|
A Centralidade de Cristo na Vida de São Francisco de
Assis
Frei Régis Daher
Introdução
Da vida e do modo de ser de São Francisco nasceu uma inspiração
de vida, um caminho. A espiritualidade franciscana é fundamentalmente
seguimento de Cristo, pobre, humilde e crucificado. E o
seguimento torna-se um encantamento, que por sua vez leva
à configuração com o Cristo.
1. A experiência do seguimento que São Francisco
faz não segue uma ordem cronológica da vida de Cristo (nascimento,
vida adulta, paixão e morte), mas é uma descoberta gradativa
do único e mesmo mistério de Cristo, revelação do amor e
da misericórdia de Deus para com a humanidade.
2. Assim, ao longo de sua vida, Francisco descobre
e experimenta a pessoa e o mistério de Cristo nas suas três
dimensões, inspirando nele três atitudes:
a pobreza da encarnação: o seguimento;
a humildade da eucaristia: o encantamento;
e a doação total da paixão e cruz: a configuração.
3. De outro modo, poderíamos dizer que a experiência
cristológica de Francisco tem um começo (a encarnação),
um meio (a eucaristia) e um fim (a cruz), não porém, numa
ordem cronológica mas numa ordem espiritual.
4. Na experiência pessoal de Francisco, a cruz
está no início (São Damião e o leproso) e no fim (as chagas
e o Monte Alverne); no 'meio' está a encarnação (Greccio)
e a eucaristia.
5. A ENCARNAÇÃO - São Francisco descobre a pobreza
do Filho de Deus e de sua Mãe, como condição para se fazer
um de nós:
"Quero evocar a lembrança do Menino que nasceu em Belém
e todos os incômodos que sofreu desde a sua infância; quero
vê-lo tal qual ele era, deitado numa manjedoura e dormindo
sobre o feno, entre um boi e um burro" (1Cel, 84).
"Se o Filho de Deus desceu da grande altura que separa o
seio do Pai de nossa abjeção, foi para nos ensinar a humildade,
Ele, o Senhor e Mestre, pela palavra e pelo exemplo" (LM
6,1).
Quando São Francisco de Assis, em sua intuição original
recriou no presépio de Greccio, a expressão poética do natal,
desejava experimentar e reviver na própria carne, o mistério
e o encantamento, o amor e a dor, a contradição da glória
divina revelada na pobreza do Filho de Deus. Desde então,
compor um presépio com figuras e materiais comuns e ordinários,
tornou-se um ato de fé, vislumbrando a presença do Deus
encarnado em tudo aquilo que constitui a vida. Para contemplar
o presépio e nele descobrir a revelação divina no cotidiano
humano, há uma condição: é preciso mudar o coração e o olhar,
porque o mundo tornou-se presépio.
6. A EUCARISTIA - São Francisco experimenta o encantamento
pela presença real de Cristo na eucaristia, como encarnação
(presépio) repetida e permanente no meio de nós:
"Pasme o homem todo, estremeça a terra inteira, rejubile
o céu em altas vozes quando sobre o altar, estiver nas mãos
do sacerdote o Cristo, Filho de Deus vivo! Ó grandeza maravilhosa,
ó admirável condescendência! Ó humildade sublime, ó humilde
sublimidade! O Senhor do universo, Deus e Filho de Deus,
se humilha a ponto de se esconder, para nosso bem, na modesta
aparência do pão. Vede, irmãos, que humildade a de Deus!
Derramai ante Ele os vosso corações! Humilhai-vos para que
Ele vos exalte! Portanto, nada de vós retenhais para vós
mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se
vos dá!" (C.tOrdem, 26-29).
Atitude eucarística = resposta de vida.
7. A CRUZ - As chagas de São Francisco não é ponto
de 'chegada', o fim de sua vida, antes é sinal da configuração
vivida ao longo de toda a sua vida. É o mesmo mistério de
amor da encarnação e da eucaristia:
" Ó Senhor, meu Jesus Cristo, duas graças eu te peço
que me faças antes de eu morrer: a primeira é que, em vida,
eu sinta na alma e no corpo, tanto quanto possível, aquelas
dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua dolorosa
Paixão. A segundo, é que eu sinta, no meu coração, tanto
quanto possível, aquele excessivo amor, do qual tu, Filho
de Deus, estavas inflamado, para voluntariamente suportar
uma tal paixão por nós pecadores" (3ª Cons.Estigmas).
