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       São Paulo, 12/02/2012, 22:35          
 
   
 
Fraternidade e Missão à luz do dom

“Em qualquer casa em que entrarem, primeiro digam: Paz a esta casa”
(RB 3,13)

O dom dos irmãos
26.
O fato de nos reconhecermos irmãos nasce da fé num Deus que é pai de todos. A partir dessa fé, poderemos reconhecer o outro e dizer, como Francisco: “o Senhor me deu irmãos” (Test 14). O relacionamento fraterno não nasce primeiramente de nossa boa vontade ou de nossas virtudes, mas do dom de Deus (cf. CCGG 40). Também para nós vale a admoestação de Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21; Mt 12,50; 1Fi 7). Também nossas Fraternidades nascem do reconhecimento de Deus como nosso único Pai, que nos chama a ser irmãos. Cada Fraternidade, na harmonia das individualidades, é uma boa nova do laço familiar que une todos os seres criados à luz de Cristo.
27. Essa verdade, que nos foi revelada, tem inevitavelmente conseqüências práticas: o dom do irmão constitui, ao mesmo tempo, uma tarefa em nível de discernimento vocacional, de educação para a fé e de nosso estilo de estabelecer relações e de servir na Ordem, na Igreja e no mundo. Temos uma fé que nos consente ver em cada rosto uma exigência de fraternidade? Celebramos com alegria o dom de cada irmão? Vivemos a construção da fraternidade como um de nossos compromissos fundamentais? Aprofundar essas intuições abre um bom caminho para o futuro.

Irmãos menores de cada criatura
28.
Não basta dizer que somos frades, pois somos Frades menores (RB 1,1; RnB 6,3). A minoridade constitui a forma concreta que qualifica nosso relacionamento fraterno e a prática de nossos ministérios, sobretudo o ministério ordenado. Alguns exercem o próprio ministério como ministros ordenados, outros como leigos, mas todos somos Frades menores. “Por isso, na caridade que é Deus – implora nosso irmão Francisco –, suplico a todos os meus irmãos que pregam, que rezam e que trabalham, tanto aos clérigos quanto aos leigos, que se esforcem por humilhar-se em tudo” (RnB 17,5). O adjetivo “menor”, que Francisco tira do Evangelho (Mt 20,25-27; Lc 22,26; citados na RnB 5,9-12), é um adjetivo de relação: somos menores em relação a alguém. A minoridade é uma aposta pessoal, para que nada, em nós, dificulte a epifania do outro. É nosso modo de “tirarmos as sandálias” diante do mistério do outro no qual o Mistério tem sua epifania (cf. Ex 3,5).
29. O modelo da minoridade é Cristo, que “não se apegou à sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo...” (Fl 2,6-11). Essa identidade de menores em relação a cada criatura nos coloca diante de uma permanente exigência moral que tem raízes muito antigas: “devem os irmãos rever-se espiritual e diligentemente e honrar-se mutuamente sem murmuração” (RnB 7,15). E Francisco não teme insistir: “E sejam modestos, mostrando toda mansidão para com todos os homens; não julguem, não condenem; e como diz o Senhor, não considerem os mínimos pecados dos outros, meditem muito mais sobre os próprios na amargura de sua alma” (RnB 11,9-12). Nossa tradição é firme e abundante em proteger a dignidade do outro a partir de uma minoridade pessoalmente assumida, como caminho de salvação comunitária.
30. O relacionamento fraterno caracteriza não só as relações entre os Frades, mas, de forma mais ampla, também as relações com cada criatura humana. Sentimo-nos e realmente somos Irmãos menores de cada homem e mulher, seguindo o estilo com que Francisco envia seus Frades pelo mundo: “não litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus” (RnB 16,6). Esse tipo de relacionamento, caracterizado pela minoridade para com toda criatura humana, tem conseqüências para nossa missão: entre os leigos, no relacionamento com a mulher, em nosso modo de viver na Igreja, no necessário diálogo inter-religioso, em nossa relação com a criação, enfim, em toda a nossa missão como menores entre os menores da terra (cf. CCGG 97). Temos a lucidez e a audácia necessárias para viver a boa nova da minoridade?

