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Francisco, o Santo-Alegria
1. Introdução - Tenho a impressão
de que em nossos dias fala-se mais em felicidade do que
em alegria. Sinto certa apreensão, pois isso representa
certa banalização mais abrangente. Você
entra numa lojinha qualquer para comprar um par de meias,
ou umas cuecas e já sorridente vendedora o trata
por "meu amor". Ser amado e feliz passou a ser
uma obrigação universal. Pobres dos melancólicos,
dos abatidos, dos deprimidos! Felicidade parece-me algo
tão beatífico! Lembra conquista definitiva,
realização, plenitude.
2. São Francisco e a alegria - Francisco declara
bem-aventurados os frades que vivem situações
àquelas às quais o Evangelho qualifica de
bem-aventuranças. Em geral são declarações
dele a respeito de quem procede evangelicamente, como nas
suas Admoestações diz: "bem-aventurado
aquele que nada retém para si". Neste sentido
encontrei - só nos escritos atribuídos a Francisco
- 12 vezes a expressão bem-aventurado (s) e uma vez
"felizes" como sinônimo de bem-aventurados.
Na verdade são promessas de felicidade se os frades
conseguirem realizar determinadas propostas evangélicas.
Quando Francisco lida com o dia-a-dia de seus irmãos
e refere-se às qualidades e virtudes para a boa vivência
da fraternidade, para o sucesso na luta contra Satanás
e a eficiência da evangelização, ele
fala 19 vezes em alegria.
3. Alegria como virtude - Não é muito
fácil transformar a alegria em virtude, pois alegria
parece constituir-se apenas de uma emoção
primária agradável, fruto da posse de coisas
desejadas. O problema está naquilo que se deseja.
A alegria do Tio Patinhas por encontrar mais uma mina de
ouro não é virtuosa, pois é fruto de
sua desmedida cobiça e poderá incentivar outros
a se entregarem ao materialismo.
Francisco, por sua vez, acabara de romper com o pai ganancioso
e com a riqueza de que podia usufruir na família.
Procurava em seu íntimo uma forma de viver mais de
perto o ideal do Evangelho e do modo de ser do próprio
Cristo. Numa missa ouve aquela passagem na qual Jesus envia
seus discípulos a pregar. Depois pede ao sacerdote
que lhe explique a leitura. Diante do quadro dos enviados
"sem bastão", sem dinheiro, sem reserva
de pão, sem calçados", ocupados unicamente
em pregar o Reino de Deus e a penitência, Francisco
tem uma iluminação. Segundo Tomás de
Celano, ele exclama: "É isso que eu quero, isso
que procuro, é isso que DESEJO DE TODO CORAÇÃO".
Ora, quem consegue conquistar "aquilo que deseja"
de todo o coração, só pode experimentar
uma alegria correspondente. É o que Jesus afirma
ao comparar o Reino a um tesouro. Quem o encontrar abre
mão de TUDO o que possui e, "cheio de alegria
compra aquele campo" (Mt 13,44). Para chegar ao TESOURO,
Francisco teve que perder tudo. Enquanto ia perdendo, já
sentia o coração enchendo-se de alegria. A
conclusão disso foi claríssima para ele: a
alegria é o certificado de qualidade da evangelização.
Só é bom discípulo e bom anunciador
do Reino quem não conseguir esconder aos demais -
por causa da alegria irreprimível - que ele encontrou
algo realmente extraordinário.
4. Desdobramentos da alegria - São Francisco
está a uns cinco meses de sua morte. Seu corpo reduziu-se
a uma ruína humana. Não consegue mais escrever.
O sofrimento físico é atroz e torturante.
Dita assim mesmo um testamento com suas últimas recomendações.
Depois pede que Frei Leão escreva o que ele tem a
dizer sobre aquilo que considera ser a ALEGRIA PERFEITA.
Francisco imagina duas situações. Na primeira
chegam mensageiros anunciando sucessos inimagináveis
de sua Ordem nos mais diversos recantos da Terra. "Digo-te
- afirma ele - que em tudo isso não está a
verdadeira alegria". Na segunda Francisco imagina-se
numa emergência hipotética. Ele próprio,
o fundador da Ordem, volta para o conventinho da Porciúncula,
"sua" casa-mãe, todo machucado, esgotado
pela fadiga e quase morto pela mais violenta nevasca. Bate
muitas vezes na porta. Por três vezes, o porteiro
abre, xinga Francisco de todas as formas. Conclui o santo:
"Pois bem, se eu tive tido paciência e permanecer
imperturbável, digo-te que aí está
a verdadeira alegria, a verdadeira virtude e salvação
da alma".
Por muito tempo, por mais que isso impressionasse, eu imaginava
que era o tranvasar da expressividade dramática da
alma latina, italiana, de Francisco. Mas, eis que em um
de seus biógrafos encontrei a explicação.
Francisco não se ligava no conteúdo da ofensa
de quem o agredia. Concentrava-se na desordem do coração
e pecado do ofensor. Em vez de ficar ofendido, enchia-se
de cuidados e compaixão pelo irmão agressivo.
5. Pretensão - Deus e Jesus Cristo tornam-se
cada vez mais a única e avassaladora paixão
de São Francisco. No altar desta paixão, ele
sacrifica tudo, inclusive todos os outros possíveis
projetos e desejos. É isso que ele entende por POBREZA.
Sobra só um desejo irresistível: imitar em
tudo seu Cristo-Paixão, sem sofrer menos que Ele
"pela salvação de todos". Assim,
Francisco desenvolveu uma blindagem protetora contra todas
as adversidades, todas as injustiças, toda forma
de sofrimento. Todo sofrimento é sempre invadido
pela luz e significado que brotam de seu CRISTO-MODELO.
Ocorre uma verdadeira transubstanciação da
dor e do sofrimento. Adquirem uma nova natureza. Aí
fica difícil saber onde termina Francisco e onde
começa Cristo. Nesta comunhão, os contornos
e as figuras de ambos se embaralham nossos olhos. Então
toda sorte de sofrimentos simplesmente o fazem sentir-se
mais perto, mais identificado com seu divino mestre e modelo,
sua única paixão. Isso realimenta e purifica
sua indefectível alegria.
Por isso seus contemporâneos afirmavam que Francisco
era outro Cristo.
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