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Tavares e a sua nova vida

João Alberto Tavares, ou simplesmente Tavares, conheceu o Cefran por acaso quando a sede ainda era no Convento São Francisco, na rua Riachuelo, antiga Porta Aberta.

“Eu venho da rua Riachuelo, não como voluntário, mas como assistido. Antes disso, estava levando uma vida vegetativa. Levantava, sentava, ia ver televisão, deitava, dormia, levantava, comia. Eu estava com 49 quilos, hoje engordei 17. A minha família se resumia em três pessoas: eu, minha mãe e meu irmão. Eu perdi os dois e praticamente estou só. Então, a minha família é esta aqui, a família do Cefran. Sábados e domingos para mim são dois dias de terror, porque não converso com ninguém. A minha casa é aqui. Foi aqui que eu achei compreensão. Era comerciário, onde trabalhei como vendedor de confecção por 35 anos e depois fui aposentado por invalidez. Minha vida virou um rolo terrível. Não pelo HIV. Não culpo ninguém, nada, por isso ter acontecido. E depois perdi minha mãe. O que vou fazer agora? Nunca tive muito contato com pessoas soropositivas. E não é por discriminação. Às vezes, tinha contato mas nunca falava que eu era. Não havia necessidade porque não ia solucionar o meu problema. Mas eu procurava dar uma palavra amiga e apoio às pessoas que falavam comigo. Numa dessas conversas, fiquei sabendo da existência do Cefran quando ouvi que ‘lá eles são bons para mim, não por causa da cesta básica, mas porque dão palestras’. Daí eu pensei assim: ‘Não vou ficar nesse come-dorme que não leva a nada’. Fui muito bem recebido no Cefran. Se hoje nós somos mais de 300 pessoas, na época eram 50 assistidos na Riachuelo. E foi uma luta, mas foi uma luta que me engrandeceu muito. Agora, trabalhando como voluntário na recepção, automaticamente sou obrigado a perguntar para a pessoa que nos procura se ela é soropositiva, mesmo tendo a cartinha da assistente social. Às vezes noto que ela fica meio arredia. Digo: ‘não há necessidade de você ficar assim. Não vou dizer para você que a cura existe, mas nós podemos controlar ela’. A pessoa diz que não é assim e se mostra desesperada. Então, volto a dizer: ‘Você não precisa ficar assim, eu também sou’. ‘Você também é? Há quanto tempo?’. Aí eu respondo: ‘19 anos’. Procuro sempre levantar o astral desta pessoa. Eu aqui, no Cefran, achei quem levantasse o meu. Então, tenho de levantar o dela também”.


Tavares está com 63 anos e toma o coquetel sem efeitos colaterais. E ainda fuma. “Mas não bebo e não faço noitadas. Minha casa é meu santuário. Sigo um ditado que minha mãe me deu: ‘Dê valor, meu filho, ao lugar que você se esconde da chuva’.