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Provincia Fraternidades Carisma Sefras SAV Missões Multimidia
       São Paulo, 22/11/2008, 07:57          
 
   
 
Premissa

1. O Capítulo geral extraordinário de 2006 insere-se na ampla perspectiva da celebração dos 800 anos de fundação da Ordem dos Frades Menores, que recordaremos em 2009. Este documento não é uma voz isolada: está pensado para ser lido à luz da celebração da graça das origens, isto é, à luz de um processo que busca realizar nosso carisma diante dos desafios de uma mudança epocal. Nesse contexto, é preciso não esquecer que o Evangelho e nossa Regra e vida , apresentada por Francisco ao Papa Inocêncio III e confirmada por Honório III, foram nossos principais pontos de referência. No documento, estão sempre presentes as reflexões que nos acompanharam até agora , sobretudo o Relatório do Ministro geral ao Capítulo, Com lucidez e audácia, releitura audaz e lúcida do Evangelho e de nossas fontes originárias.

2. Ainda estão fortemente presentes na memória as experiências de fé que partilhamos entre nós nesses dias, como também a peregrinação aos lugares que conservam o fascínio original de nosso carisma (Assis, o Alverne, Greccio e Fontecolombo), a comunhão com os Irmãos e as Irmãs que partilham nosso carisma e o encontro, cheio de alegria, com as Irmãs Clarissas; são experiências que palavra alguma pode reproduzir plenamente.

3. O Senhor nos fala na caminhada não é apenas um título, é o ícone de Emaús que nos acompanhou no decorrer do Capítulo. Aprendemos a exprimir nossos medos com liberdade no contexto da fé partilhada e a questionar nosso estilo de vida. Nosso coração abriu-se ao mistério do outro como lugar de salvação. Acolhemos a surpresa da força interior que brota da Páscoa, que nos faz retornar aos irmãos com renovada confiança. O Senhor nos fala na caminhada é uma recordação, uma experiência, um caminho, um mandato, um convite que continua a ressoar. Emaús é o caminho, antigo e sempre novo, que queremos percorrer com cada um de nossos irmãos.

Mendicantes de sentido
4. Por ocasião de nosso encontro, quando Irmãos de todos os Continentes se reuniram na Porciúncula, a primeira impressão que nos tocou foi a beleza particular de cada povo, toda a sua riqueza e esplendor. Pudemos constatar que, embora com notáveis diferenças e apesar das distâncias geográficas, nossos povos não vivem isolados, mas ligados pelo complexo tecido da interculturalidade, da inter-religiosidade e da intercomunicação imediata que, com outros fatores, caracterizam nossa sociedade globalizada. Graças às contribuições em muitas línguas diferentes dos Irmãos e às infinitas e inesperadas relações que se vivem nesta mudança epocal, reconhecemos o dom da diversidade, a notícia de um Deus sempre fecundo.

5. A alegria diante do progressivo crescimento da proximidade dos países de nosso mundo não pôde, evidentemente, esconder aos nossos olhos a dor que ainda o habita. Não são apenas imagens nem se trata somente de uma humanidade abstrata, mas são rostos e nomes concretos, ligados à nossa vida quotidiana, rostos e nomes queridos, que nunca nos abandonam e nos dão força para orientar-nos em nossa busca. Referimo-nos aos sofrimentos reais que partilhamos com nosso povo: o sofrimento decorrente de um fundamentalismo militante, que impede uma praxe plural da fé e do pensamento; referimo-nos à dor que nasce por vermos populações inteiras ainda em busca do reconhecimento dos direitos fundamentais ao alimento, a um teto, a uma educação e a um trabalho, como também inteiras populações obrigadas a emigrar sem ter a promessa que sua vida realmente há de mudar. Partilhamos nossas reflexões sobre as forças culturais, sociais e políticas que procuram impor-se em nossa vida e tornam difícil não só a fé, mas também a confiança fundamental nos outros. Certamente existe uma impiedosa luta por obter influência e poder sobre o nosso mundo, um desejo de domínio sobre o outro através da força das idéias, da tecnologia, dos intercâmbios econômicos e das armas. Sentimos o peso de uma sociedade globalizada que pretende autogovernar-se sem critérios éticos, como se se tratasse de um deus absoluto. Fere-nos profundamente a impiedosa e progressiva destruição da natureza, casa comum de todos.

