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       São Paulo, 20/11/2008, 06:47          
 









12/12/2006

Por Moacir Beggo

São Pauo (SP) - Depois de sobreviver à guerra civil angolana e encontrar uma linha de formação mais próxima da realidade dos jovens angolanos que se apresentavam à Missão de Angola pedindo ingresso na Ordem dos Frades Menores, o carioca Frei Samuel  Ferreira de Lima, de 39 anos, está de volta ao Brasil e pronto para assumir um novo desafio em sua vida: ser guardião da Fraternidade São José e Seminário Frei Galvão, a casa de formação da Província da Imaculada, onde se faz a experiência de um ano de Postulantado.
Segundo Frei Samuel, trata-se de um desafio para ele porque quando foi ordenado, em 27 de janeiro de 1996, no mesmo ano foi enviado como missionário para Angola. Toda a sua experiência de vida religiosa e sacerdotal se formou no contexto da Igreja africana, especialmente na Fraternidade de Malange, onde era o mestre dos aspirantes. Essa experiência, contudo, foi tão profunda e enriquecedora para ele que, agora, mesmo tendo de conhecer “uma nova realidade”,  está preparado, pois conseguiu se “diplomar” num curso que nenhuma universidade possui: o da vida.         
Nesta entrevista, Frei Samuel avalia uma década como missionário, fala da situação de Angola no pós-guerra, do trabalho na formação dos jovens angolanos e da Missão dos Franciscanos neste país-irmão.

Site Franciscanos - Como foi chegar em meio à guerra na Missão de Angola?
Frei Samuel –Em janeiro de 1996, fui ordenado sacerdote e, em junho, foi transferido para a Missão de Angola, onde cheguei no dia 28. Fui para lá com a imagem da nossa Província: fraternidades grandes e convivência com muitas pessoas. Mas ao chegar  num país saindo da guerra - em 96 houve um momento de paz - fui morar na hospedaria das irmãs clarissas. Isso, no início, foi difícil porque fui pensando que iríamos morar numa casa nossa. De repente, era hóspede e dependente. O trabalho, quando a gente chegou na capital, era em função das duas fraternidades que estavam no Interior do país: Malange e Kibala. A gente corria atrás de documentos, alimentos, enfim, das necessidades básicas que tínhamos. Éramos a base de apoio – eu e o Frei Dílson (Fr. Dílson Adão Geremia). Depois, aos poucos, fomos nos envolvendo com a comunidade: celebrava, visitava os doentes e me chamaram para dar aulas no seminário diocesano. E ali também houve a integração com a família franciscana, através das Irmãs Catequistas, Missionárias de Maria, Franciscanas de São José. Mas não foi uma adaptação fácil. Afinal, você sai de uma realidade de paz, de tranqüilidade familiar, onde as comunidades te acolhem e chega num país como estrangeiro, numa realidade conflitiva, de medo, de suspeita e de intransigência. O comunismo era muito forte neste tempo. Para você fazer uma viagem, tinha passar por muitos controles. A gente nunca sabia se chegaria ou se voltaria. Então, criava-se dentro de você uma insegurança muito grande. E essa insegurança nos levou à experiência com Deus, porque é Deus que vai te dar forças, dar garantias e dar possibilidades de enfrentar todas as coisas. Não são os lugares, as pessoas que vão te dar sustentação. É Deus. Tem que ser por Deus! Isso nos fez crescer na experiência do Crucificado, no sofrimento. A gente via as pessoas que comiam uma vez por dia, que lutavam todo dia e estavam sempre alegres. Querendo ou não, a gente vai bebendo dessa fonte aos poucos.

