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Mensagem dos frades da Província
Franciscana
da Imaculada Conceição sobre a crise atual
Por ocasião da Festa de Santa Clara de Assis, comemorada no dia
11 de agosto, os frades da Província da Imaculada Conceição do Brasil
vêm a público manifestar sua perplexidade frente à situação atual,
bem como sua esperança de uma nova sociedade, vencendo o medo e
a decepção.
Santa Clara e São Francisco de Assis formam a fonte da chamada
espiritualidade "francisclariana". Clara também é considerada a
padroeira da televisão. Mais que nunca, torna-se necessário que
a televisão e toda a mídia assuma com clareza seu compromisso com
a verdade e não se deixe levar pela ambição do mercado, à mercê
dos índices de audiência e vendagem. Isso faz lembrar a canção de
Caetano Veloso: "Santa clara, padroeira da televisão, que a televisão
não seja o inferno, interno, ermo, um ver no excesso o eterno quase
nada...Mas tomada pelo que ela é, de poesia" (trecho da canção "Santa
Clara, padroeira da televisão"). Quando a imprensa nos afoga num
"dilúvio" de denúncias, não seria mais construtivo vitalizar caminhos
de solução?
Apresentamos, em primeiro lugar, um breve contexto da crise, seguido
de algumas conclusões. Por fim, apresentamos alguns compromissos
que nos parecem importantes para o momento.
O contexto da crise é complexo e amplo, incluindo vários
níveis, do internacional ao nacional, passando pelo latino-americano.
Potências emergentes forçam a mudança do mapa político mundial e
o Brasil tem papel importante nesse processo.
As estruturas de poder do Brasil facilitam ou até forçam a corrupção.
É como se fosse impossível conciliar vida política e valores éticos,
cargo público e comprometimento com o bem comum. Isso aponta um
desvio fundamental da política. O papa Paulo VI dizia que "a Política
é uma forma elevada de caridade".
Podemos tirar algumas conclusões desta situação.
1ª) A sensibilidade da opinião pública frente à falta
de ética na política deve ser uma atitude permanente.
2ª) Foi um erro deixar unicamente nas mãos do Governo
a execução do projeto de País elaborado nas seculares lutas populares
brasileiras. Como bem lembra Pedro Casaldáliga, foi um erro acentuar
tanto a base parlamentar, em detrimento da base popular.
3ª) O momento se mostra propício para que todas as igrejas
e religiões, talvez a maior força de organização popular, entrarem
em ação e ajudar o país a superar a crise. É muito cômodo crer que
o problema é só da classe política. Afinal, se são eles nossos representantes,
não somos nós os primeiro responsáveis pelo problema e pela solução.
4ª) É hora de uma profunda e radical mudança das estruturas
e da organização do exercício do poder público brasileiro, de tal
forma que ele convirja para a justiça e o bem comum e não para a
corrupção e o interesse de alguns. A partir da espiritualidade francisclariana,
entendemos que "crise" significa limpar, purificar, tendo origem
na palavra crisol, elemento químico purificador do ouro e outros
metais, ou acrisolar, que quer dizer purificar e depurar.
Com a finalidade de repensarmos a política, na inspiração de São
Francisco e Santa Clara, assumimos alguns compromissos que
nos parecem importantes e convidamos a quem queira assumi-los conosco:
A nova visão ecológica do universo nos leva a novas
relações com as criaturas e com o próprio Criador;
A exemplo de Francisco e Clara, a junção do olhar feminino
e masculino nos permite ver o outro Brasil do futuro e de nossas
esperanças que vence o medo e a decepção;
É hora de todas as pessoas de boa vontade, assumindo
suas divergências de ideologia, partido político ou religião reformularem
o grande Projeto Brasil que há dois anos nos uniu e nos ajudou a
vencer o projeto da Elite que domina políticas econômicas sob o
influxo neoliberalista e globalizante;
A esperança indignada tem que vencer o medo e a decepção.
Os diversos tipos de droga (líquida, química, psíquica, espiritual
etc.) e o terrorismo são filhos legítimos do medo e da decepção.
Os caminhos de não-violência-ativa ou firmeza permanente
- representados por Mahtma Gandhi ao libertar a Índia do domínio
inglês; por Francisco e Clara de Assis ao organizar uma Cruzada
não-violenta em 1219; pelos ensinamentos da Bíblia judaico-cristã
e os Evangelhos do Cristo como também uma correta leitura do Alcorão
- ajudarão o povo brasileiro a encontrar seu próprio caminho.
A força religiosa aplicada na transformação social,
juntando as tradições cristãs, as tradições nativas dos diversos
povos e etnias aqui existentes antes da chegada européia e as tradições
afros serão componentes fundamentais deste outro Brasil que queremos.
É a religião a maior força de aglutinação popular no país.
São Paulo, 11 de agosto de 2005
Assinado: Governo Provincial
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