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       São Paulo, 23/05/2012, 16:01          
 
 

O que quer dizer para nós, hoje, que Francisco é o ponto de referência, e, sobretudo, como podemos nós, filhos de Francisco, sermos ainda, onde quer que vivamos, autênticos testemunhos de paz? O que tornamos “visível” de sua fascinante aventura humana e evangélica? Providencialmente, a lembrança do 20o aniversário da iniciativa audaz e profética de João Paulo II, coincide, como assinalou Bento XVI, na sua Mensagem pelo 20º aniversário da iniciativa de oração pela paz, com a celebração que se realiza em nossa Fraternidade, do 8º Centenário da conversão de Francisco, provocada pelo diálogo com o Crucifixo de São Damião: “Senhor, que queres que eu faça? e “Vai, Francisco, e repara a minha casa”. Descoberto o sentido das palavras do Crucifixo, o Poverello se transforma em promotor da paz com cartas circulares e particulares, com o anúncio do Reino de Deus, e o dom divino da paz (cf. 1Cel 10), tornando-se assim o “anjo da verdadeira paz” (LM. Prólogo 1)

Para entender o porquê e como nós, franciscanos, devemos ser “sentinelas dóceis e valentes da verdadeira paz, fundada na justiça e no perdão, na verdade e na misericórdia” (João Paulo II, Discurso de Assis, 24 de janeiro de 2002), devemos “fixar o olhar no mistério da cruz, árvore da salvação banhada no sangue redentor de Cristo” (cf. também “Deus caritas est”, 12). Sim, o fascínio de Francisco surge de seu deixar-se transformar pela lógica da cruz, ao ponto de aprender uma nova “linguagem”, aquela do amor, do perdão e do bem.

2006 é para nossa Fraternidade o ano da conversão, provocada pela contemplação do Crucifixo de São Damião. Permito-me, então, sugerir-lhes um itinerário concreto de conversão, para apostar no amor, no valor da fraternidade, “aos quais todas as pessoas são chamadas, e do quais as criaturas inanimadas - do “irmão sol” à “irmã lua” - de alguma maneira participam” (Bento XVI, Mensagem...). Trata-se de viver e promover, dentro de nossas Fraternidades, nas relações com as pessoas que o Senhor coloca em nosso caminho, os valores do Decálogo de Assis, enviado por João Paulo II aos chefes de Estado e de Governo, fruto da excepcional jornada de oração vivida em Assis no dia 24 de janeiro de 2002 (Acta Ordinis, I, 2002, 6-7), tendo sempre ante nossos olhos o testemunho exemplar de Francisco de Assis, que nos exorta a “sermos pacíficos e sóbrios, mansos e humildes”, nos recorda nossa vocação: “curar as feridas, enfaixar as fraturas, buscar os perdidos”, e nos convida a nos dirigirmos ao “Altíssimo, glorioso Deus”, para que nos conceda a capacidade de discernir e de fazer sempre a sua vontade.

Roma, 8 de setembro de 2006, Nascimento da Santa Virgem

Fr. José Rodríguez Carballo, ofm
Ministro Geral

Foi um momento de geral esperança de paz, que levou muitos a sonhar com um mundo diferente, no qual as relações entre os povos se desenvolveriam distantes do pesadelo da guerra, e o processo de "globalização" aconteceria em um ambiente de pacífica confrontação entre povos e culturas, no marco do direito internacional compartilhado, inspirado no respeito das exigências da verdade, da justiça, da solidariedade. Infelizmente, este sonho de paz não se tornou realidade. O terceiro milênio começou com cenários de terrorismo e de violência que não parecem desvanecer-se. Também o fato de que os conflitos armados se desenvolvem sobretudo com o pano de fundo de tensões geopolíticas existentes em muitas regiões pode dar a impressão de que não só as diferenças culturais, mas também as diferenças religiosas são motivo de instabilidade ou de ameaça para as perspectivas de paz.

