"Ou nós valorizamos
o encontro com a pessoalidade ou nós vamos continuar
queimando mendigos, matando centenas de crianças"
"Comunhão é
encontro de diferenças. Quem não tem consciência
da própria e rica identidade não é
digno de identidade. Então, apaixone-se profundamente
pela sua religião, pela sua obra, pelo seu trabalho,
pela sua casa, mas acolha o outro"
A CRISE DA ALTERIDADE
O que significa isso? Pessoa que está
abaixo do nosso nível nem sempre é levada em conta
na sociedade. Quem cumprimenta garçom, quem cumprimenta ascensorista,
quem valoriza serviços gerais, quem sabe o nome da pessoa
que fez a limpeza desta sala. Pessoas precisam de crachás
para dizer que são alguém. O mercado, sabendo da nossa
deficiência, criou este gesto aqui: "o garçom,
traz mais uma". E o mercado transformou isso em símbolo
de cerveja. E você chamava o outro como se ele fosse alguma
coisa e não alguém.
A questão da alteridade é
uma questão profunda. Ou nós valorizamos o encontro
com a pessoalidade ou nós vamos continuar queimando mendigos,
matando centenas crianças. Cada vez mais a pessoa se estrutura
dentro de um contato urbano. Existe um escritor brasileiro, Jorge
Amado, que é mais conhecido que Paulo Coelho, e é
traduzido no mundo inteiro. Por que ele é traduzido. Porque
nos romances, o menor é herói, o negro é herói,
a prostituta é personagem, o pai-de-santo não é
um feiticeiro mas é o babalorixá da comunidade litúrgica.
Gente que vive a lei do santo. Não
se esqueça que você, no espaço da paróquia
e na casa religiosa que você trabalha, está dentro
do espaço do brasileiro. E o brasileiro tem a cultura da
sedução e não pode ficar sem uma liturgia sedutora.
O Brasil nunca teve filosofia. Nós sabemos que sempre matapeamos
em cima da filosofia alemã e européia. Mas nós
temos uma filosofia de identidade, uma história de sentimento.
É o lugar no mundo onde a mestiçagem faz parte da
nossa história e onde deu certo. Isso vale para todos. Alemão
com francês é mestiço. E nós não
colocamos a palavra mestiço no censo? Nós não
trabalhamos com o povo marginal, mas esse povo marginal busca o
espaço de nossas casas para ali mostrar a sua cultura religiosa,
a sua expressividade. Ele sonha dormir anônimo e acordar célebre.
Nós temos que aprender com Guimarães Rosa: sertanejo
não é sub-raça. Nós temos que aprender
isso. O Brasil é o grande espaço da alteridade.
Até o nosso jovem sabe disso. Ele
tem uma atração muito grande pelo encontro, pela vida,
pela imagem. Dentro do espaço de sua paróquia ou casa
religiosa, o outro pode ser zoom de onde pode ver-se e olhar a vida
e, olhando a vida, colocar a verdadeira palavra. Senão, ele
vai sair de seu espaço e vai para a cultura do futebol, muito
mais democrática, porque o estádio une a todos na
mesma paixão. Nós vivemos com o povo de artistas,
um povo cheio de humor. Humor faz parte do seu sentimento. Humor
não precisa ser explicado, não existe nota de rodapé.
O nosso Brasil é grande e por
isso é cheio de contradições. Mas tem uma língua
feita de três raças. Uma língua que veio dos
mares, uma língua de navegantes, que recolheu palavras e
deixou palavras. Para uma grande comunicação de olhar
nos olhos, de fazer a festa, de valorizar a pessoalidade. É
um milagre fazer um povo falar. Deixem-no espaço de vocês,
administrem a fala das pessoas.
Aqui, existe a mística da uma nova sensibilidade. Betinho
dizia um pouco antes de morrer. O problema do Brasil não
é miséria, não é fome, mas falta da
sensibilidade. Que as mulheres nos ajudem a resgatar isso.
Para concluir, vou entrar nesse ponto
do pluralismo intercultural religioso. O diálogo inter-religioso.
Isto é algo de fundamental importância. Por quê?
A pós-modernidade nos trouxe uma
religiosidade difusa. Trouxe para nós a expansão vertiginosa
do fenômeno neopentecostal, mas trouxe para nós também
a perda de valores, de sentidos e, como eu dizia, a civilização
do vazio.
