Contra a Aids
completa dez anos no dia 3 de setembro. Desde a sua fundação
por Frei Reynaldo Amexeira, ele se tornou um centro de referência
para milhares de portadores do vírus HIV.
Por Moacir Beggo
Muitas pessoas que procuram o Centro Franciscano de Luta Contra
a Aids, no Belenzinho, receosas e carregando um peso insuportável
nas costas, começam a ter vida nova logo na recepção,
quando são recebidas pelo Tavares. Voluntário
há três anos, ele logo dá um sopro de vida
ao se identificar como soropositivo e, o mais importante, há
19 anos. Com a morte da mãe e do irmão, ele vive
só em São Paulo e adotou uma nova família:
a Família Cefran.
Aos 63 anos, o comerciário aposentado João Alberto
Tavares (veja o depoimento dele) é um exemplo da grande
maioria dos cerca de 400 assistidos que procuram este novo lar
ou, pelo menos, um espaço onde podem conviver e falar
sobre uma nova realidade: a vida como soropositivo. É
o que mostra também uma pesquisa feita com todos os assistidos:
90% acham o acolhimento da obra bom. O coordenador Odonel Serrano
lembra que, em se tratando de trabalho social, o número
é alto. “Nesta área, normalmente as pessoas
estão descontentes. Elas chegam criticando tudo”,
observa.
Até mesmo para a psicóloga Wilma Carla do Amaral,
que antes era professora no Colégio Santo Antônio
do Pari, o Cefran mudou a sua vida. “Quando eu vim para
cá, descobri um mundo novo. Pensei que ia sofrer, que
ia ser difícil, mas foi muito melhor do que podia imaginar.
Porque vim com um único propósito: tenho de levar
um sopro de vida. Mas eu também recebo deles um sopro
de vida. Porque são eles que me alimentam quando estou
triste, quando o dia não está muito bom e eles
fazem questão de vir aqui me dar um beijo. ‘Oi
Wilma, até a semana que vem!’ Essa troca faz com
que a gente refloresça. Tem um brilho todo especial trabalhar
aqui. Você não se sente um número. Você
faz parte da família e você tem identidade”.
O depoimento emocionado de Wilma não é diferente
da constatação do coordenador Odonel. Para ele,
hoje a magia do Cefran se faz mais clara. “Antes não
conseguia entender por que uma pessoa viaja três horas
para vir ao Cefran uma vez por semana. Por causa da cesta básica
não é, pois ela vai gastar mais do que receberá
em benefícios. Tem pessoas que vivem traficando drogas:
‘Meus Deus, porque ele vem pra cá?’”,
pergunta. “Ele ganha com trabalho dele, pode ser ilícito,
pode ter um monte de problemas etc, mas o que leva uma pessoa
de uma realidade tão diferente procurar o Cefran? É
mais fácil entender alguém que está com
depressão e está precisando de um apoio. Mas estas
outras pessoas, não”, acrescenta Odonel, que está
há mais de nove anos no Cefran.
Para ele, o Cefran deu um “salto” quando teve contato
mais profundo com a proposta franciscana. “Esses eventos
religiosos, os retiros, têm repercutido aqui. A gente
sai da necessidade material e consegue tocar as pessoas, seja
pelo ponto da fé, da espiritualidade ou do amor. Isso
foi uma descoberta para a gente também. Nesses dez anos,
fomos nos transformando”, lembrou o coordenador.
Quando Frei Reynaldo teve a aprovação do projeto
pela Província Franciscana da Imaculada Conceição
e pelo Convento São Francisco, que cedeu o espaço,
a idéia era criar um centro de apoio para soropositivos
e pessoas vivendo com Aids dentro de uma nova visão:
mente, corpo e espírito. Frey Reynaldo e José
Roberto Pereira, o Betinho (veja a entrevista que resgata este
passado) só não contavam com a grande maioria
de pessoas carentes procurando a obra. Depois de alguns anos
funcionando na parte baixa do Convento, o Cefran ganhou uma
sede na rua Serra do Jairé. É neste espaço
que pessoas como Tadeu (*), soropositivo há 18 anos,
busca ampliar seu convívio além da família.
“Moro com minha mãe em casa própria. No
Cefran tenho um espaço de convivência com novos
amigos, já que os anteriores se afastaram todos. Aqui
não há preconceito. Além disso, posso crescer
espiritualmente, culturalmente através dos cursos e grupos
de apoio”, conta Tadeu, que descobriu o Cefran através
de uma amiga. Agora, ele está participando do grupo de
artesanato, que “ajuda como terapia e lhe dá uma
nova profissão”. Tadeu leva uma vida normal e toma
o coquetel de retrovirais há oito anos, o medicamento
que começou a dar esperança de vida a milhões
de pessoas. “Não tenho preconceito com relação
aos homossexuais, mas sou homem , não me preveni e aconteceu,
como acontece com muita gente”, observou.
Já Adalberto (*) teve a indicação do Cefran
no Hospital Fidélis Ribeiro há sete meses. Descobriu-se
soropositivo há cinco anos. “Quando fiquei sabendo,
entrei em desespero”, conta o ex-motorista, que teve ajuda
de um primo, que também é soropositivo, para buscar
ajuda. “Aqui, cada um tem uma história de vida.
Até a professora que nos ensina artesanato é soropositiva.
Ela é legal pra caramba”, conta.
Aparecida (*) ficou viúva com quatro filhos. Conheceu
um rapaz e descobriu que ele tinha o vírus e depois foi
informada que também já era soropositiva. “Mesmo
assim, continuei com ele. Hoje ele está desempregado,
pois já tem doenças oportunistas, e eu também
estou desempregada. Moro de aluguel, meu filho mais velho, de
16 anos, está desaparecido”, conta a pequena Aparecida,
falando tranqüila, mansa, como uma mineira natural de Belo
Horizonte. Ela participa do grupo de alfabetização.
“Estava no Grupo da Dinâmica Corporal e agora ocupo
minha mente com os estudos para não ficar desesperada
com meus problemas”, acrescenta. Ela nem pensa em ficar
longe do Cefran. “Primeiramente, eu agradeço a
Deus e depois o Cefran, porque se não fosse através
dele não sei o que seria de mim. A cesta e o leite que
pego aqui estão me ajudando muito. Eu preciso do Cefran”,
despede-se Aparecida.
(*) Os nomes não são completos para preservar
a identidade dos assistidos. CEFRANZINHO,
O FILHO MAIS NOVO
Frey Reynaldo Amexeira morreu no dia de Santo Antônio,
no ano de 1996. Não pôde ver que sua obra cresceu
e se multiplicou para atender aos pequeninos, filhos de pais
e mães soropositivos e também portadores do vírus.
O Cefranzinho, o centro infantil de acolhimento dessas crianças,
foi inaugurado em 2002. Nas férias, chega dobrar a sua
capacidade de atendimento, que gira em torno de 100 crianças
por mês. Trata-se de um espaço lúdico, pedagógico
e físico.
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