Precisamente desde este ponto de vista, a iniciativa promovida há vinte anos por João Paulo II se converte em uma profecia. Seu convite aos líderes das religiões mundiais a dar um testemunho conjunto de paz serviu para declarar sem possibilidade de equívocos que a religião só pode ser promotora da paz. Como ensinou o Concílio Vaticano II, na declaração "Nostra Aetate" sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs, "não podemos invocar a Deus, Pai de todos, se nos negamos a conduzir-nos fraternalmente com alguns homens, criados à imagem de Deus" (número 5). Apesar das diferenças que caracterizam os diferentes caminhos religiosos, o reconhecimento da existência de Deus, ao que os homens podem chegar inclusive baseando-se unicamente na experiência da criação (Cf. Romanos 1, 20), disporá necessariamente os crentes a considerar os demais seres humanos como irmãos. A ninguém é lícito, portanto, servir-se da diferença religiosa como pressuposto para uma atitude beligerante para com os demais seres humanos.

Poder-se-á objetar que a história conhece o triste fenômeno das guerras de religião. Sabemos, contudo, que semelhantes manifestações de violência não podem atribuir-se à religião enquanto tal, mas aos limites culturais com que se vive e se desenvolve no tempo. E agora, quando o sentido religioso alcançar sua maturidade, gera no crente a percepção de que a fé em Deus, Criador do universo e Pai de todos, tem de promover necessariamente relações de fraternidade universal entre os homens. De fato, registram-se testemunhos do íntimo laço que existe entre a relação com Deus e a ética do amor em todas as grandes tradições religiosas. Nós, os cristãos, sentimo-nos confirmados neste sentido e ulteriormente iluminados pela Palavra de Deus. Já o Antigo Testamento manifesta o amor de Deus por todos os povos que Ele, na aliança feita com Noé, reúne em um grande abraço, simbolizado pelo "arco nas nuvens" (Gêneses 9, 13.14.16) que, segundo as palavras dos profetas, pretende congregar em uma só família universal (cf. Isaías 2,2ss; 42, 6; 66, 18-21; Jeremias 4, 2; Salmo 47). Depois, no Novo Testamento, a revelação deste desígnio universal de amor culmina no mistério pascal, no qual o Filho de Deus encarnado, com um surpreendente ato de solidariedade salvífica, se oferece em sacrifício na cruz por toda a humanidade. Deus mostra deste modo que sua natureza é o Amor. É o que eu quis sublinhar em minha primeira encíclica, que começa precisamente com as palavras "Deus caritas est" (1 João 4, 7). Esta afirmação da Escritura não só ilumina o mistério de Deus, mas ilumina também as relações entre os homens, todos eles chamados a viver segundo o mandamento do amor.

O encontro promovido em Assis pelo servo de Deus João Paulo II sublinhou o valor da oração na construção da paz. Somos conscientes de quão difícil é o caminho para este bem fundamental e às vezes parece humanamente impossível. A paz é um valor no qual confluem tantos componentes. Para construí-la, são importantes caminhos de caráter cultural, político, econômico. Agora, em primeiro lugar, a paz tem de ser construída nos corações. Lá é onde se desenvolvem os sentimentos que podem alentá-la ou, pelo contrário, ameaçá-la, debilitá-la, sufocá-la. O coração do homem, de fato, é o lugar no qual Deus atua. Portanto, junto à dimensão "horizontal" das relações com os demais homens, é de importância fundamental a dimensão "vertical" da relação de cada um com Deus, em quem tudo encontra seu fundamento. Isto é precisamente o que quis recordar com força ao mundo o Papa João Paulo II, com a iniciativa de 1986. Pediu uma oração autêntica, que envolvesse toda a existência. Quis, por este motivo, que estivesse acompanhada pelo jejum e que fosse expressada com a peregrinação, símbolo do caminho para o encontro com Deus. E explicou: "A oração comporta da nossa parte a conversão do coração" ("Insegnamenti di Giovanni Paolo II", 1986, vol. II, p. 1253). Entre os aspectos caracterizadores do encontro de 1986, deve-se sublinhar que este valor da oração na construção da paz foi testemunhado por expoentes de diferentes tradições religiosas, e isso não sucedeu na distância, mas no contexto de um encontro. Deste modo, os orantes das diferentes religiões puderam mostrar, com a linguagem do testemunho, que a oração não divide, mas une, e que constitui um elemento determinante para uma eficaz pedagogia da paz, baseada na amizade, na acolhida recíproca, no diálogo entre os homens de diferentes culturas e religiões. Temos mais necessidade que nunca, especialmente se prestamos atenção às novas gerações. Muitos jovens, nas zonas do mundo caracterizadas por conflitos, são educados em sentimentos de ódio e de vingança, em contextos ideológicos nos quais se cultivam as sementes de antigos rancores e se preparam os espíritos para futuras violências. É necessário abater estas paliçadas e favorecer o encontro. Alegro-me pelo fato de que as iniciativas programadas neste ano em Assis vão nesta direção e por que o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso tenha pensado em sua aplicação particularmente aos jovens.