E esse resgate está, agora sim,
nas eclesiologias, nos espaços religiosos. Só que
o grande problema do diálogo inter-religioso com a atenção
pluralista é que as religiões andam muito distantes
de tudo. A pluralidade era algo que se ouvia falar, mas não
se via. Mas hoje nós se acotovelamos em tantas experiências,
culturais e religiosas.
O cristianismo coincidia com a cultura.
Então, por que questionar a identidade se nós nascemos
dentro dela? Não havia necessidade de se aprofundar a identidade.
Mas o diálogo inter-religioso nos trouxe, sim, a pluralidade.
Porque a pluralidade é a grande ocasião do resgate
da identidade, porque é o momento de graça, sim. Não
de proselitismo, não de bairrismo religioso. Mas de diálogo.
Se existe uma coisa que nós temos
de administrar é o diálogo. O cristianismo gerou o
diálogo. Ele nos ensinou que nada está pronto. É
preciso encontrar a medida certa. A própria teologia não
nasceu pronta no Sermão da Montanha. Jesus viveu a vida toda
tirando do vale de lágrimas a montanha das bem-aventuranças.
O cristianismo soube sempre se enriquecer.
A religião que tem grande patrimônio, ela não
pode se queixar. Então, o pluralismo é o grande momento
do resgate do diálogo.
É difícil para religiões dominantes, dominadoras
- porque somos mestres em impor - administrar e não impor.
O cristianismo foi minoria e quando se tornou maioria, correu o
risco de cometer os mesmos erros dos Impérios.
E se nós voltarmos a ser minorias?.
Nós temos de pensar com mentalidade das minorias. E a minoria
cresce no diálogo e no respeito. Mas que diálogo é
este? O diálogo inter-religioso.
O pluralismo cultural inter-religioso
nos ensina que o diálogo é manter a tensão
de colher o diferente e sair mais convencido da minha identidade.
É ser provocado pela riqueza do outro. O outro me interpela.
O diálogo inter-religioso e o pluralismo religioso são
muitos provocadores. Porque o respeito da diferença é
um dom. Comunhão que nós traduzimos sempre como "comum-união"
está errado. Porque pelo latim é "cum múnus".
Significa cada um com o seu papel, com a seu munus, com a sua diferença.
Comunhão é encontro de diferenças. Quem não
tem consciência da própria e rica identidade não
é digno de identidade. Então, apaixone-se profundamente
pela sua religião, pela sua obra, pelo seu trabalho, pela
sua casa, mas acolha o outro.
Hoje, nós estamos retornando ao devocional, a uma religiosidade
à flor da pele, mas isso não pode ser superficial.
Vocês mesmo, no espaço de vocês, sabem que nosso
povo vai atrás de Santo Expedito, de Santa Edwirges, de Nossa
Senhora Desatadora de Nós, de tantos santos. O santo interessa
de acordo com sua necessidade. Cada santo tem a sua repartição.
Há um interesse pessoal e um interesse pessoal cria um milagre.
A religião está ligada à
satisfação de necessidades imediatas só que
ninguém sabe nada da vida dos santos. Todo mundo é
devoto de Santo Expedito mas quem conhece a vida dele?
Porque todo mundo faz apelo ao santo mas
refazer o caminho ninguém está fazendo. Porque experimentar
a experiência religiosa, refazer o caminho do santo, sem comunhão
não há intercessão.
Jesus sempre se revelou na paixão
da sua identidade. Quem o vê, vê o Pai. Não é
o toma-lá-da-cá de uma teologia da prosperidade. Deus
não castiga ninguém. Não é só
falar aquilo que a mídia quer que você fale. Se Jesus
tivesse seguido isso não teria morrido com 33 anos.
Não perder a denúncia profética.
Onde está a fé pode estar o mártir, mas não
tenha medo de iluminar . No espaço onde você está,
ajude o nosso povo a viver a dimensão da palavra. A Bíblia
não é um símbolo mágico. Hoje se fala
muito da Bíblia mas ela está fechada. Vocês
podem perceber. Nas madrugadas das televisões, todo mundo
falando com a Bíblia na mão. Mas ela está fechada.
Tem medo de abrir porque ela tem um conteúdo ético.