O cuidado pela vida fraterna
31.
A troca de experiências convenceu-nos de que nossa Fraternidade necessita de uma atenção especial de nossa parte. É realmente uma prioridade para nossa vida, sobretudo hoje, num mundo ferido pela fragmentação e pelas divisões. As divisões não são estranhas à nossa própria vida fraterna e, por isso, o cuidado pela Fraternidade, muitas vezes, tem necessidade de encarnar-se em gestos de perdão recíproco e em caminhos de comunhão (RnB 5,7-8; 20; RB 10). Em quase todos os nossos encontros repetimos que devemos prestar mais atenção à maturidade humana dos Irmãos, pois muitos problemas nas relações fraternas estão ligados à nossa fragilidade humana.
32. Insistiu-se especialmente na necessidade de ajudar os Guardiães e os Ministros no serviço de animação da Fraternidade. O Capítulo local já é um bom instrumento em nosso poder para partilhar a fé e a fraternidade. Cresce a necessidade de encontrarmos novos momentos e formas diferentes de serviço recíproco, para partilhar e celebrar a vida em todas as suas dimensões. A vida em fraternidade exige um acompanhamento e uma atenção materna, não só na formação inicial, mas durante toda a vida.

A vida como missão
33.
Hoje, nossa opção fundamental consiste em viver o Evangelho como menores entre os menores, mas com a consciência de estarmos imersos numa mudança epocal, que apresenta novos paradigmas e categorias, que implicam uma séria revisão de nossa missão e a coragem de iniciar caminhos inéditos de presença e de testemunho. Percebemos a necessidade de retornar ao centro de nossa missão e de tomar decisões de mudança que nos ajudem a abandonar algumas situações sociais e eclesiais para assumir com maior decisão os lugares de fronteira e de marginalidade, como peculiaridade de nossa identidade franciscana. Tanto na sociedade como na Igreja somos chamados a ser menores.
34. O relatório do Ministro geral insistiu na idéia de elaborar um projeto de evangelização especificamente franciscano, não só pessoalmente, mas a partir da Fraternidade, pois a vida de fé em comunidade (na oração, em fraternidade e como menores) é nosso primeiro testemunho para o mundo . Reconhecemos que toda a Ordem deve sentir-se envolvida com especial solicitude no compromisso de reforçar e apoiar os projetos missionários que estão nascendo, de forma a garantir seu futuro .
35. Muitas das novas orientações para a missão já foram apresentadas no documento Encher a terra com o Evangelho de Cristo (1996), no documento final do último Capítulo geral, O Senhor te dê a paz (2003), e no subsídio Um mundo novo é possível (2004), preparado pelo Serviço de JPIC, no qual se fala de conversão ecológica e justiça ambiental, de não-violência ativa, de atenção aos refugiados, aos sem-terra, aos migrantes, às minorias étnicas, além de um uso ético das fontes financeiras, sempre em chave franciscana. Hoje mais do que nunca, os novos desafios nos colocam diante da necessidade de um discernimento permanente e de uma constante avaliação de nossa vida e de nossas opções práticas, no seio da nossa Fraternidade e no diálogo constante com os leigos.

