À luz do dom
“O Senhor me deu...”
(Test 1.4.6.14.39)
A vida antes de mais nada
10. A experiência que vivemos juntos confirmou-nos que a característica própria da caminhada franciscana é partir da vida: a prática é importante, como também o fato de manter-nos a caminho para compreender melhor a própria vocação. A teoria ilumina a vida, mas nunca pode substituí-la.
11. Depois de ouvir o Evangelho, Francisco apressa-se a mudar seu modo de vestir (1Cel 22): ele tem necessidade de pôr em prática a palavra ouvida, ainda que parcial e materialmente. Isso nos ensina que para chegar a uma compreensão autenticamente espiritual, e não só intelectual, é preciso seguir pelo caminho da experiência: proximidade à realidade histórica, escuta atenta da Palavra e sua imediata tradução em vida (Lc 6,46-49). A mesma dinâmica repete-se em São Damião, quando o crucificado o convida a reparar a Igreja (LM II,1); Francisco se põe logo ao trabalho de restaurar capelas abandonadas (LM II,7.8), não porque tenha entendido mal a mensagem, como habitualmente pensamos, mas exatamente porque, para compreender o sentido profundo das palavras a ele dirigidas, tem necessidade de entrar no terreno da experiência, do fazer com os outros. Nas Admoestações, emerge fortemente esta sabedoria do discernimento franciscano: “São vivificados pelo espírito da divina escritura aqueles que não atribuem a seu eu toda letra que conhecem e desejam conhecer, mas, pela palavra e pelo exemplo, restituem-nas ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo o bem” (Ad 7,4). Em primeiro lugar está sempre a vida, a experiência, o contacto humano com a realidade de dor e de esperança de cada pessoa e de cada povo e com toda a criação; somente depois vem a interpretação da vida à luz da fé, numa permanente circularidade. Conseguiremos caminhar juntos nessa direção?
À luz desse princípio do primado da práxis, uma recomendação ressoou várias vezes nesse Capítulo: dar maior força à prática do diálogo e criar outros novos modos concretos, adequados à especificidade de cada cultura e às suas particulares necessidades.
Regra e vida
12. Nesses dias, apareceu com clareza o fato de a específica tradição espiritual e intelectual franciscana, radicada na experiência das primeiras comunidades inseridas nas cidades e nas Universidades, voltar-se para o rumo da ação. Francisco ensina a “desejar ter o Espírito do Senhor e sua santa operação” (RB 10,9). A própria Regra foi constantemente interpretada, prática e teoricamente, não só em relação a Francisco, mas também em relação à experiência viva dos irmãos, da sociedade e da Igreja. Nós, Frades, não temos simplesmente uma Regra, mas uma Regra e vida (RB 1,1). Nossos mestres de Teologia Alexandre de Hales, Boaventura, Pedro João Olivi, Duns Scotus e Guilherme de Ockham entre outros, insistentemente ensinaram que o estudo científico da Palavra de Deus tem como finalidade a transformação da vida e como cume não um elevado nível intelectual, mas um intercâmbio de amor com Deus, com nós mesmos e com nosso próximo, sobretudo com os rejeitados deste mundo. Segundo a tradição franciscana, a teologia não se caracteriza como ciência, mas como sabedoria . Uma sabedoria que faz experimentar o encontro como um instrumento para a transformação do mundo. Conhecemos essa tradição? Nossas instituições a apóiam? Conhecemos os estudos críticos sobre as Fontes franciscanas que foram publicados nos últimos cinqüenta anos?
13. Nesse Capítulo, questionamo-nos sobre a necessidade de recuperar criticamente as grandes tradições filosóficas, teológicas, místicas e artísticas de nosso patrimônio franciscano, como apoio para a nossa missão de anunciar o Evangelho com as palavras e com as obras no coração da cultura contemporânea (cf. CCGG 166,2). Constatamos que sem o conhecimento de nossas fontes – em primeiro lugar dos Escritos de São Francisco – e de nossa tradição, corremos o risco de nos tornarmos fácil presa do fundamentalismo e das tendências emotivas do presente, de perder nossa contribuição específica com interpretações erradas que a tornam funcional a outros “padrões” do pensamento e da ação. Nessa perspectiva, reconhecemos que para atualizar adequadamente nosso patrimônio é necessário não desvinculá-lo dos contextos e da seiva vital do tempo em que se desenvolveu, mas também não do contexto atual.
