| FREI BRUNO: TRAÇOS
MARCANTES DO GENUÍNO FRADE MENOR
Por Frei Elzeário Schmitt
Poucos são, de certo, os confrades da
época que não chegaram a conhecer
Frei Bruno. Quem o conheceu concordará
comigo que sua personalidade foi uma reprodução
fidelíssima das páginas mais inspiradoras
dos "Fioretti". Simples, pobre, humilde,
zeloso, e caridoso em grau impressionante, retratando
de maneira fiel os traços mais marcantes
de genuíno frade menor segundo o modo
de São Francisco. Falando em Frei Bruno,
não cabem palavras difíceis. Nem
pretendo expor todas as minúcias tão
simpáticas quão edificantes de
sua abençoada carreira. Dou, apenas,
em rápidos e leves traços, os
dados importantes do seu "curriculum vitae"
(fornecidos pelo Provincialado), para logo em
seguida condensar a impressão que ele
nos deixou nestes últimos anos de íntimo
convívio na residência dos frades
de Joaçaba.
O Noviciado no navio
Filho de Humberto Linden e Cecília Goelden,
nasceu Humberto Linden Jr. (mais tarde Frei
Bruno) em Duesseldorf, na Alemanha, a 8 de setembro
de 1876. Com quase 18 anos de idade, ingressou
no Noviciado dos Franciscanos da Saxônia,
em Harreveld, na Holanda. Tomou hábito
em 13 de maio de 1894. O famoso padre-mestre
Frei Osmundo Laumann deixou-lhe lembrança
indelével nas poucas semanas que passou
debaixo de sua tutela. Nem bem chegaram ao Noviciado,
foram destinados para a "Missão
Brasileira", estando entre eles Frei Bruno.
Trocaram o convento por um navio transatlântico
que os levou à Bahia. Aportaram em Salvador
aos 12 de julho de 1894. Em terras baianas,
Frei Bruno completou o Noviciado, saiu-se ileso
da febre amarela, estudou Filosofia e Teologia
e fez profissão solene no dia 19 de maio
de 1898. Em seguida, ao virar o século,
foi enviado para Petrópolis, onde foi
ordenado sacerdote em 10 de maio de 1901 e aprovado
para a cura d'almas em fins do mesmo ano.
O jovem padre permaneceu ainda mais dois anos
em Petrópolis. Em 1904 foi transferido
para Gaspar, primeiro como superior e pároco
até 1906, continuando no mesmo lugar
mais três anos como coadjutor. A próxima
transferência levou-o a São José,
na modesta função de coadjutor
e bibliotecário; mais tarde, isto é,
desde 1914, como vigário da paróquia.
Em 1917, tocou-lhe a incumbência de superior
e vigário na residência riograndense
de Não-Me-Toque.
Entre 1926 e 1945 teve uma prolongada estadia
em Rodeio, convento do Noviciado, onde quase
todo o tempo era guardião e vigário,
enquanto o permitiam as constituições
e intercalados os devidos interstícios
de vacância de cargos. Durante quase 20
anos edificou sem cessar o povo de fora e os
religiosos de dentro com seu exemplo de autêntico
frade menor e arauto de Cristo. Este período
mereceria um artigo à parte de quem com
ele conviveu por mais tempo. Basta dizer aqui
que dificilmente as instruções
do Pe. Mestre aos noviços encontrariam
ilustração concreta e exemplo
vivo mais imponente que na pessoa do santo Frei
Bruno.
A última morada terrestre
O Capítulo Provincial de 1945 destacou-o
de Rodeio para Esteves Júnior. Lá
permaneceu só poucos meses, pois no fim
do mesmo ano foi designado superior e pároco
de Xaxim. Completou dois triênios à
frente da casa, continuando no mesmo lugar como
coadjutor até 1956. Octogenário,
acabado e encarquilhado foi parar em Joaçaba,
sua última morada terrestre.
Depois do Capítulo Provincial de 1956,
a conselho do ministro provincial, Frei Bruno
foi para Luzerna a fim de passar uma temporada
de repouso, ou, como ele mesmo entendia, preparar-se
para a morte. Não era para menos. A velhice,
as forças gastas e o corpo alquebrado
pressagiaram o fim da jornada. Duas hérnias
e, por conseguinte, duas cintas davam-lhe bastante
que fazer e sofrer. Todavia pensava também
em trabalhar, em continuar suas caminhadas para
espalhar o bem a todos. Em pouco tempo escasseou
o serviço em Luzerna e, a pedido dos
confrades, foi passar uns dias em Joaçaba,
onde descobriu novas oportunidades de apostolado.