"Francisco já tinha morrido para o mundo, mas Cristo
estava vivo nele. As delícias do mundo eram uma cruz para
ele, porque levava a cruz enraizada em seu coração. Por
isso fulgiam exteriormente em sua carne os estigmas, cuja
raiz tinha penetrado profundamente em seu coração" (2Cel
211).
>> O primeiro significado das chagas: significam
que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena
abertura e a máxima liberdade para sua presença.
>> O segundo significado das chagas é o de que Deus
não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena
realização e salvação.
>> O terceiro significado: as chagas expressam que
a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo,
Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além
do bem e do mal (amor incondicional). As chagas não vêm
de fora, nascem dentro da vida (corpo e alma).
>> O quarto significado: seguir o Cristo implica em
morrer um pouco a cada dia: "Quem quiser ser meu discípulo,
tome a sua cruz a cada dia e me siga" (Lc 9,23).
8. A EXPERIÊNCIA DO 'PEREGRINO PASCAL'
Foi depois de um longo caminho de purificação interior,
de renúncia, de integração, que Francisco tornou-se um homem
reconciliado. É romantismo e ilusão imitar São Francisco
sem, no entanto, abraçar a renúncia, a pobreza, a cruz.
É pura fantasia começar onde ele terminou. A vida toda de
Francisco foi um reconciliar-se contínuo com todas as dimensões
da existência: a interior (consigo mesmo), a superior (com
Deus), e a exterior (com a natureza).
a) A reconciliação consigo mesmo
Num determinado momento de sua juventude, Francisco converteu-se.
Houve uma "virada" no seu modo de ser, de comportar-se,
de relacionar-se. Aconteceu uma ruptura e iniciou um pesado
processo de purificação interior: vigílias, jejuns, penitências,
privações, e o encontro com o leproso. Ele abraça e ama
alegremente o próprio negativo, vencendo o diabólico em
si mesmo. Enfrenta o mal na sua fonte, o próprio coração,
integrando-o em vez de negá-lo.
b) A reconciliação com Deus
Francisco fez uma profunda experiência de Deus (cf. a
oração Louvores a Deus). Descobriu que a misericórdia de
Deus é infinitamente maior que todos os nossos pecados,
porque seu amor é maior que o nosso coração (Lc 6,35). Deus
não se deixa vencer por nossos pecados. Por isso, quando
o pecado é assumido na humildade e simplicidade, torna-se
caminho de encontro com Deus.
c) A reconciliação com a natureza
Deste mergulho no mistério de Deus, Francisco descobriu
a fonte de tudo e sentiu ligado à todas as coisas e pessoas,
porque elas não estão jogadas aí, alcance da mão do homem.
Ele não se coloca sobre as coisas, mas junto delas, como
irmão na mesma casa.
Colocando-se no mesmo nível das criaturas, Francisco não
se define pela diferença com elas, mas pelo que tem em comum.
Desse modo de ser é que nasce a sua pobreza. Ele deixa as
coisas serem, renuncia a dominá-las e submetê-las, ou usá-las
como objetos de posse e poder. Pobre, se sentia livre e
fraterno para comungar com todas as coisas, porque não tinha
mais o que perder.
d) A reconciliação com os outros - a perfeita alegria
Francisco não espera pela mudança dos outros. Começa por
si mesmo, inspirando-se no amor de Deus que suporta e ama
para além do bem e do mal (Mt 5,45 e Lc 6,35). Acolher as
sombras dos outros é para ele, manter os laços da fraternidade
apesar do negativo. Não apenas suporta, mas ama e acolhe
alegremente o negativo. Só deste modo o homem torna-se verdadeiramente
livre, pois nada mais poderá ameaçá-lo (o testemunho de
Freud).
São Boaventura afirmou que "Francisco parecia ter voltado
ao primitivo estado de inocência original, nasceu em seu
coração o paraíso terrestre". Por esse modo-de-ser, franciscano,
o homem pode viver e celebrar o mundo como um paraíso, quando
ele mesmo se transfigurou e se reconciliou com todas as
dimensões de sua história e de sua existência.
|