
NA FÉ, A FONTE DA JUVENTUDE
O vigor físico e intelectual
RCV: De onde vem tanto vigor e motivação para continuar celebrando missas aos 92 anos de idade?
Frei Elzeário: Grande parte vem da compleição física da família, como já apontei de início. Sempre gostei de aliar meus pendores de escritor à vida de padre entre o povo. Pedra que rola não cria limo. Aqui não se trata apenas de continuar celebrando a santa missa e de pregar ao povo – missão fundamental de um padre. Em minha movimentação toda de padre, que também lê muito, existe, além da resistência física, a resistência psíquica a condições adversas, que em minha vida nunca foram poucas. Com exceção das segundas-feiras, eu celebro missa todo dia. É o grande Encontro. E aí, meia palavra basta. É um não merecido privilégio, porque sou um padre pecador.
O amor à Gaspar e sua história
RCV: O Sr. está escrevendo um livro de resgate do catolicismo em nosso município. Como surgiu essa idéia?
Frei Elzeário: O “resgate” consiste em tirar do mofo uma história heróica, enterrada em livros de crônicas bastante antigas, manuscritas em alemão de alfabeto gótico ao menos em suas primeiras 216 páginas (até 1934), quando veio ordem para que os freis alemães escrevessem sua crônica em português. Eu trago esta História da Igreja Católica em Gaspar até o sesquicentenário da criação da paróquia (2000/2001). É uma grande história. Para contá-la toda, basta saber alemão, latim e... português. Motiva-me o amor por Gaspar. Daí a necessidade, também, de corrigirmos alguns erros que, com relação à história da paróquia, foram acolhidos na mídia escrita de Gaspar e de Blumenau.
A fé e a solidariedade do povo gasparense
RCV: Costuma-se dizer que o povo gasparense é solidário. O sr. também acha?
Frei Elzeário: Todas as causas do bem aqui sempre encontraram eco muito positivo. Aliás, em Gaspar é bem fácil conquistar amizades. É um povo, na sua maioria, sociável e muito comunicativo. Vejo isto até nas ruas. Esta índole tem sua raiz na própria origem da comunidade. Há uns 165 anos, quando na margem esquerda se esboçava a primeira pequena comunidade de imigrantes, eles precisavam viver totalmente unidos, solidários em tudo, a fim de enfrentarem juntos os desafios da natureza bravia e seus problemas domésticos na pátria nova. Há entre nós muitos descendentes daquelas famílias unidos, e que puxam a seus antepassados na mesma solidária fé e união, fontes de sua alegria.
A fé e as mudanças
RCV: O sr. acha que a Igreja mudou muito nos últimos 70 anos, ou foi a religiosidade das pessoas que passou por um período de readaptação?
Frei Elzeário: Em tempo de 70 anos, qualquer sociedade precisa adaptar-se aos novos tempos. Em termos de religião, pode haver mudança de moldura, mas sem que a Fé sofra abalos. Sobre temas como religião e Igreja hoje, qualquer engraxate pode ter opinião. Há uma grande tensão dentro da Igreja. Se a técnica derrubou tanta fronteira, abrindo o mundo à “globalização”, palavra hoje usada a torto e a direito, essa derrubada chegou até as paredes da Igreja, com grande ameaça aos valores da Fé, cuja defesa constitui primordialmente missão de toda doutrina cristã, se quiser continuar cristã. O psicólogo padre Vicente de Melo escreve: “Se a tensão é constante, o dispêndio de energia será enorme, o que vai desestabilizando-nos cada vez mais.” Grande parte dos nossos católicos está dançando aos ventos do tempo. As “facilitações” estão querendo morder a base, porque a Igreja de Cristo não é “fácil”, e recebeu dele as promessas da eternidade. “As nuvens podem esconder uma estrela. Mas as nuvens passam, e a estrela fica”. Francisco de Assis, Felipe Néri, Teresa de Calcutá, irmã Dulce, Madre Paulina fizeram a Igreja de Cristo acontecer efetivamente, sem panfletagem e muito antes da nossa “theologyfiction”. A Igreja dos santos é que vai sobreviver.
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