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O que quer dizer para nós, hoje, que Francisco é
o ponto de referência, e, sobretudo, como podemos nós,
filhos de Francisco, sermos ainda, onde quer que vivamos, autênticos
testemunhos de paz? O que tornamos visível de
sua fascinante aventura humana e evangélica? Providencialmente,
a lembrança do 20o aniversário da iniciativa audaz
e profética de João Paulo II, coincide, como assinalou
Bento XVI, na sua Mensagem pelo 20º aniversário da iniciativa
de oração pela paz, com a celebração
que se realiza em nossa Fraternidade, do 8º Centenário
da conversão de Francisco, provocada pelo diálogo
com o Crucifixo de São Damião: Senhor, que queres
que eu faça? e Vai, Francisco, e repara a minha casa.
Descoberto o sentido das palavras do Crucifixo, o Poverello se transforma
em promotor da paz com cartas circulares e particulares, com o anúncio
do Reino de Deus, e o dom divino da paz (cf. 1Cel 10), tornando-se
assim o anjo da verdadeira paz (LM. Prólogo 1)
Para entender o porquê e como nós, franciscanos, devemos
ser sentinelas dóceis e valentes da verdadeira paz,
fundada na justiça e no perdão, na verdade e na misericórdia
(João Paulo II, Discurso de Assis, 24 de janeiro de 2002),
devemos fixar o olhar no mistério da cruz, árvore
da salvação banhada no sangue redentor de Cristo
(cf. também Deus caritas est, 12). Sim, o fascínio
de Francisco surge de seu deixar-se transformar pela lógica
da cruz, ao ponto de aprender uma nova linguagem, aquela
do amor, do perdão e do bem.
2006 é para nossa Fraternidade o ano da conversão,
provocada pela contemplação do Crucifixo de São
Damião. Permito-me, então, sugerir-lhes um itinerário
concreto de conversão, para apostar no amor, no valor da
fraternidade, aos quais todas as pessoas são chamadas,
e do quais as criaturas inanimadas - do irmão sol
à irmã lua - de alguma maneira participam
(Bento XVI, Mensagem...). Trata-se de viver e promover, dentro de
nossas Fraternidades, nas relações com as pessoas
que o Senhor coloca em nosso caminho, os valores do Decálogo
de Assis, enviado por João Paulo II aos chefes de Estado
e de Governo, fruto da excepcional jornada de oração
vivida em Assis no dia 24 de janeiro de 2002 (Acta Ordinis, I, 2002,
6-7), tendo sempre ante nossos olhos o testemunho exemplar de Francisco
de Assis, que nos exorta a sermos pacíficos e sóbrios,
mansos e humildes, nos recorda nossa vocação:
curar as feridas, enfaixar as fraturas, buscar os perdidos,
e nos convida a nos dirigirmos ao Altíssimo, glorioso
Deus, para que nos conceda a capacidade de discernir e de
fazer sempre a sua vontade.
Roma, 8 de setembro de 2006, Nascimento da Santa Virgem
Fr. José Rodríguez Carballo, ofm
Ministro Geral
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Foi um momento de geral esperança de paz, que levou muitos
a sonhar com um mundo diferente, no qual as relações
entre os povos se desenvolveriam distantes do pesadelo da guerra,
e o processo de "globalização" aconteceria
em um ambiente de pacífica confrontação entre
povos e culturas, no marco do direito internacional compartilhado,
inspirado no respeito das exigências da verdade, da justiça,
da solidariedade. Infelizmente, este sonho de paz não se
tornou realidade. O terceiro milênio começou com cenários
de terrorismo e de violência que não parecem desvanecer-se.
Também o fato de que os conflitos armados se desenvolvem
sobretudo com o pano de fundo de tensões geopolíticas
existentes em muitas regiões pode dar a impressão
de que não só as diferenças culturais, mas
também as diferenças religiosas são motivo
de instabilidade ou de ameaça para as perspectivas de paz.
