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Algumas considerações
em torno da arte franciscana
Por Frei Vitório Mazzuco, ofm
Quando alguém é unificado por uma intensa experiência
afetiva-espiritual torna-se uma Fonte! O Movimento Franciscano
tem a sua base em alguém: a experiência concreta-vital de
Francisco de Assis, um Homem de Coração Enamorado pela Vida
e pelo Deus da Vida! O seu forte amor progressivo e cheio
de energia faz com que ele e seus seguidores e seguidoras
tornassem criadores e criativos.
A fonte da Arte Franciscana é a paixão! O apaixonado é
sensível, antenado, real e contemplativo. Escolhe o natural
e transforma o natural numa linguagem. O natural sempre
nos atinge e nos refaz. Existe a Beleza do Simples? O que
é a beleza do simples? É descobrir e fazer aparecer o modesto
na sua força. Uma fragilidade que é potência. A grandiosidade
da vida, a grandiosidade do mundo e das pessoas só é dada
para quem tem olhos para essa Beleza.
O grande mestre de Paris, Alexandre de Halies, sintetiza
esta idéia criando a reflexão sobre o BELO E O BOM, a estética
franciscana. O que é o Belo e o Bom? Ele mesmo, o grande
Mestre de Paris, entra no hábito franciscano como símbolo
da Encarnação do Belo. Para ele, Francisco e os Primeiros
Frades, eram a re-descoberta para o que a vida tem de melhor:
convocação de Deus e convocação do amor.
É preciso transmitir a Luz desta convocação fazendo transparecer
o Brilho das Coisas e das Pessoas!
O Belo é transparente e transcendente. O Belo é Uno e
Vero. O Belo é sempre percepção, é sempre um chamado, um
apelo, um grito para perceber o real, o palpável, o sensível.
Não podemos estar no grito do abandono de todas as coisas,
é preciso vê-las percebê-las!
A forma do Belo (ver a beleza de tudo o que é) se torna
amada e ímitada, cria discipulado e arrasta. Não basta só
um entusiasmo inicial. É preciso um dinamismo constante,
um impulso de vida exercitado na convivência com o valor
das coisas.
Quanto mais você entra neste dinamismo mais se torna VIVAZ
(percebe dentro) e mais a Vida Floresce. Então se descobre
a arte da Vida. O que é a arte? O que é o artista da vida?
É aquele que está imerso nas estruturas da vida e nelas
coloca a sua profundidade. É preciso ter e conhecer a Arte
para se ter um Projeto de Vida.
O franciscanismo é um modo cultural e espiritual de estar
na vida. Não é só aplicação técnica de uma filosofia ou
postura de vida, mas é Arte Divina e Arte Humana, é Lógica
de Amor, isto é, um grande encontro entre o Humano, o Divino
e a Fraternidade. Por isso, o Belo não basta... é preciso
er Bom!
O que faz a pessoa bonita é a bondade. A virtuosidade
é a beleza maior e a mola propulsora de todos os gestos
de amor. O que faz o mundo bonito é a bondade esparramada
de todas as coisas: "louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã
água que é mui útil, humilde, preciosa e casta".
A fecundidade da vida vem desse movimento. A terra boa
é o Coração Belo e Bom. Esta é a síntese da Perfeição. O
Belo é a expressão perfeita do Bem.
O Bom é a plenitude da Caridade. Francisco dá impulso
a esta reflexão. Alexandre de Halles descobre a filosofia
fransciscana da Beleza como difusão do Bem: esta é a estética
do simples.
O invisível, a essência, a medula, a profundidade toma
forma, quantidade, cor e qualidade. Ele sai de si e atinge
o humano. O amor toma forma num corpo. Torna-se figura como?
Com o vigor da Simplicidade, da Transparência e da Palavra.
É preciso para isso saber SENTIR, ESCUTAR E VER! Sensibilidade
à flor da pele, a Palavra nos ouvidos e a Imagem nos olhos.
Perceber e Amar! Escutar e crer! Ver e professar! Daí surgiu
uma boa e bela espiritualidade. Para o franciscanismo ver,
falar e escrever é igual a pintar. É ser um artista que
pinta o mais belo quadro da Paisagem do Humano e da Paisagem
do Divino.
Assim, a Palavra ressoa e refulge, encarna-se, plastifica-se.
Francisco não quer possuir as criaturas mas cantar o Valor
e a Beleza que elas possuem. É a arte de conhecer e reconhecer
os dons e as virtudes da existência. Reconhecer é fazer
então uma nova criação. É perceber que o Belo é alegria
e o Bom uma sabedoria criadora. É ver todo o criado impregnado
de Beleza.
Para o franciscanismo, o humano é a sinfonia de Deus e
por isso deve conquistar a harmonia espelhando-se na harmonia
do Natural.
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