Voltou a Luzerna sem dizer nada, mas quatro
dias depois apareceu outra vez em Joaçaba,
disposto a ficar. Era o dia 2 de fevereiro de
1956.
A volta de Frei Bruno foi naturalmente uma grande
alegria para nossa pequena comunidade. Todos
nós apreciávamos a graça
de ter um santo em casa, e um santo que trabalha
sem dar trabalho. Os últimos quatro anos
em Joaçaba não foram mais do que
a continuação de um apostolado
que Frei Bruno vinha praticando há muitos
anos.
Quem conheceu Frei Bruno sabe de sua predileção
irresistível por longas e continuadas
caminhadas "pedibus apostolorum".
De fato, de manhã à noite, mantinha-se
em movimento. Brincando com ele, chamamo-lo
muitas vezes de cigano sem paradeiro nem sossego.
Caminhava, visitando as famílias, benzendo
as casas, descobrindo uniões a legalizar,
consertando lares em desarmonia, visitando os
doentes, sempre no mesmo ritmo incansável,
morro-acima e morro-abaixo. Subindo pelas ladeiras,
costumava andar em ziguezague a fim de aliviar
o velho coração.
Nos primeiros meses ainda visitava as capelas
de Santa Helena e de Nossa Senhora da Saúde,
capelas por onde passa a linha de ônibus.
Mais tarde, notando a nossa preocupação,
desistiu espontaneamente. Em seguida ocupou
o cargo de capelão do Ginásio
Frei Rogério, a cargo dos Irmãos
Maristas. Atendia às confissões
dos irmãos e juvenistas. Terminada a
santa missa, Frei Bruno dava as suas voltas,
chegando à casa um pouco antes do meio-dia,
quase sempre a pé, empunhando o guarda-chuva,
seu fiel e inseparável companheiro. Depois
do almoço "descansava" na igreja,
apoiando a cabeça na mesa do altar de
Nossa Senhora, rezando, ou, então na
salinha da portaria, onde atendia às
pessoas que o procuravam ou que ele havia chamado.
Interessou-se pelos detidos. "Pe. Praeses,
será que posso pedir dinheiro a algumas
pessoas para comprar uma bola"? - "Para
quê"? - "Para os presos".
E lá vai ele: pede o dinheiro, compra
a bola e a leva à cadeia, arrancando
ainda do delegado a licença para os coitados
jogarem futebol no pátio do presídio.
"Pe. Praeses, posso tirar tintas para os
presos pintarem a cadeia que está imunda"?
"Pe. Praeses, na cadeia não tem
luz. Posso levar uns maços de velas"?
Também tinha sempre em volta de si um
grupo de crianças pobres, às quais
dava a doutrina e às vezes também
pão e outros petiscos que depois faziam
falta à mesa.
Frei Bruno cuidava da água benta e conservava
uma talha sempre cheia na igreja, ao lado do
batistério. Aos sábados, vindo
os pobres para receber os mantimentos, iam beber
a água benta de Frei Bruno que não
gostava desse modo de matar a sede. Porém,
dizia: "Paciência! As criancinhas,
coitadas, estão com sede".
Frei Bruno, pedestre convicto, não se
entusiasmava pelos meios de transporte modernos.
"Frei Bruno, não gostaria de dar
um passeio de avião"? - Não,
não, não! Imagine o que vai acontecer
se faltar um parafuso"!
Os dias iam passando. O Ginásio Frei
Rogério recebeu novo capelão,
e Frei Bruno foi aposentado. Estava na hora.
Pois caminhar se lhe tornava mais custoso e
também a vista ia enfraquecendo casa
vez mais. A partir de 1958, Frei Bruno celebrava
sua santa missa às 5h30 no altar de Nossa
Senhora. Aí, ele dava a comunhão
às pessoas que madrugavam. Após
a missa, no confessionário, era sempre
procurado. O confessionário de Frei Bruno
era uma armação muito simples
com grade, de um lado a cadeira de confessor,
do outro lado o banquinho de ajoelhar para o
penitente. Terminando com as confissões,
Frei Bruno costumava ajoelhar-se naquele banquinho.