Precisamente desde este ponto de vista, a iniciativa promovida
há vinte anos por João Paulo II se converte em uma
profecia. Seu convite aos líderes das religiões mundiais
a dar um testemunho conjunto de paz serviu para declarar sem possibilidade
de equívocos que a religião só pode ser promotora
da paz. Como ensinou o Concílio Vaticano II, na declaração
"Nostra Aetate" sobre as relações da Igreja
com as religiões não cristãs, "não
podemos invocar a Deus, Pai de todos, se nos negamos a conduzir-nos
fraternalmente com alguns homens, criados à imagem de Deus"
(número 5). Apesar das diferenças que caracterizam
os diferentes caminhos religiosos, o reconhecimento da existência
de Deus, ao que os homens podem chegar inclusive baseando-se unicamente
na experiência da criação (Cf. Romanos 1, 20),
disporá necessariamente os crentes a considerar os demais
seres humanos como irmãos. A ninguém é lícito,
portanto, servir-se da diferença religiosa como pressuposto
para uma atitude beligerante para com os demais seres humanos.
Poder-se-á objetar que a história conhece o triste
fenômeno das guerras de religião. Sabemos, contudo,
que semelhantes manifestações de violência não
podem atribuir-se à religião enquanto tal, mas aos
limites culturais com que se vive e se desenvolve no tempo. E agora,
quando o sentido religioso alcançar sua maturidade, gera
no crente a percepção de que a fé em Deus,
Criador do universo e Pai de todos, tem de promover necessariamente
relações de fraternidade universal entre os homens.
De fato, registram-se testemunhos do íntimo laço que
existe entre a relação com Deus e a ética do
amor em todas as grandes tradições religiosas. Nós,
os cristãos, sentimo-nos confirmados neste sentido e ulteriormente
iluminados pela Palavra de Deus. Já o Antigo Testamento manifesta
o amor de Deus por todos os povos que Ele, na aliança feita
com Noé, reúne em um grande abraço, simbolizado
pelo "arco nas nuvens" (Gêneses 9, 13.14.16) que,
segundo as palavras dos profetas, pretende congregar em uma só
família universal (cf. Isaías 2,2ss; 42, 6; 66, 18-21;
Jeremias 4, 2; Salmo 47). Depois, no Novo Testamento, a revelação
deste desígnio universal de amor culmina no mistério
pascal, no qual o Filho de Deus encarnado, com um surpreendente
ato de solidariedade salvífica, se oferece em sacrifício
na cruz por toda a humanidade. Deus mostra deste modo que sua natureza
é o Amor. É o que eu quis sublinhar em minha primeira
encíclica, que começa precisamente com as palavras
"Deus caritas est" (1 João 4, 7). Esta afirmação
da Escritura não só ilumina o mistério de Deus,
mas ilumina também as relações entre os homens,
todos eles chamados a viver segundo o mandamento do amor.
O encontro promovido em Assis pelo servo de Deus João Paulo
II sublinhou o valor da oração na construção
da paz. Somos conscientes de quão difícil é
o caminho para este bem fundamental e às vezes parece humanamente
impossível. A paz é um valor no qual confluem tantos
componentes. Para construí-la, são importantes caminhos
de caráter cultural, político, econômico. Agora,
em primeiro lugar, a paz tem de ser construída nos corações.
Lá é onde se desenvolvem os sentimentos que podem
alentá-la ou, pelo contrário, ameaçá-la,
debilitá-la, sufocá-la. O coração do
homem, de fato, é o lugar no qual Deus atua. Portanto, junto
à dimensão "horizontal" das relações
com os demais homens, é de importância fundamental
a dimensão "vertical" da relação
de cada um com Deus, em quem tudo encontra seu fundamento. Isto
é precisamente o que quis recordar com força ao mundo
o Papa João Paulo II, com a iniciativa de 1986. Pediu uma
oração autêntica, que envolvesse toda a existência.
Quis, por este motivo, que estivesse acompanhada pelo jejum e que
fosse expressada com a peregrinação, símbolo
do caminho para o encontro com Deus. E explicou: "A oração
comporta da nossa parte a conversão do coração"
("Insegnamenti di Giovanni Paolo II", 1986, vol. II, p.
1253). Entre os aspectos caracterizadores do encontro de 1986, deve-se
sublinhar que este valor da oração na construção
da paz foi testemunhado por expoentes de diferentes tradições
religiosas, e isso não sucedeu na distância, mas no
contexto de um encontro. Deste modo, os orantes das diferentes religiões
puderam mostrar, com a linguagem do testemunho, que a oração
não divide, mas une, e que constitui um elemento determinante
para uma eficaz pedagogia da paz, baseada na amizade, na acolhida
recíproca, no diálogo entre os homens de diferentes
culturas e religiões. Temos mais necessidade que nunca, especialmente
se prestamos atenção às novas gerações.