O dom da fé
14. Para interpretar a vida, não basta a proximidade com a realidade; é preciso olhá-la com olhos de fé, isto é, vivê-la a partir de uma profunda relação com Deus e com sua Palavra, em estreita comunhão com a Igreja (RB 12,4). Como Bernardo, o primeiro companheiro, neste Capítulo também nós novamente pedimos a Francisco: o que devemos fazer? E ele repetiu: vamos para a igreja, tomemos o livro dos Evangelhos e peçamos conselho a Cristo (2Cel 15). Voltemos para o Evangelho e nossa vida terá novamente a poesia, a beleza e o encanto das origens... Libertemos o Evangelho e o Evangelho nos libertará” . A chave hermenêutica para aproximar-nos do Evangelho é exatamente sua força que nos liberta de todas as nossas escravidões.
15. Perguntamo-nos se este necessário retorno ao Evangelho e a seu poder saneador e libertador não está bloqueado, em nossas vidas, pela falta de uma fé (confiança) de fundo, mais horizontal, em nós mesmos e nos outros. O dinamismo da fé nos marca desde o início: a partir do nascimento somos acolhidos por uma mãe, ou por alguém que toma cuidado de nós, a quem nos confiamos, como também outros confiar-se-ão a nós, acolhendo-nos, estimulando-nos, corrigindo-nos, amando-nos. As relações essenciais de nossas vida com o mundo, com Deus e com os irmãos constroem-se com o material oferecido por esta fé primária e fundamental. Quando falamos de fé, falamos, pois, de uma dupla relação: horizontal, entre as pessoas, e vertical, com Deus, em duas dimensões estreitamente interligadas.
16. Durante este Capítulo, tomamos consciência de situações e de conflitos que feriram sobretudo a confiança recíproca entre os seres humanos. Como Frades menores sentimo-nos chamados a reconstruir esta fé primária e fundamental sem a qual é difícil chegar à fé no Deus da vida, ao reconhecimento do outro como irmão. Para sermos instrumentos de reconstrução desse tecido fundamental de confiança recíproca, percebemos a urgência de uma formação permanente e inicial que assuma a estrutura fundamental da pessoa e da personalização da fé . Todavia, estamos convencidos de que quando falamos de fé estamos diante de um dom, de uma ação do Espírito em nós, que, exatamente por isso, supera todo determinismo humano: “a fé não nasce nos corações humanos por meio de controvérsias, mas por obra do Espírito Santo, que distribui seus dons a cada um conforme quer” (CCGG 99).
17. O relato da Samaritana (Jo 4,1-42) apresentou-nos a imagem de uma fé em relação com Deus e com os outros. A mulher cresce em sua caminhada de encontro com a Palavra em direção a uma fé mais profunda, até se tornar anunciadora para os outros. Seu processo de conversão inicia quando Jesus consente que ela, uma estrangeira, uma mulher com a própria história de conflitos e de relações, apresenta a ele o que ela é, o que tem, sua verdade sem fingimentos. Assim Deus se apresenta à humanidade! A partir desse momento a conduz, sempre mais profundamente, para uma fonte que saciará para sempre sua sede. Essa sede saciada agora é sua mensagem.
18. A fé é a porta através da qual o Senhor entra em contacto conosco, cura nossas enfermidades (Lc 5,17-26; 1Pd 1,5-9) e os limites que herdamos, reconcilia-nos e nos mostra o fundamento das coisas esperadas (Hb 11,1) e nos envia. A fé refere-se a tudo o que somos, nossa história, nosso corpo, nossa mente, nossas emoções, de forma que toda a pessoa é guiada para a obediência à Palavra repleta de futuro. A vida na fé é a verdadeira fonte de nossa alegria e de nossa esperança , de nosso seguimento a Jesus Cristo e de nosso testemunho ao mundo.
