|
A Virgem milagrosa doada
por Frei Galvão
Frei Galvão está estreitamente ligado
ao povo do vale do Rio Piraí, no Estado do
Paraná. Em 1808, Frei Antônio de Sant'Anna
Galvão, já com 70 anos, fora nomeado
visitador provincial dos conventos franciscanos do
Sul.
Saindo de São Paulo, passou por Sorocaba e,
continuando pela estrada dos tropeiros e boiadeiros,
alcançou as margens do Piraí. Lá,
encontrando algumas famílias, fez o que sempre
fazia em suas viagens a pé. Estacionou para
pregar.
Domiciliou-se em casa de Dona Ana Rosa Maria da
Conceição e, por alguns dias, atendeu
o povo. Na despedida, deixou com Dona Ana Rosa uma
estampa de Nossa Senhora, animando-a a confiar na
Mãe Imaculada, intercessora e capaz de todos
os milagres.
Chegou a dizer-lhe que a estampa era milagrosa. A
mulher colou a estampa numa cartolina, escreveu embaixo:
"Lembrança do Frei Galvão"
e a pôs numa moldura de madeira, provavelmente
a moldura de um velho espelho quebrado.E foi diante
dela que Dona Ana Rosa passou a fazer suas orações.
A estampa doada por Frei Galvão é de
uma singeleza absoluta. Mede 10 x 16 cm. No braço
direito, Maria segura o Menino. A mão esquerda
pousa leve e maternalmente no peito de Jesus. O Menino
encosta a face no rosto da Mãe. Os pés
de Maria pousam sobre nuvens sustentadas por três
anjos. Além da auréola, doze estrelas,
que lembram os privilégios de Maria, rodeiam
a figura. Nas duas margens laterais vemos casas pobres
e vasos de flores.
Hoje sabe-se que é cópia da popularmente
chamada em Portugal "Nossa Senhora das Barracas".
E o nome vem do fato de estar a gravura encimada pelos
dizeres latinos: "Sicut Tabernacula Cedar",
ou seja, "Como as tendas (barracas) de Cedar".
A frase é tirada dos Cânticos, do começo
da Canção da Amada: "Sou morena,
porém graciosa como as tendas de Cedar, como
os pavilhões de Salomão".
Os cedarenos eram nômades e costumavam viver
em barracas simples. A frase ligada a Maria recorda
a origem pobre e a insegurança de sua vida.
Mas, de imediato, se recorda a riqueza de Salomão.
Maria se torna a mulher mais rica, a cheia de graça,
por causa do Menino que carrega no braço.
Viúva, Dona Ana Rosa da Conceição
contraiu novas núpcias e mudou de casa. Na
mudança, perdeu o quadro.
Procurou por tudo e não o encontrou. Tempos
depois, passando por uma região que sofrera
grande incêndio, surpreendentemente encontrou
o quadro entre as cinzas e os brotos novos da vegetação:
a moldura queimada, mas a imagem intacta.
A mulher compreendeu que acontecera alguma coisa
de extraordinário. Compreendeu que a estampa
dada por Frei Galvão e por ele chamada de "milagrosa"
devia sair do âmbito familiar para a devoção
pública.
O milagre se espalhou. Os tropeiros contaram adiante
com admiração. A partir de então
os boiadeiros calculavam o tempo em suas viagens para
pernoitarem, eles e seu gado, nas redondezas da capela
que a Virgem recebeu da devoção do povo.
O povo não se lembrou da Nossa Senhora das
Barracas e rebatizou a estampa com o nome de Nossa
Senhora das Brotas, para lembrar que fora reencontrada
intacta entre cinzas e rebentos.
Mas não sabiam que no Alentejo, em Portugal,
desde o século XVI, se venerava uma Virgem
sob o título de Nossa Senhora das Brotas, invocada
sobretudo pelos guardadores de animais.
Tive o privilégio de concelebrar a Missa solene
de inauguração do novo Santuário
de Nossa Senhora das Brotas, em Pirai do Sul, em dezembro
de 1987.
Como o quadro de Frei Galvão fora reencontrado
no dia 26 de dezembro, criou-se o costume de celebrar-lhe
a festa no primeiro domingo depois do Natal.
Uma longa procissão de mais de cinco mil devotos
sai a pé da igreja paroquial do Menino Deus
e caminha cantando e rezando os três quilômetros
até o Santuário, situado romântica
e devotamente em meio ao verde de um bosque e à
sombra de grandes pinheiros.
Que a devoção mariana do novo Beato
nos leve a incrementar no Povo de Deus esse grande
amor a Nossa Senhora, nossa Mãe!
Fr. CLARÊNCIO NEOTTI, O.F.M.
voltar
|