Diálogo e aculturação
36.
Hoje, a missão assume o aspecto de diálogo . A atitude dialogante e a prática do diálogo expressam-se, sobretudo, no seio de nossa vida fraterna: não poderemos falar com o mundo se não formos capazes de estabelecer um diálogo entre nós, à luz da verdade e da fé, e se não formos capazes de dialogar intimamente com o Deus que se revela. Nesse Capítulo, falamos de quatro formas de encarnar o diálogo: a presença nos ambientes de fronteira e de conflito; a intervenção nos novos areópagos; a atividade intelectual e cultural; a troca de experiências religiosas. Desde sempre, o franciscano é alguém que atravessa as fronteiras, pelo desejo de fraternidade que leva a reconhecer a todos como filhos do mesmo Pai. Parece-nos útil voltar ao Espírito de Assis e ao documento do Capítulo geral de 2003, O Senhor te dê a paz , que apresentam caminhos concretos que podem abrir-nos ao futuro: o diálogo como caminho para a paz, a itinerância como irmã da paz e a santidade em fraternidade.
37. Francisco deixou-nos um sinal de relacionamento que hoje assumiu uma atualidade impensada: seu diálogo com o Sultão, exatamente num contexto de grave tensão como o nosso. Francisco estava motivado, sobretudo, pela fé em Deus, mas, ao mesmo tempo, manifesta também uma notável confiança humana e uma atitude de escuta diante do Sultão (1Cel 57; LM 9,7-9). Sem negar as reais dificuldades, por vezes realmente graves, que qualquer diálogo comporta, como Francisco, devemos agir de forma a não nos deixar prender pelas barreiras criadas pela ideologia dominante. A presença simples e perseverante dos irmãos em regiões do mundo onde as dificuldades são realmente tão extremas que colocam em perigo qualquer liberdade é um sinal profundamente apreciado por todos. Peçamos ao Senhor a força para atravessar as fronteiras a fim de ser, com simplicidade e liberdade, um farol de esperança, uma oferta generosa de fé e comunhão.
38. Por um lado, a missão da Ordem é sempre carismática e, portanto, plural e diferente, pois nasce do dom próprio a cada irmão, revestido de força pelo alto e pelas diferentes realidades e contextos com suas características próprias. A Fraternidade perfeita, segundo Francisco e também para nós hoje, é a que acolhe em si os dons de cada irmão e os põe a serviço do Reino (1EP 85). Essa diversidade nos coloca diante da necessidade de compreender, assumir e praticar os princípios da aculturação e da interculturalidade. Por outro lado, nossa missão é também uniforme, no sentido que se inspira no exemplo de Cristo, que se fez pobre por nós, e em sua radical opção pelos pobres e excluídos. O reconhecimento dessa unidade nos ajuda a tomar consciência da necessidade de fundamentar nossa vida sobre o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, em pobreza, obediência e castidade (RB 1,1). Essa dupla característica manter-nos-á sempre numa sadia tensão evangélica, propícia ao seguimento. Mais uma vez voltamos à centralidade da experiência de Deus, em Cristo Jesus e graças à ação do Espírito, como caminho para uma autêntica transformação de nossa vida e missão.

A metodologia de Emaús

Ter o Espírito do Senhor e sua santa operação
(RB 10,8)

