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Igreja e Aids
Por Dom Eugênio Rixen
Fui escolhido pela CNBB para acompanhar a Comissão Nacional de DST/Aids da Pastoral da Saúde, agora organizada como Pastoral DST/Aids. A difusão ameaçadora da Aids chama a uma dupla iniciativa: a prevenção da doença e a assistência aos infectados. A Igreja Católica Romana tem sido sensível a esta epidemia moderna.
Quanto à assistência aos doentes, ela tem muitas casas onde são acolhidos os portadores de HIV. A exemplo de São Francisco que beijou o leproso, muitos agentes de pastoral preocupam-se em acolher aqueles que a sociedade rejeita por medo da contaminação. Nós vemos neles o próprio rosto de Jesus.
Não queremos condenar ninguém, mas manifestar a nossa misericórdia. Sabemos que muitos portadores carregam um forte sentimento de culpabilidade e de rejeição. Queremos manifestar a ternura e o afeto de Deus e lhes devolver a auto-estima e o amor aos outros. E quanto à prevenção, o que a Igreja Católica Romana propõe?
Uma ética sexual humanizante
"A obra de prevenção, para ser digna da pessoa humana e realmente eficaz, deve propor-se, ao menos, a dois objetivos: informar adequadamente e educar para a maturidade responsável. Antes de mais nada, é necessário que a informação seja correia e completa, sem medo, mas também sem falsas esperanças".
Acreditamos que a relação sexual não é simplesmente um ato biológico, mas envolve pessoas capazes de amar. O instinto sexual não é uma fatalidade, o ser humano é chamado a humanizar sua sexualidade. Sexo tem a ver com amor e não simplesmente com prazer. Mais a pessoa é capaz de amar, mais a própria sexualidade se torna prazerosa. A relação sexual deveria ser o ponto de chegada de duas pessoas que se amam e são comprometidas num laço matrimonial.
Hoje os meios de comunicação de massa banalizam fortemente o sexo, reduzindo-o ao simples prazer. Algumas campanhas de prevenção à Aids podem incentivar as relações sexuais cada vez mais precoces e fora do casamento, facilitando assim a disseminação da doença.
Está na hora de se perguntar do "porquê" da sexualidade, qual é a sua finalidade. Uma boa antropologia é necessária para fundamentar racionalmente nosso comportamento. Sexualidade tem a ver com relacionamento e com procriação. O ser humano tem uma vocação espiritual, ele foi criado à imagem e semelhança de Deus.
A melhor maneira de lutar contra a epidemia da Aids é ajudar os jovens e os adultos a descobrirem valores, "a reencontrar a maturidade afetiva e a sexualidade ordenada".
Uma nova educação sexual
"A educação para viver de modo sereno e sério a própria sexualidade, e a preparação para o amor responsável e fiel são aspectos essenciais deste caminho até a plena maturidade pessoal. Ao contrário, uma prevenção que nascesse com inspiração egoísta de considerações incompatíveis com os valores básicos da vida e do amor acabaria por, além de ser ilícita ineficaz, não acatar o problema em sua raiz.
Por isso, a Igreja, segura intérprete da lei de Deus e perita em humanidade, empenha-se não somente em pronunciar uma série de 'nãos' a determinados comportamentos, mas sobretudo, em propor um estilo de vida plenamente humano para a pessoa".
Para uma verdadeira educação sexual, precisa-se destacar o seguinte: Não abafar os desejos, mas orientá-los em direção de uma finalidade: "O desejo é o elemento propulsor que vai entrar na constituição de uma moralidade viva. Portanto, é essencial que todo esforço educativo evite extenuar os desejos; no caso, pouco provável, de isso acontecer, não existiria mais moralidade possível, porque não existiria mais vitalidade...
