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A EXPERIÊNCIA DE COMUNHÃO
COM O MISTÉRIO DE DEUS EM FRANCISCO DE ASSIS - NO
CORPO DO SENHOR
José Ariovaldo da Silva, ofm
Na mesma linha de encarnação, outro mistério
que estimula Francisco a entrar cada vez mais em comunhão
com o "segredo" de Deus, que é a Dama dos
seus sonhos (Pobreza e Humildade de Jesus Cristo), é
o que ele chama de "corpo do Senhor", e que nós
chamamos hoje de eucaristia. Para Francisco, o corpo do
Senhor, feito pão e feito vinho, é a expressão
sem dúvida mais envolvente do mistério de
Deus como absoluto desapego de poder, dominação,
violência, riqueza... É a expressão
viva mais encantadora e, ao mesmo tempo, mais comprometedora,
deste mistério como total entrega, doação,
gratuidade; sem reservar nada para si.
Pasmem! O Senhor, além de assumir a nossa frágil
condição humana, sobretudo a dos mais pobres,
dos mais miseráveis, dos reprovados, dos condenados,
ele assume a condição humilde de matéria
- pão, vinho - e, desta maneira, se coloca à
disposição dos seres humanos, totalmente.
Sua entrega, assim, feito matéria, é tal que
se deixa "manipular" pelos seres humanos, "submete-se"
(obedece) aos seres humanos, apenas se coloca para servir...,
alimentar. No pão e vinho consagrados (corpo e sangue
do Senhor), Francisco, em sua rigorosa atitude de fé,
podia realmente "ver" de que jeito Deus é.
Como afirma Celso Mário Teixeira: "A eucaristia
é... para Francisco a presença de Jesus Cristo
que continua tomando acessível aos homens a inacessibilidade
do Pai". Em outras palavras, diríamos: A eucaristia
é a presença humilde do Amor divino que ultrapassa
toda medida do humano. "Eis que ele se humilha todos
os dias (Fl 2,8); tal como na hora em que, 'descendo do
seu trono real' (Sb 18,5) para o seio da Virgem, vem diariamente
a nós sob aparência humilde; todos os dias
desce do seio do Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote",
escreve Francisco. Naturalmente, só quem tem puro
o coração, e Francisco é um desses,
é capaz de "ver" esta "loucura"
do Amor de Deus, a saber, que o Cristo é tão
solidário com os seres humanos que, para continuar
em profunda comunhão com eles, se faz aquilo de que
os pobres necessitam para sua sobrevivência, comida.
Francisco, já pelo fim de sua vida, se sente de tal
maneira encantado e envolvido por este mistério do
corpo do Senhor que, enfaticamente, pede a seus irmãos
para manifestarem "toda reverência e toda honra"
que puderem "ao santíssimo corpo e ao santíssimo
sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo". Porque aí
está presente o "segredo" de Deus (Pobreza,
Humildade, Ser Menor) pelo qual, com seus irmãos,
decidiu todo o rumo de sua vida. Por isso, todos os sacerdotes,
ao celebrarem a missa, "ofereçam o verdadeiro
sacrifício do santíssimo corpo e sangue de
Nosso Senhor Jesus Cristo, pessoalmente puros, com disposição
sincera, com reverência e com santa e pura intenção,
jamais levados por qualquer interesse terreno, nem por temor
ou consideração de qualquer pessoa 'como quem
procura agradar aos homens' (Cl 3,22).
Um dos textos mais belos de Francisco, em que se revela
a sua profunda comunhão com o mistério de
Deus na eucaristia, é sem dúvida este:
"Considerai a vossa dignidade, irmãos sacerdotes,
e 'sede santos porque Ele é santo' (Lv 11,44)! E
assim como o Senhor Deus vos honrou acima de todos, por
causa desse mistério, assim vós, mais que
todos, amai-o, reverenciai-o, honrai-o! É uma grande
desgraça e uma lamentável fraqueza se vós,
tendo-o assim presente, ainda vos preocupais com qualquer
outra coisa no mundo inteiro. Pasme o homem todo, estremeça
a terra inteira, rejubile o céu em altas vozes quando,
sobre o altar, estiver nas mãos do sacerdote o Cristo,
Filho de Deus vivo! O grandeza maravilhosa, ó admirável
condescendência! O humildade sublime, ó humilde
sublimidade! O Senhor do universo, Deus e Filho de Deus,
se humilha a ponto de se esconder, para nosso bem, na modesta
aparência de pão. Vede, irmãos, que
humildade a de Deus! Derramai ante Ele os vossos corações
(SI 61,9)! Humilhai-vos para que Ele vos exalte (1 Pd 5,6)!
Portanto, nada de vós retenhais para vós mesmos,
para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá!"
(Cel 23-29)
Realmente, a eucaristia passou a ser o "lugar"
por excelência de comunhão de Francisco com
o Pobre (com "P" maiúsculo!), Jesus Cristo.
De tal maneira que, seguindo as pegadas deste Pobre, ele
faz questão de se relacionar com os sacerdotes, quem
quer que sejam, também os pecadores, como seus senhores.
E explica: "procedo assim porque do mesmo altíssimo
Filho de Deus nada enxergo corporalmente neste mundo senão
o seu santíssimo corpo e sangue, que eles (os sacerdotes)
consagram e somente eles administram aos outros".
Ou, como testemunha Tomás de Celano, falando da profunda
comunhão de Francisco no corpo do Senhor:
"Ardia com o fervor do mais profundo de todo o seu
ser para com o sacramento do Corpo do Senhor, pois ficava
absolutamente estupefato diante de tão amável
condescendência e de tão digna caridade. Achava
que era um desprezo muito grande não assistir pelo
menos a uma missa cada dia, se pudesse. Comungava muitas
vezes, e com tamanha devoção que tornava devotos
também os outros. Como tinha toda reverência
para com aquilo que se deve reverenciar, oferecia o sacrifício
de todos os seus membros e, recebendo o Cordeiro imolado,
imolava o seu espírito com aquele fogo que sempre
ardia no altar de seu coração".
Numa palavra, na comunhão com o corpo assim entregue
do Senhor a serviço da humanidade, Francisco não
tinha outra alternativa senão fazer também
de todo o seu ser uma entrega total a serviço dos
irmãos e irmãs. Pois nisso ele via toda possibilidade
de um mundo realmente fraterno, para o qual todos são
chamados a colaborar. Por isso, na carta que deixou escrito
a todos os governantes dos povos, depois de lembrá-los
que no dia da morte também eles vão ter que
provar a pobreza, desfazendo-se de tudo, Francisco deixa
este conselho: "Por isso aconselho-vos encarecidamente,
meus senhores, que deixeis de lado todos os cuidados e solicitudes
e recebais com amor o santíssimo corpo e o santíssimo
sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ocasião
de sua santa memória". Em outras palavras, comunguem
com tudo o que o corpo do Senhor significa em termos de
radical solidariedade humana. Mas, para tanto, comunguem-no
sacramentalmente, deixando-se questionar por ele e, assim,
questionados, abram espaço para comungar no seu "segredo",
solidarizando-se com os que foram empobrecidos pelas tiranias
da riqueza e do poder.
Extraído do texto de José Ariovaldo da
Silva, ofm: "A experiência de comunhão
com o mistério de Deus em Francisco de Assis",
que faz parte do livro de Alberto da Silva Moreira, "Herança
Franciscana".
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