Muitos jovens, nas zonas do mundo caracterizadas por conflitos,
são educados em sentimentos de ódio e de vingança,
em contextos ideológicos nos quais se cultivam as sementes
de antigos rancores e se preparam os espíritos para futuras
violências. É necessário abater estas paliçadas
e favorecer o encontro. Alegro-me pelo fato de que as iniciativas
programadas neste ano em Assis vão nesta direção
e por que o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso
tenha pensado em sua aplicação particularmente aos
jovens.
Para não desviar o sentido do que João Paulo II quis
realizar em 1986, e que se qualificou em uma expressão sua
como "espírito de Assis", é importante não
esquecer a atenção que então se pôs para
que o encontro inter-religioso de oração não
se prestasse a interpretações sincretistas, fundadas
em uma concepção relativista. Precisamente por este
motivo, desde um primeiro momento, João Paulo II declarou:
"O fato de que tenhamos vindo aqui não implica nenhuma
intenção de buscar um consenso religioso entre nós
ou de negociar nossas convicções de fé. Quer
dizer que as religiões podem reconciliar-se no âmbito
de um compromisso comum em um projeto terreno que supera todas elas.
E tampouco é uma concessão ao relativismo nas crenças
religiosas..." ("Insegnamenti", cit., p. 1252). Desejo
confirmar este princípio, que constitui o pressuposto desse
diálogo entre as religiões que auspiciou há
quarenta anos o Concílio Vaticano II na Declaração
sobre as relações da Igreja com as religiões
não cristãs (cf. "Nostra aetate", 2). Aproveito
com prazer a ocasião para saudar os expoentes das demais
religiões que participam das comemorações de
Assis. Como nós, os cristãos, também eles sabem
que na oração se pode fazer uma experiência
especial de Deus e tirar estímulos eficazes para a entrega
à causa da paz. Neste sentido, também é um
dever evitar confusões. Por isso, quando nos encontramos
juntos para rezar pela paz, é necessário que a oração
se desenvolva segundo esses caminhos diferentes que são próprios
das diferentes religiões. Esta foi a escolha que se fez em
1986 e esta escolha não pode deixar se continuar sendo válida
também hoje. A convergência da diversidade não
deve dar a impressão de ser uma concessão a esse relativismo
que nega o sentido próprio da verdade e a possibilidade de
alcançá-la.
João Paulo II quis escolher para sua iniciativa audaz e
profética o sugestivo cenário dessa cidade de Assis,
universalmente conhecida pela figura de São Francisco. O
"pobrezinho" encarnou de maneira exemplar a bem-aventurança
proclamada por Jesus no Evangelho: "Bem-aventurados os que
trabalham pela paz, porque eles serão chamados filhos de
Deus" (Mateus 5, 9). O testemunho que deu em sua época
faz dele um ponto de referência natural para quem cultiva
também hoje o ideal da paz, do respeito da natureza, do diálogo
entre as pessoas, entre as religiões e as culturas. Agora,
é importante recordar, se não se quer trair sua mensagem,
que a escolha radical de Cristo lhe ofereceu a chave para compreender
a fraternidade à qual todos os homens estão chamados,
e na qual também participam em certo sentido as criaturas
inanimadas -- desde o "irmão sol" até "a
irmã lua". Quero recordar, portanto, que neste vigésimo
aniversário da iniciativa de oração pela paz
de João Paulo II se celebra também o oitavo centenário
da conversão de São Francisco. As duas comemorações
se iluminam reciprocamente. Nas palavras que o Crucifixo de São
Damiã lhe dirigiu -- "Vai, repara minha casa" --,
em sua escolha da pobreza radical, no beijo do leproso com o qual
expressou sua nova capacidade de ver e de amar a Cristo nos irmãos
que sofrem, começava essa aventura humana e cristã
que continua fascinando tantos homens de nosso tempo e que faz que
essa cidade seja meta de inumeráveis peregrinos.
Confio-lhe, venerado irmão, pastor dessa Igreja de Assis-Nocera
Umbra-Gualdo Tadino, a tarefa de dar a conhecer minhas reflexões
aos participantes nas diferentes celebrações previstas
para comemorar o vigésimo aniversário daquele histórico
acontecimento, o Encontro Inter-religioso de 27 de outubro de 1986.
Transmita a todos minha afetuosa saudação, enviando-lhes
minha bênção, que vai acompanhada do desejo
e a oração do pobrezinho de Assis: "A paz do
Senhor seja convosco!".
Castel Gandolfo, 2 de setembro de 2006
BENEDICTUS P.P. XVI
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