Portanto, parece-nos essencial não impor proibições sobre o desejo em si, mas sobre aquilo que ele visa; é preciso instruí-lo, não destruí-lo". "A satisfação fácil demais para o desejo diminui o prazer e destrói a sociedade. Ela diminui o prazer porque o desejo não é cultivado... O adolescente (ou adulto) que se apressa a atingir o orgasmo não conhece a felicidade da conquista, a alegria do erotismo, a plenitude, o bem-estar. Facilidades demais para a obtenção do prazer torna o prazer banal, insignificante e, quando as facilidades alcançam o extremo, matam o desejo".
A maturidade sexual só se conquista quando a pessoa torna-se capaz de amar. O nosso modelo de amor é Jesus Cristo que deu sua vida para nós, que não veio para ser servido, mas para servir; que nos libertou de todas as escravidões. Tudo o que escraviza - vícios, pulsões, instintos, desumaniza. Fomos chamados para a liberdade.
Ética ideal e ética real
É evidente que a Igreja Católica Romana propõe um ideal para a pessoa humana e acredita que este possa ser atingido. As fraquezas, as quedas, as limitações devidas a nossa condição humana, a nossa educação e ao ambiente social no qual vivemos, nunca podem justificar um erro ou enfraquecer o ideal moral. Acolhemos o pecador, mas não aceitamos o pecado.
Somos misericordiosos para com aqueles que não conseguem viver um ideal ético, mas não nos conformamos com o erro. "A reta razão não pode admitir que a fragilidade da condição humana, em vez de ser motivo de um maior empenho ético, traduza-se em pretexto para afrouxamentos que abrem caminhos para a degradação moral". Ainda hoje o melhor remédio contra a transmissão do HIV-Aids é a fidelidade matrimonial e a castidade.
A fidelidade, num mundo onde tudo é passageiro, é a coroação do amor mútuo. Jesus nos amou até o fim. Somos chamados à perseverança, vencendo as diferenças, os desentendimentos, os erros. Para a Igreja, a castidade é "a integração correia da sexualidade na pessoa e com isso a unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual.
A sexualidade, na qual se exprime a pertença do homem ao mundo corporal e biológico, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quanto é integrada na relação de pessoa a pessoa, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada do homem e da mulher". A castidade não é a abstinência sexual, mas o bom uso dela em função da sua finalidade, seja no celibato, seja no matrimônio.
Nossas perspectivas
A Pastoral DST/Aids, através de sua coordenação nacional definiu os
seguintes objetivos:
Conscientizar os diversos setores da Igreja, assumindo a Aids,
como dimensão missionária do 3° Milênio;
Ser elo de união e intercâmbio entre agentes de pastoral e
ONGs/Aids ligadas à igreja;
Elaborar subsídios de prevenção educativa, articular ações e orientações unificadas nos trabalhos de assistência;
Articular parcerias com o Estado, em todos os níveis, e com organismos ligados à Igreja:
Criar equipes de Pastoral de DST/Aids em nível regional e diocesano, capacitando os agentes:
Contribuir e acompanhar a formulação de políticas públicas direcionadas ao HIV/Aids.
Conclusão
Sabemos que a relação sexual não representa o único meio para se contrair o vírus da Aids. Existe também o uso indevido de drogas injetáveis através de seringas contaminadas.
A tóxico-dependência facilita a contaminação. O uso de substâncias psicotrópicas leva a mudança de comportamentos e diminui o autocontrole de instintos e pulsões, facilitando comportamentos sexuais não desejáveis. A melhor maneira de se lutar contra o abuso de drogas psicoativas é oferecer aos jovens e aos adultos uma esperança, motivos para viver, emprego, famílias unidas e respeito para o ser humano, especialmente para as mulheres e as crianças.
Isso só será possível se houver mudanças radicais em nível sócio-econômico. O sistema político neoliberal, que provoca cada vez mais desigualdades e favorece o individualismo e o subjetivismo, não vai ser capaz de resolver o problema da Aids. Precisamos dar aos homens e às mulheres de hoje uma nova ética da solidariedade e novos valores espirituais e místicos.
Dom Eugênio Rixen, Bispo de Goiás, Presidente da Pastoral DST/Aids e bispo referencial da CNBB para as questões de HIV/Aids.
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