Volumosa era a correspondência que Frei
Bruno recebia. Uns pediam uma bênção,
outros a saúde para um doente, ouros
ainda sorte nos negócios ou bênção
contra ratos no paiol ou contra os bichos na
roça. A princípio, Frei Bruno
respondia religiosamente a todas estas cartas,
mas à medida que se lhe ia enfraquecendo
a vista, ia desistindo da correspondência.
Em 3 de julho de 1959 celebrou pela última
vez a santa missa. A partir daquele dia comungava
às 5h30, e depois ia ao confessionário.
Já não saia mais à rua,
mas continuava as audiências na salinha
da portaria que, por brincadeira, apelidávamos
de "conclave".
Em 25 de outubro, na companhia de Frei Serafim,
Frei Bruno deu o último passeio a Luzerna,
a fim de tratar de assuntos da Pia União
de Missas de Ingolstadt. Tanto em Luzerna como
em Joaçaba, Frei Bruno exercia um belo
apostolado em prol da dita União de Missas.
Em 20 de novembro, voltando da cidade, encontrei
Frei Bruno na sala da portaria, desmaiado, pálido
e frio. Eu estava certo de que a morte afinal
viera buscá-lo. Levamo-lo à cela,
e deitamo-lo na cama. Imediatamente veio o médico
prestando a assistência indicada. Já
ao meio-dia, nosso doente estava de pé,
meio tonto ainda, mas animado. A partir daquela
dia, Frei Bruno andava muito preocupado com
a morte. Em curto prazo, por duas vezes recebeu
a Extrema-Unção.
Entrando em 1960, ouvíamos diariamente
a mesma ladainha: "Hoje vou morrer".
Chamava o viático sua comunhão
diária. Até deixava de se alimentar
convenientemente e foi preciso, em nome da santa
obediência, obrigá-lo a comer.
Aí se normalizou a situação,
pois Frei Bruno dizia sempre: "Quem não
obedece aos superiores vai para o inferno"!
A obediência cega do santo confrade deu
também fim a uns tantos escrúpulos
e complexos de consciência.
As sandálias lhe ficavam pesando muito
e Frei Bruno calçou uns chinelos leves
e caminhava que nem velho colono italiano. Achou
pesado o rosário das sete alegrias e
pediu licença para usar um rosário
pequeno no cordão do hábito. Entretanto
dias depois apareceu outra vez com a grande
coroa, dizendo: "Acho que é uma
ofensa a Nossa Senhora andar sem o rosário".
No último mês teve que usar bengala
para caminhar. Até o último dia
atendeu as confissões e deu audiência
na sua salinha.
A morte de Frei Bruno paralisa a cidade
No dia 24, voltando do colégio das
Irmãs, não encontrando Frei Bruno
nem na sacristia, nem na portaria, nem no refeitório,
foi ao quarto dele onde o encontrei morto. Segundo
o médico, que veio depois, a morte devia
ter ocorrido umas duas horas antes.
Rapidamente se espalhou a notícia do
falecimento. Escusado dizer que a consternação
foi geral. As duas emissoras de Joaçaba,
a todo o momento, repetiam a triste nova, dando
também notícias biográficas
acerca do confrade. Ao meio-dia, o corpo foi
colocado na igreja e velado sem interrupção
até o dia seguinte. Veio muita gente,
e houve muitas lágrimas.
Dia 26 de fevereiro, o comércio e a indústria
fecharam em sinal de luto. Às 8 horas
houve missa de corpo presente.
A espaçosa matriz mostrou-se pequena
para acolher tanta gente. Vieram para as exéquias
os confrades de Luzerna, Jaborá, e Xaxim.
No enterro contaram-se 120 carros. Foi o maior
enterro que já houve em Joaçaba.
No dia seguinte, em sessão da Câmara
Municipal, os vereadores lançaram em
ata um voto unânime de pesar pela morte
de Frei Bruno e, em sinal de luto, suspenderam
em seguida os trabalhos.
Os motoristas de Joaçaba renderam homenagem
particular à memória de Frei Bruno,
organizando um grande cortejo, rumando, de noite,
à matriz onde todos, ajoelhados na escadaria
da Igreja rezaram pela alma de Frei Bruno, e
em seguida prosseguiram na sua peregrinação.
Já se preparava campanha pela praça
e monumento de Frei Bruno em Joaçaba.
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