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       São Paulo, 23/05/2012, 16:03          
 

JUBILEU DOS 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO (2008)
E DA FUNDAÇÃO DA ORDEM FRANCISCANA (2009)

• Em 1209 que Francisco obteve do “Senhor Papa” a aprovação de seu “ projeto de vida”, ou daquilo que depois se chamaria de “Proto-regra”. Esta “forma de vida” iria se ampliando segundo as exigências da Fraternidade, tornando-se o fundamento da Regra de 1221 e, mais tarde, da Regra de 1223, confirmada por Honório III. Ainda que o texto diga respeito em primeiro lugar o grupo dos frades,  isso era aberto a todos os estados da vida cristã.

• Quase vinte anos mais tarde (1226), Francisco de Assis, descreve assim, no seu Testamento, aquilo que sucedeu então: «E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou que devia fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples, e o Senhor Papa mo confirmou» (Test 14 e 15).

• Esses textos que, depois de muitos séculos, continuam a ser referência essencial para compreender Francisco e compreender a nós mesmos, franciscanas e franciscanos.

• O jubileu é uma ocasião propícia para voltar ao essencial de nossa experiência humana, cristã e vocacional franciscana, recomeçando pelos nossos valores carismáticos.

• Não é questão de comemorar uma figura, Francisco, Clara ou qualquer outro, mas chamar de novo à nossa memória a origem do carisma franciscano.

• Uma providencial hora para nutrir, mediante a oferta libertadora do Evangelho, o nosso mundo dividido, desigual e faminto de sentido, como fizeram no seu tempo Francisco e Clara de Assis, promovendo a reconciliação, a justiça e a paz.

• Um “tempo forte” na caminhada de crescimento na vida evangélica e no seguimento de Jesus Cristo, na fidelidade criativa (cf.VC 37).

• Empreender uma caminhada de discernimento necessário para refundar nossa vida e missão sobre os elementos essenciais de nossa forma vitae.

 INDICAÇÕES DA CONFERÊNCIA DA FAMÍLIA
 FRANCISCANA – 29.11.2006

O coração da vocação: a vida segundo o Evangelho

O termo «Evangelho» indica o coração da vocação franciscana, é a chave que abre o acesso ao imenso espaço da «boa nova» de Deus e de Jesus. Mas, qual conteúdo Francisco dá a este vocábulo e como nós hoje podemos e devemos compreendê-lo e colocá-lo em prática?

• Quando nós lemos as Regras, considerando o conjunto dos textos de Francisco, constatamos que o Evangelho não é só levar a sério as exigências de uma vida fraterna, vivida numa pobreza radical mas, é sobretudo assumir o conceito de autoridade que Francisco propõe – mestres que se fazem servos, o lavar os pés – com o seu convite a fazer-se «menor», pequenos, submissos a todas as criaturas, irmãos de todos os homens.

• Aqui para Francisco está o coração da mensagem evangélica. Esta «alegre e boa nova» nos leva, em primeiro lugar, à revelação do mistério de Deus-Trindade, que pelo seu santo amor nos abriu o acesso à sua vida de comunhão e torna-se a primeira meta de todas as nossas buscas e de todos os nossos passos.  E junto nos dá, pois, o conhecimento de nós mesmos, «a mais digna das criaturas» (3CIn 21), imagem e semelhança, na sua intimidade e no seu corpo, de Deus e de seu Cristo; paradoxalmente, limitada, pobre, pequena, pecadora, e por causa disso chamada à «penitência» – conversão ao Evangelho –, nunca concluída, sempre a recomeçar. 

O amor do próximo é, com o amor por Deus e em igualdade com ele, uma outra decisão evangélica radical. Isto concede à criação uma verdadeira «fraternidade», o nome que Francisco dá ao primeiro grupo de frades. Desde a primeira realizada entre os irmãos, deve permanecer aberta e estender-se a todos os homens e junto a todos os seres e elementos do mundo.

