
Site Franciscanos - O Sr. é da primeira turma do Seminário de Rio Negro?
Frei Elzeário - Eu entrei em 1923 e já havia turmas antes de mim. Eu saí em 1930, quando fiz o Noviciado. Frei Heliodoro, Frei Apolinário, Frei Alexandre Wiesmann fizeram o Noviciado antes. Lá, em Rio Negro, tinha três divisões de alunos: os médios, os pequenos e os grandes. E eles não podiam se comunicar.
Site Franciscanos - Viviam todos separados?
Frei Elzeário - Sim. Só se encontravam em dia de festa. E durante três dias da semana tínhamos de falar alemão e os outros falávamos português. Frei Bernardino Bortolotti, coitado, depois foi guardião em Lages, sofreu porque foi nosso prefeito. Era brasileiro e sentia como nós ao se sujeitar a isso tudo e, principalmente, quando tinha de castigar aqueles que eram surpreendidos falando a língua que era proibida naquele dia. O castigo era escrever 100 vezes "eu tenho de falar alemão" - "ich muss deutsch sprechen". Isso machucava muito as pessoas.
Depois tive como professores Carlos Eduardo Saboia Bandeira de Melo, que depois ficou bispo de Palmas, pessoa muito boa. Frei Leopoldo Pires Martins, também muito bom. Então entraram os brasileiros, pouco a pouco, e as coisas melhoraram. Frei João José Pereira de Castro, um grande biblista de Petrópolis, também foi professor nosso em Rio Negro naquela época. Frei Damião Berger, depois foi o primeiro doutor que a Província teve, ele estudou na Universidade de Friburgo, na Alemanha e se especializou em Letras Clássicas, especialmente o grego. Ele tinha uma biblioteca grega completa. Depois que faleceu em Ipanema, parece-me que esses livros foram enviados para alguma casa de formação. Frei Damião era um sujeito muito inteligente.
A nossa Província tem uma história gloriosa. Os livros estão aí para mostrar isso. Frei Basílio Röwer era assim bastante quieto, mas ele andou se metendo nos estudos de nossos velhos conventos antes da reforma.
Site Franciscanos - O sr. conheceu Frei Basílio?
Frei Elzeário - Conheci no Rio de Janeiro junto com Frei Pedro Sinzig. Os dois eram historiadores e músicos. Fizeram uma grande coleção chamada "Cecília", que foi assim o germe de todo o movimento litúrgico e musical e depois a Editora Vozes levou adiante. Era o único livro de cantigas existentes nas Igrejas de todo o país. Esse "Noite Feliz" como nós cantamos, é tradução de Frei Pedro, porque houve tentativas durante anos de mudar a letra. Mas não pegou. Essa tradução de Frei Pedro é a única aceita hoje no Brasil todo.
Site Franciscanos - Nos seu quase um século de vida, gostaríamos que destacasse um momento marcante, valioso, para as futuras gerações de frades?
Frei Elzeário - Na minha vida de padre, longa que seja, fiquei admirando muito os movimentos dentro da Província que é o que interessa. Mais modernamente, o mais empolgante é o movimento do Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade). É uma coisa para mim simplesmente espantosa. Espantosa pelo desdobramento que o Sefras tem. É um leque enorme aberto para todas as direções. Como é que os frades conseguem arrumar tanta gente? Eles próprios sacrificando-se. É uma coisa empolgante e comovente. É uma honra para a nossa Província o Sefras. Para mim é o movimento mais importante, que está acima de qualquer faculdade e de qualquer doutorado. É uma coisa franciscana 100%. Está onde está o povo está. Depois do Sefras é a obra do Frei Hans, a Fazenda da Esperança. Ela é muito destacada porque é uma obra que hoje tem fama internacional. Eu não sei como é que ele conseguiu isso. Acho incrível. Até na Alemanha ele tem filial! E aquela visita do Papa que fazia questão de conhecer o trabalho de Frei Hans. Quando o Papa estava para visitar o Brasil e Frei Hans insistiu para visitar a obra, o Papa disse "ya".
Site Franciscanos - O que o Sr. diria para os novos frades para chegar à sua fidelidade como religioso franciscano. O que acha importante para chegar a isso?
Frei Elzeário - Em primeiro lugar a oração. A oração é o fundamento de qualquer vida. Não só de qualquer cristão, mas também de qualquer padre, religioso franciscano.
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