39. A vida, antes de mais nada: mas a vida descoberta através da qualidade de nosso seguimento de Cristo, no intercâmbio que fazemos entre nós e com todas as pessoas com as quais trabalhamos. Esse é o caminho e o método que nos conduzirá ao futuro.
40. Constatamos também que desde as nossas origens, desde o início da caminhada comum, Francisco e os Irmãos descobriram a presença de Cristo Ressuscitado através da prática de uma metodologia de oração e de encontro. Itinerantes que se apoiavam não só nos muros do mosteiro ou no horário para sentir-se unidos, os Frades entravam num “espaço de obediência” (RB 2,11; RnB 5,16), permanecendo “submissos a toda humana criatura” (RnB 16,6; SV 16; Test 19). Criaram um espaço comum, partilhando o que acontecia “ao longo da caminhada”. Esse sacrum commercium de fé e de reflexão sobre o Evangelho, esse modo de viver juntos suas vidas, era parte integrante da identidade dos primeiros Frades.
41. Celano narra que também depois da aprovação da Forma vitae por parte de Inocêncio III, surgiam muitas perguntas entre os Frades: “Enquanto caminhavam, conversavam uns com os outros sobre todos os bens que o clementíssimo Deus lhes havia concedido; como foram simpaticamente recebidos pelo Vigário de Cristo, o senhor e pai de todo o povo cristão; como poderiam cumprir as admoestações e preceitos dele; como poderiam sinceramente observar e indelevelmente guardar a regra que receberam; como caminhariam em toda santidade e na Religião diante do Altíssimo; enfim, como a vida e costumes deles, pelo incremento das santas virtudes, serviriam de exemplo para o próximo” (1Cel 34, 3-7).
42. A Regra e vida fez que a dinâmica do questionamento e do discernimento fraterno se tornassem centrais no processo de crescimento institucional e de conversão pessoal e fraterna: “e onde quer que estejam e se encontrarem os irmãos, mostrem-se afáveis em si. E, com confiança, um manifeste ao outro suas necessidades...” (RB 6,7-8).
43. A história dos oitocentos anos de nossa Regra e sua interação com o Testamento e com a interpretação da Igreja mostram que a graça de nossas origens nos impõe um imperativo metodológico: somente estaremos em condições de descobrir a presença do Senhor em nosso meio como caminho, verdade e vida (Jo 14,5-6; Ad 1,1) quando, a partir da fé, conseguirmos dar ouvidos aos que vivem ao nosso redor e quando conseguirmos expressar o que temos por dentro.
44. Neste momento de nossa história, quando recordamos a graça das origens no meio das radicais transformações do nosso mundo, compreendemos que o desafio que temos pela frente é o de ir ao essencial: conseguir partilhar num nível mais profundamente humano e cristão. O que devemos pôr em prática em todas as nossas Províncias, Conferências e também em nível de Ordem é a mesma metodologia da narração de Emaús: os discípulos, que iniciam a caminhada como mendicantes de sentido, rompem o silêncio para abrir o diálogo. Aprendem a interpretar a própria vida e as próprias experiências a partir das Escrituras, enquanto o Senhor ilumina seu coração. Fazem uma parada na caminhada para pedir a Jesus que permaneça com eles. Em sua misericórdia, Ele entra em seu “espaço vital” e permanece com eles. O que acontece depois é pura comunhão fraterna: “Enquanto estava com eles à mesa, tomou o pão, rezou a bênção, partiu-o e lhes deu. Então, abriram-se os olhos deles e o reconheceram” (Lc 24,30-31). A seguir, voltam para seus companheiros e fazem a experiência da partilha, primeiro através da escuta atenta e, depois, narrando a vitória da vida sobre a morte, definitivamente manifestada na ressurreição de Cristo.
45. Assim delineada, a caminhada é simples e essencial, como todas as coisas importantes: reunir-se; falar daquilo que nos aconteceu; partilhar o Evangelho, reler a Regra; orar e louvar a Deus “por todos os seus dons”; celebrar a comunhão fraterna; voltar aos Frades de nossas Fraternidades, aos nossos irmãos e irmãs do mundo inteiro com a boa nova que transformou nossas vidas.
46. Este documento permanece aberto a todos os Irmãos e a todos que partilham o carisma ou a utopia franciscana. Gostaríamos que fosse um instrumento na caminhada de reconhecimento e de celebração da graça de nossas origens, o evento que polarizará nossa reflexão nos próximos três anos . Tendo presente a riqueza de nossa diversidade, reconhecemos que haverá formas diferentes de continuar essas reflexões sobre nossa identidades, de programar iniciativas no campo da missão e, sobretudo, de descobrir novas formas práticas de partilhar a fé e o discernimento. Acrescentamos, por fim, orientações que têm a finalidade de iluminar a caminhada de busca para uma concretização histórica de nosso carisma.
47. Estimulamos nossos Irmãos a acolher este documento e a lê-lo como o relato de Emaús, que nós mesmos vivemos durante esta Capítulo; talvez possa ajudar também a vocês a abrir uma estrada para o futuro. Juntos continuaremos a nos perguntar: “O que o Senhor quer de nós?”

Vede, irmãos a humildade de Deus
e derramai diante dele os vossos corações...
Nada de vós retenhais para vós,
a fim de que totalmente vos receba aquele que totalmente se vos oferece.

(Ord 28-29)