• São estes, os elementos base alcançados no Evangelho, que Francisco propôs como caminho de vida. Reconhecendo-os como próprios e aprovando a Regra, há oito séculos, a Igreja deu  origem ao movimento franciscano. São estes os valores que somos chamados a viver no inicio do terceiro milênio com as nossas riquezas e fraquezas.

• Onde? Num mundo tecnológico e informático, em suas crises: guerras continuadas, terrorismo, pobreza, globalização, a fé cristã é exposta a todas as questões e desafios sobre Deus, a diversidade das religiões e de suas relações, e sobre o sentido da vida e da morte.

• Esta situação de crise é ao mesmo tempo um grande desafio para que a Igreja viva a nova evangelização e para que a Família Franciscana viva a própria identidade, e a mesma identidade franciscana permanece um desafio para o mundo!

• O âmago da Regra – e a sua referência ao Evangelho – se destina a todos os cristãos e de  modo especial aos filhos de Francisco. O apelo para viver radicalmente a mensagem de Jesus, resulta em atualidade para todos os tempos e para todos os estados de vida. Assim, este centenário pertence a todos.

 2. Três passos para preparar o Jubileu 

• Somos todos chamados à ação de graças pelo dom que Deus fez, a nós e a sua Igreja, por intercessão de Francisco e dos seus companheiros, a acolher a totalidade do Evangelho de Jesus Cristo para um novo viver.

Unir esta ação de graças ao reconhecimento da distância entre a proposta evangélica e o modo com a qual é vista no curso da nossa longa e tumultuosa história. Devemos reconhecer diante da Igreja e do mundo que a nossa história e a nossa hereditariedade traz consigo suas sombras, tanto do passado como para o presente.

• Este duplo movimento – ações de graças pelo novo chamado a viver o Evangelho e a purificação da memória como reconhecimento das sombras da nossa família – deve nos levar a enfrentar o desafio da refundação.

• A experiência de oito séculos nos ensina que, como Francisco, temos sempre que retomar de novo o nosso itinerário de penitência evangélica (a conversão); por em prática, com gestos concretos para encarnar com a vida, pessoal e comunitária de cada dia, qualquer coisa da novidade e da juventude do Evangelho.

• Desde o primeiro século da nossa história, não temos cessado de “renascer”. (cf. Jo 3,3), como é testemunhado ainda hoje pelos nossos diferentes ramos e pelas centenas dos nossos Institutos. E é por isto que devemos alcançar as raízes, os “fundamentos”, o Evangelho (Rm 1,16), a boa nova do Amor de Deus por nós e da comunhão com Ele, que a nós se oferece.

• Só sobre tal fundamento se pode construir um edifício sólido, uma verdadeira comunidade em missão na Igreja e no mundo. Este momento de graça -  kairós - que vivemos no presente, nos coloca à prova, nos revelando a nossa fraqueza, mas nos convidando sobretudo a contar com o poder de Deus.

• Há oito séculos nós temos a graça de ser os herdeiros deste projeto e o sério empenho de sermos os continuadores. O jubileu que nos propomos a celebrar atinge a todos nós: não podemos vivê-lo cada um por conta própria! Como revitalizar a nossa espiritualidade tão atual e tão desejada pelo homem do nosso tempo?

 Como nos reaproximarmos da nossa “forma vitae”? 
Creio que evidenciando, sobretudo, três aspectos:

  • A paixão evangélica em uma vida coerente e a “compaixão” para com os homens de nosso tempo, numa vida de condivisão.
  • A ousadia de arriscar no essencial... sem medo de perder tantas seguranças.
  • A criatividade de novas formas e mediações evangelicamente significativas e dialogais.