Site Franciscanos - Quando foi a transferência para Malange?
Frei Samuel –Depois de um ano, fui transferido como formador do Aspirantado. E foi outro baque. Ser formador no Brasil já é difícil. Ser formador em outra realidade, em outra cultura, é muito mais ainda. Nos seis primeiros meses de trabalho, fiquei com estafa. Não conseguia levantar da cama de tão desgastado que estava, porque não conseguia compreender o modo de lidar com eles. Muitas vezes, propunha as coisas e eles faziam tudo ao contrário. Isso causava um desgaste muito grande. Lá é assim: você programa o dia, mas as coisas vão para além daquilo. É um que chega para você levar ao hospital, outro que tem outra situação, é uma coisa que quebrou e que você precisa ajudar. Tudo acontece independente daquilo que você planejou. Em 98, estourou novamente a guerra. A gente ficou cercado em meio àquela tensão, pois queriam raptar os formandos. Veja bem: as famílias confiaram o filho deles à gente, dando aquela responsabilidade de salvaguardar a vida e a integridade deles. Por isso, enfrentava a polícia e discutia com a tropa. Depois, em Malange, não havia bens de consumo e uma vez por mês tinha de viajar à capital para comprá-los. Então, era mais um desgaste. Vai e não-vai;  chega e não-chega. No caminho, pediam mil documentos. Então, só agüentava as pressões trabalhando a interioridade. Lembro-me de Frei Hilário que foi missionário e dizia: “Meu filho, na vida, tudo é por amor de Deus”. Então, a gente vai entendendo que tem de colocar Deus em tudo, para você dar sentido à todas as dificuldades, senão a gente sucumbe. Começa a entrar em pânico, depressão e desespero. Para você levar as coisas na esportiva, com serenidade, você precisa trabalhar muito a espiritualidade. Tem mesmo que fazer a experiência franciscana do Crucificado, da Paixão, da Perfeita Alegria, porque você planeja as coisas e elas não saem como você quer. Eu era uma pessoa muito agitada, mas pouco a pouco fui aprendendo a ser paciente. Não adianta ser nervoso, não adianta querer tudo rápido, porque a vida não é assim. Ou você se dobra ou você quebra. É como numa tempestade: uma vara de bambu se inclina totalmente e permanece inteira, mas uma árvore rígida se parte. Então, a gente vai aprendendo a ser maleável e a entendê-los.  Eles têm muita dificuldade de confiar devido ao processo de colonização, onde o estrangeiro só veio para dominá-los. Eu sempre dizia para eles. Por mais que a gente esteja junto, sei que vocês têm dificuldade de confiar. Porque somos diferentes, estrangeiros, com outra mentalidade, outro jeito e outros parâmetros. Temos que ser mais compreensivos com eles do que eles conosco, porque tivemos mais possibilidades. Aos poucos, fui aprendendo que a gente tem de dialogar muito, principalmente para entender e fazê-los se envolverem com o nosso trabalho. A conquista é pouco a pouco e de uma maneira familiar. Na cultura deles, o mais velho é o pai, é o irmão. Então, você tem que criar essa relação, onde realmente é o pai que se preocupa e está sempre junto. A formação é personalizada. Eu procurava visitar as famílias e conhecer suas realidades. Por que se tem muita inveja e egoísmo? Por causa dos conflitos tribais, por causa da realidade que viveram e vivem. Veja só, numa família onde predomina a poligamia, se o marido tem cinco ou seis mulheres, querendo ou não vai haver competição para conquistar o marido. Se essas mulheres têm cada uma, três ou quatro filhos, vai haver competição entre eles para atrair a atenção do pai. Então, vai se gerando uma cultura da inveja, da disputa, da rivalidade, que não é um desejo deles, mas está dentro de um contexto. Por exemplo, lá não se pode fazer um elogio em público. Aqui, no Brasil, quando se faz um elogio é um incentivo para outros: “olha, ele está melhorando naquilo, então vamos copiar o que ele tem de melhor”. Lá não, se eu elogiar um formando, os outros vão fazer de tudo para destruí-lo. Aconteceu várias vezes de o melhor se tornar o pior para suportar a pressão que outros faziam.

Continuação