A lógica do dom
19. Gostaríamos de propor uma maneira sempre nova de observar toda a realidade a partir da fé: o universo origina-se do dom gratuito de Deus. Como Frades, mais do que a lei do preço, do intercâmbio ou do lucro, que se impõem neste nosso tempo, sentimo-nos chamados a transmitir uma lógica do dom. Esta visão já fora concedida a Francisco: “Amemos todos, de todo o coração, com toda a alma, com todo o pensamento, com todo o vigor e fortaleza, com todo o entendimento, com todas as forças, com todo o empenho, com todo o afeto, com todas as entranhas, com todos os desejos e vontades ao Senhor Deus; a ele que nos deu e nos dá a todos nós todo o corpo, toda a alma e toda a vida; a ele que nos criou, nos remiu e somente por sua misericórdia nos salvará; a ele que a nós fez e faz todos os bens” (RnB 23,8). Nada nos pertence, tudo é dom recebido, destinado a ser partilhado e restituído.
20. A visão cristã da Trindade reconhece no próprio Deus a perfeição da lógica do dom: Deus, que é Pai, doa-se eternamente ao Filho no Espírito Santo e o Espírito Santo é eternamente doado pelo Pai e pelo Filho. A unidade da Trindade é uma unidade de amor. Deus é amor, e só amor, pois sua própria vida é um eterno dom de si . Em nossa adesão a Jesus reconhecemos a manifestação histórica do dinamismo do dom. Jesus, o dom por excelência que brota do amor do Pai, deu-se a si mesmo (Gl 1,4; 1Tm 2,6), deu sua vida (Mc 10,45), deu seu corpo no mistério da cruz (Mt 26,26). Em sua vida, Jesus não cessa de doar-nos sua palavra (Jo 17,7.14), o pão da vida (Jo 6,35.51), a paz (Jo 14,27), o Espírito (Jo 3,34) e a vida eterna (Jo 10,28).
21. Especialmente, Jesus nos dá sua mãe (Jo 19,26-27), sua discípula perfeita. Seguindo a lógica do dom, também Maria é constituída “Virgem feita Igreja”: “Ave, Senhora, rainha santa, santa Maria mãe de Deus... escolhida pelo santíssimo Pai, consagrada com seu santíssimo e dileto Filho e com o Espírito Santo Paráclito” (SV 1).
22. Nós mesmos, imagem do Criador, reconhecemo-nos destinatários desse dom de Deus: nós não somos os donos de nossa vida, mas constantemente a recebemos como um dom do alto. Temos a capacidade de doar-nos gratuitamente aos outros mediante um movimento semelhante ao incessante dom de si da parte de Deus. Esta é a experiência celebrada em cada Eucaristia (Ad 1; Ord 28-29): recebemos de Deus o dom de seu Filho, entramos em íntima relação com Ele e somos enviados pelo Espírito ao mundo como prolongamento de seu amor. Como diz a Gaudium et Spes, ninguém “pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesmo” (GS 24). É o Deus uno e trino que nos conduz para fora de nós mesmos para o encontro com o outro, do diferente de nós; mesmo que nosso movimento de saída de nós mesmo seja diferente do movimento de Deus, pois Deus cria do nada com seu dom, enquanto nós só podemos restituir os bens que de Deus temos recebido (cf. CCGG 20,1).
23. Iluminados pela fé num Deus trino, reconhecemos que cada irmão, na diversidade de sua pessoa, é um dom confiado à nossa vida para que entremos numa relação de amor gratuito e desinteressado com ele. O sinal mais evidente da fidelidade ao Senhor será, pois, o amor que nos une uns aos outros (Jo 13,35; Jo 11,36). No Testamento de Sena, Francisco escreve aos Irmãos da Ordem de seu tempo e aos Frades “que hão de vir até o fim do mundo”: “em sinal da memória de minha bênção e de meu testamento, sempre se amem uns aos outros” (TestS 3).
24. Somente se seguirmos as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo, de sua vida, paixão, morte e ressurreição, encontraremos força e lucidez para enfrentar, segundo a lógica do dom, a realidade pessoal, comunitária e social, sempre marcada pelo limite e pelo pecado.
25. No Ofício da Paixão, Francisco faz seus os sentimentos de Cristo que se fez pobre para enriquecer-nos com sua pobreza (OP; 2Fi 5-13; 2Cor 8,9). Somente a partir da adesão a Cristo poderemos dizer-nos um ao outro, como Clara a Inês: “Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos; e... a considero auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável” (3In 7-8).
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