A paixão
A paixão nasce do chamado, da sedução divina, de um encontro vivo e vivificante com o Senhor que desconcerta e desestabiliza uma existência humana; que “vira de ponta cabeça” e muda a vida de uma criatura. Encontrar o Cristo significa colocar-se em um caminho de conversão. Certamente também nós, várias vezes, experimentamos este encontro, fomos provocados a uma mudança; mas, por fim, foi mais fácil e mais cômodo continuar a viver como sempre temos feito... Não cultivamos estas experiências e nos iludimos e nos tranqüilizamos em nossas estruturas “garantidas” do passado. E assim se criou uma lacuna sempre maior entre estrutura e vida, entre as exigências evangélicas e a nossa rotina cotidiana, entre ortodoxia e ortopraxis. Não nos deixamos iluminar e seduzir pela paixão pela seqüela, mudando de vida. Sabemos bem que uma experiência religiosa verdadeira comporta dois elementos: o ser atraído pelo “tesouro” encontrado, pela paixão, e o distanciar-se, com alegria, de todo o resto. Talvez, na teoria, conheçamos a nossa identidade carismática, mas, na prática, não somos capazes ou não queremos nos comportar conseqüentemente. “O verdadeiro desafio da vida consagrada não está no declínio numérico, mas no enfraquecimento da adesão espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão” (VC 63).

A ousadia
Se ousássemos confiar e nos entregarmos ao Senhor! A vida religiosa vive uma mudança, uma transformação epocal. Para continuar sua função na Igreja e no mundo deverá re-centrar-se no “Essencial”, deverá ousar estradas novas.
“Os Institutos são convidados a repropor com coragem o empreendimento, a inovação e a santidade dos fundadores e das fundadoras como resposta aos sinais dos tempos que emergem no mundo de hoje” (VC 37). Somos chamados a ser mais corajosos, mais ousados, para nos tornarmos mais transparentes que “eficientes”, mais teológicos que auto-referenciados, mais soltos, mais disponíveis, mais criativos. Uma vida evangélica séria e coerente deverá estimular-nos a descobrir novas veredas vocacionais e missionárias, sem medo de perder seguranças estruturais que poderiam paralisar o nosso caminho.

A criatividade
Depois da Encarnação, as mediações humanas – como a carne de Jesus de Nazaré – têm um valor importante e indispensável para acolher o Senhor. Não podemos nem minimizá-las nem absolutizá-las. O nosso estilo de vida, portanto, o nosso modo de ser e de agir deve, de algum modo, ser “memória vivente”, deve evocar, ao homem de nosso tempo, a beleza da vida evangélica, o Reino já presente em nosso meio. Isso não acontecerá se não for “vivente”, se periodicamente, com o mudar da história, não “inventarmos” outras mediações, outros sinais mais indicativos e mais significativos para a nossa história. Trata-se de arriscar – como é normal na vida religiosa – pelo Reino. “Quem ama, cria”. Quem não tem nada a perder, porque doou a sua vida ao Senhor e aos irmãos, sabe adaptar ou criar com coragem novas estruturas, novas mediações vitais. “Pode mudar aquele que é estável interiormente”.

Para a reflexão e partilha nas fraternidades

Qual é a paixão que ainda nos move na vida franciscana? Que desafios concretos ela nos coloca?

Enquanto carisma original e profecia, por quais caminhos estamos trilhando? Quais os sinais de renovação?  Quais são as nossas respostas aos atuais desafios do mundo?

Quais são as nossas novas mediações (abertas e dialogais) e estruturas?

Síntese elaborada por Frei Regis Daher, OFM a partir dos seguintes textos:

Fontes:

1. Carta da Conferência da Família Franciscana (Ministros Gerais) em preparação ao 8º  Centenário de Aprovação da Regra, de 29.11.2006.

2. Conferência de Frei Giacomo Bini,OFM, ex-Ministro Geral: “Para onde vai a vida religiosa franciscana?”, no  II Congresso Internacional de Mestres de Noviciado OFM, La Verna-Assisi, 8-30 outubro 2005, p. 187-192.