Para não desviar o sentido do que João Paulo II quis realizar em 1986, e que se qualificou em uma expressão sua como "espírito de Assis", é importante não esquecer a atenção que então se pôs para que o encontro inter-religioso de oração não se prestasse a interpretações sincretistas, fundadas em uma concepção relativista. Precisamente por este motivo, desde um primeiro momento, João Paulo II declarou: "O fato de que tenhamos vindo aqui não implica nenhuma intenção de buscar um consenso religioso entre nós ou de negociar nossas convicções de fé. Quer dizer que as religiões podem reconciliar-se no âmbito de um compromisso comum em um projeto terreno que supera todas elas. E tampouco é uma concessão ao relativismo nas crenças religiosas..." ("Insegnamenti", cit., p. 1252). Desejo confirmar este princípio, que constitui o pressuposto desse diálogo entre as religiões que auspiciou há quarenta anos o Concílio Vaticano II na Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs (cf. "Nostra aetate", 2). Aproveito com prazer a ocasião para saudar os expoentes das demais religiões que participam das comemorações de Assis. Como nós, os cristãos, também eles sabem que na oração se pode fazer uma experiência especial de Deus e tirar estímulos eficazes para a entrega à causa da paz. Neste sentido, também é um dever evitar confusões. Por isso, quando nos encontramos juntos para rezar pela paz, é necessário que a oração se desenvolva segundo esses caminhos diferentes que são próprios das diferentes religiões. Esta foi a escolha que se fez em 1986 e esta escolha não pode deixar se continuar sendo válida também hoje. A convergência da diversidade não deve dar a impressão de ser uma concessão a esse relativismo que nega o sentido próprio da verdade e a possibilidade de alcançá-la.

João Paulo II quis escolher para sua iniciativa audaz e profética o sugestivo cenário dessa cidade de Assis, universalmente conhecida pela figura de São Francisco. O "pobrezinho" encarnou de maneira exemplar a bem-aventurança proclamada por Jesus no Evangelho: "Bem-aventurados os que trabalham pela paz, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5, 9). O testemunho que deu em sua época faz dele um ponto de referência natural para quem cultiva também hoje o ideal da paz, do respeito da natureza, do diálogo entre as pessoas, entre as religiões e as culturas. Agora, é importante recordar, se não se quer trair sua mensagem, que a escolha radical de Cristo lhe ofereceu a chave para compreender a fraternidade à qual todos os homens estão chamados, e na qual também participam em certo sentido as criaturas inanimadas -- desde o "irmão sol" até "a irmã lua". Quero recordar, portanto, que neste vigésimo aniversário da iniciativa de oração pela paz de João Paulo II se celebra também o oitavo centenário da conversão de São Francisco. As duas comemorações se iluminam reciprocamente. Nas palavras que o Crucifixo de São Damiã lhe dirigiu -- "Vai, repara minha casa" --, em sua escolha da pobreza radical, no beijo do leproso com o qual expressou sua nova capacidade de ver e de amar a Cristo nos irmãos que sofrem, começava essa aventura humana e cristã que continua fascinando tantos homens de nosso tempo e que faz que essa cidade seja meta de inumeráveis peregrinos.

Confio-lhe, venerado irmão, pastor dessa Igreja de Assis-Nocera Umbra-Gualdo Tadino, a tarefa de dar a conhecer minhas reflexões aos participantes nas diferentes celebrações previstas para comemorar o vigésimo aniversário daquele histórico acontecimento, o Encontro Inter-religioso de 27 de outubro de 1986. Transmita a todos minha afetuosa saudação, enviando-lhes minha bênção, que vai acompanhada do desejo e a oração do pobrezinho de Assis: "A paz do Senhor seja convosco!".

Castel Gandolfo, 2 de setembro de 2006

BENEDICTUS P.P. XVI

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