6. O contacto direto com a dor e o contra-senso, com a crise e o caos de nosso tempo, levou muitos de nossos contemporâneos a se questionar sobre o sentido da história, da existência, da vida, a questionar a veracidade da esperança, enfim, a interrogar-se novamente sobre tudo. Como Frades menores, não nos sentimos distanciados dessas perguntas , mas, com todos, reconhecemo-nos mendicantes de sentido.

A visita da esperança
7. Nos momentos de grave crise, o povo de Israel fazia a memória daquilo que, com poder, o Deus criador e libertador havia operado em sua história, a fim de encontrar a força necessária para retomar a caminhada com coragem. Como Israel, também nós, Frades menores, movidos por divina inspiração (RnB 2,1; RsC 2,1), voltamos a Assis, altar predileto de nossa memória e de nossas origens, cheios de interrogações, de cansaço acumulado, de incerteza com relação ao futuro da humanidade, da Igreja e da Ordem.

8. Voltando ao menor lugar da Ordem (a Porciúncula), todos nos sentimos comodamente acolhidos pelo abraço fraterno de Francisco, com nossas identidades particulares, com nossas luzes e nossas sombras. Foi ele que nos entregou sua experiência e seus textos fundamentais como livros abertos e ainda não terminados, que vão sendo completados por nossa fidelidade a Deus e ao mundo, “sempre submissos e sujeitos aos pés da santa Igreja” (RB 12,4). Com Francisco, com nosso Ministro geral, nós, Frades, imploramos ao alto e glorioso Deus que ilumine as trevas que obscurecem o coração do mundo e também as trevas do nosso coração; que nos dê uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita (OC 1). Mais uma vez, Francisco nos convidou a viver felizes em meio ao povo desprezado, entre os fracos e os pobres, com os doentes, os leprosos e os que mendigam ao longo do caminho (RnB 9,2; Test 1-2; 1Cel 17). Experimentamos a bênção de Francisco, seu cuidado por nós, semelhante à bênção dada a Frei Leão, seu fiel companheiro de caminhada. O Senhor nos mostrou sua face, segundo o desejo de Francisco (BnL 1). O trecho bíblico dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-36) guiou-nos como um modelo de viagem que queremos empreender pelas diversas estradas de nosso mundo.

9. Pelo retorno às origens e pela partilha do relato de nossas vidas, a Ordem foi visitada pela esperança: não uma esperança qualquer, mas a esperança que se enraíza no Cristo pobre e crucificado (2Cel 105,5) e nos seus representantes, os pobres e os crucificados de nossa terra (Mt 25,31-46). Quando unirmos experiencialmente o Evangelho de Cristo à vida em toda a sua densidade, pouco a pouco, sentiremos que nos libertamos da resignação e também dos realismos fáceis e do pragmatismo superficial, de forma a assumirmos a tensão para o Reino, na fecunda atmosfera do seguimento. O Deus revelado a Francisco, e a nós hoje, não se mostrou indiferente ou distante da dor humana; ao contrário, revelou-se “criador, redentor, consolador e nosso salvador” (PN 1). Ele era, é e será “todo o bem, sumo bem, bem total” (LH 11), alegria e segurança de todo o universo. Essa esperança guia nossa vida no esforço pela justiça, pela paz e pelo bem onde estivermos presentes. Comove-nos o fato de nos reconhecermos como sinais, humildes e simples, da estrela que continua a brilhar em meio à noite dos povos, guiando a todos para a centralidade da vida (Mt 2,1-3).