"A Igreja é a revelação,
o lugar do sagrado. O espaço do sagrado e a emergência
do sagrado. A eclesiologia é o modo de como este
espaço se organiza e de como é administrado."
"Cuidar da espécie
humana, hoje, é necessário porque ela
não é prioridade de governos. Eles não
cuidam de pessoas. Eles cuidam de bancos, de Fundo Monetário,
cuidam de estruturas e interesses, mas não priorizam
o humano como a imagem e a semelhança do divino."
INTRODUÇÃO
O enfoque que vou dar é reflexivo,
não tanto de cunho administrativo, embora com provocações
que vão iluminar as práticas de cada uma e de cada
um.
Esse é um dos temas necessários
e importantes. A eclesialidade é um fenômeno do pluralismo.
O porquê deste tema?
Para chegarmos, como diz D. Pedro Casaldáglia,
a uma lucidez crítica. Gostaria também de deixar bem
claro que, cada vez que me referir à experiência religiosa
e à comunidade eclesial, não estou questionando ou
falando da Igreja. Porque Igreja é revelação,
é inspiração. A Igreja vem do Senhor. E ela
está acima da nossa análise. Ela transcende qualquer
postura de análise conjuntural.
Mas eu vou falar de eclesialidade ou eclesiologia,
que é o modo de como a Igreja centraliza e de como ela é
conduzida.
A Igreja é a revelação, o lugar do sagrado.
O espaço do sagrado e a emergência do sagrado.
A eclesiologia é o modo de como
este espaço se organiza e de como é administrado.
Por isso, eu dizia, a Igreja nós
não questionamos, mas a eclesiologia pode ser questionada.
E a reflexão que propomos a partir deste tema está
dentro da proposta da hermenêutica, da Teologia espiritual,
que é o campo no qual me movo mais. A hermenêutica
é a ciência das perguntas. Como diz Guimarães
Rosa tem de todas as coisas. Vivendo se aprende, mas o que se aprende
mais só a partir de perguntas.
Queria também cumprimentar vocês, os párocos,
sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos e leigas, que trabalham
na animação da vida paroquial. Vocês representam
uma encarnação vivencial de uma eclesiologia que se
faz presente.
A paróquia se estende muito além
das fronteiras, dos limites geográficos de onde cada um e
cada uma. A paróquia se estende muito além das fronteiras
humanas e sociais da comunidade e, por isso, é preciso ter
em mente um conjunto de movimentos de acontecimentos que atravessam
toda a história.
Diz um teólogo que cada um lê
com os olhos que tem e interpreta a partir dos pés onde pisa.
Então, é preciso compreender o mundo e dialogar com
esse todo da história.
Contribuir, como vocês estão fazendo, e viver a dimensão
paroquial de como é a proposta deste seminário: administração
paroquial e das casas religiosas.
Por isso, no primeiro momento, tenho de
parabenizar vocês. Por quê? Por que vocês estão
cuidando da espécie humana a partir da proposta religiosa
e do lugar religioso. Cuidar da espécie humana, hoje, é
necessário porque ela não é prioridade de governos.
Eles não cuidam de pessoas. Eles cuidam de bancos, de Fundo
Monetário, cuidam de estruturas e interesses, mas não
priorizam o humano como a imagem e a semelhança do divino.
Eu queria parabenizar vocês pelo
tempo, pela coragem, pela dedicação, pelo paciente
trabalho de estar aqui ouvindo todas as reflexões deste seminário.
Porque, assim como vocês, muita gente veste a camisa da militância
e fomentos e vão cuidar, preocupadíssimos, da extinção
do Mico-Leão Dourado, da Ariranha Azul, da Jabutinga, tartaruga
marinha, tantas espécies da fauna e da flora. E da espécie
humana quem está cuidando?
Então, a eclesiologia também
tem a ver hoje com esse cuidado da convivência humana solidária.
Vocês não estão aqui por acaso. Vocês
administram um espaço de acolhimento do humano. E a partir
disso levam o seu projeto diocesano, pastoral, evangelizador, religioso,
com o carisma fundacional, a mística, a espiritualidade.
Por isso, vocês são os últimos
resistentes de uma trincheira, de uma luta para recolocar a humanidade
novamente em pé. Então, o espaço que vocês
administram, como já dizia, é realmente a convivência
humana solidária.
Por isso é importante que este tema proposto entre nessa
visão crítica e globalizada em que nós vivemos.
Porque hoje, administrar, vivenciar uma casa e lugar religioso implica
também numa formação interdisciplinar profunda.
E essa é a preocupação deste seminário.
Aumentar a sensibilidade para com a humanidade, especialmente para
com os que sofrem e são excluídos.
Ainda nesta semana (primeira semana de
setembro) nós tivemos o Grito (Grito dos Excluídos)
daqueles que hoje não participam de certos privilégios
da convivência. E, sobretudo, aqueles que são excluídos
de megaprocessos. E nós não estamos, mesmo no espaço
paroquial de nossas casas religiosas, longe das vítimas de
certos megaprocessos? É aí que temos de buscar novas
fontes de pregação, evangelização, de
atuação, de presença, de pastoral, de acolhimento.
E quem sabe esta não seja a proposta do fortalecimento de
uma espiritualidade? Porque todos vocês são a encarnação
da espiritualidade da acolhida.