Por Frei João Mannes, OFM
O tempo litúrgico da Quaresma sugere-nos fazer algumas considerações à luz de uma das páginas mais comoventes da Sagrada Escritura: a Parábola do Filho Pródigo (Lc 15,11,32). Conforme relata o texto bíblico, “o filho mais jovem juntou tudo e partiu para uma terra distante”, onde vivendo dissolutamente, tudo perdeu e, absolutamente sem nada, decidiu voltar para a casa do pai.
O filho mais jovem saiu de casa. Certamente, deixar a casa paterna é muito mais do que um acontecimento histórico limitado a tempo e lugar. Sair de casa com toda a sua herança é negar enfaticamente os laços de pertença a uma família, bem como aos valores éticos e religiosos cultuados no seio da mesma; sair de casa é refugiar-se no “distante país” da afirmação unilateral da própria vontade, à mercê dos seus perversos desejos de domínio e de fruição. Enfim, sair de casa é cair no esquecimento de sua condição original de filho e irmão e da fonte doadora de todos os bens, apropriando-se indevidamente deles.
É interessante observar que o pai, por amor ao filho, não o impede de distanciar-se da casa e do pai, mesmo correndo o risco de perdê-lo definitivamente. Ele deixa-o livre para que, desimpedido de tudo, pudesse sentir o quanto é amado pelo pai e quisesse livremente corresponder a esse amor. De fato, o pai não quer que seus filhos o amem apenas com os lábios, ou de maneira forçada, enquanto seus corações permanecem distantes (Cf. Mt 15,8).
Por conseguinte, o pai quer que seus filhos sejam livres, pois o bom agir, o agir reto e honesto pressupõe a liberdade. Essa mesma liberdade, porém, também lhes dá a possibilidade de escolher a morte ao invés da vida, isto é, de “partir para uma terra distante” e ali dissipar toda a herança de que se apropriara até ficar sem nada, sem roupa, sem dinheiro, sem saúde, honra e reputação, sem amor próprio, sem paz e alegria interior. Assim, o filho que outrora saíra de casa para ser o patrão de si mesmo e de todos os seus bens, vê-se, agora, obrigado a ser escravo de um patrão numa terra estrangeira, onde até os porcos (morada dos demônios) lhe causam inveja (Cf. Lv 11,7; Lc 8,32-33). De fato, não podia alimentar-se nem mesmo do que os porcos comiam. Todavia, não é de se admirar que uma vida vivida tão dissolutamente acabasse em fome: “Depois de gastar tudo, sobreveio uma grande fome àquela terra e ele começou a passar necessidade” (Lc 15,14).
O filho, destituído de tudo, até mesmo de sua própria vontade fracassada, começou a passar necessidade. Certamente o filho sentiu-se impelido sobretudo pela necessidade de entrar novamente em contato com o seu ser mais íntimo e re-descobrir-se como um ser humano, como um filho de seu pai. A noção de perda total dos bens e de vazio de sentido na vida fez o filho “cair em si” e recordar-se de que ainda não havia perdido a condição de ser filho de seu pai. A lembrança dessa filiação persuadiu-o a voltar. Como não se reconhecia mais digno de ser chamado de filho, diz de si para si mesmo: “Vou partir em busca de meu pai e lhe direi: pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado de filho. Trata-me como um dos empregados” (Lc 15,18-19). Assim, colocando-se de pé, o filho voltou para a casa do pai disposto a confessar-lhe sua iniqüidade. Todavia, para a sua surpresa, o pai, assim que o vê ao longe, sai-lhe ao encontro como se os pensamentos que o filho tinha em seu coração já fossem do conhecimento do pai. O filho faz a comovente descoberta da misericórdia sem medida do pai. Que significa “correr ao encontro” senão antecipar-se pela misericórdia? Pois, “estava ainda longe, o pai o viu e, comovido, lhe correu ao encontro” (Lc 15,20). Evidencia-se assim quão próximo está Deus dos que trituram seu coração (Cf. Sl 34,19), porque o amor não conhece distâncias.
Enfim, o filho, ao entrar em si mesmo, na intimidade do seu ser e da sua consciência, percebeu quão distante estava de si mesmo, de sua própria casa e do pai. Ao entrar em si mesmo, encontrou-se miserável e, do abismo de suas angústias, emergiu uma autêntica oração: “experimentei tristeza e aflições e invoquei o nome do Senhor” (Sl 116,3-4).
Portanto, o filho, antes de re-encontrar-se com o pai, encontrou-se consigo mesmo. O encontro consigo mesmo levou-o à re-descoberta de sua origem in Deum. Assim, a volta do filho para casa torna-se o itinerário de todos os filhos e filhas de Deus para dentro do mistério humano e divino, conforme a exortação que Jesus faz a Nicodemos: “quem não (re)nascer do alto, não poderá ver o reino de Deus” (Jo 3,3). No aconchego da casa do pai, “nascidos de novo” a partir do Espírito, ouvem-se as amorosas palavras: “Filho, (...) todos os meus bens são teus” (Lc 15,31), mas nós somos de Cristo e Cristo é de Deus (Cf. 1Cor 3,22-23).
Para o místico franciscano S. Boaventura, “entrar em si mesmo” não equivale a uma mera introspecção psicológica. Pois, no processo de interiorização, o ser humano não se dispõe a algo objetivamente prefixado, mas ao seu ser mais íntimo, irredutível a qualquer objetivação. Entrar em si mesmo é despojar-se de todas as coisas exteriores e de si mesmo para, no reino da liberdade, achegar-se ao portal de sua origem: Deus. Deus habita, sim, no mais alto dos céus (supra nos), mas sua morada é também o íntimo mais íntimo do coração humano (intra nos). No “fundo da alma” arde e resplende a centelha divina. Por isso, quando o homem mergulha no seu mundo interior na busca de Deus, transcende a si mesmo e encontra, em si mesmo e para além de si mesmo, o Deus de quem ele é a imagem e semelhança. Ou melhor, o humano descobre-se filho criado à imagem e semelhança do Filho eterno. Por isso vigora em nós uma capacidade de relacionamento infinito com Deus e de acolhida irrestrita da divindade em nós e em todos os seres do universo.
No livro A Volta do Filho Pródigo (São Paulo: Paulinas, 2007), o autor Henri J. M. Nouwen, faz uma interessante reflexão sobre Jesus como o Filho Pródigo. Por nossa causa, Jesus deixou a casa de seu Pai celeste, veio a um país distante, desfez-se de tudo o que possuía, e por meio da cruz voltou à casa do Pai. Ele tornou-se o Filho Pródigo para trazer de volta todos os filhos e filhas de Deus que se encontram perdidos. A título de maior explicitação dessas idéias também nós aqui reportamo-nos ao belíssimo texto de Frère Pierre Marie:
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“Ele, que é nascido não da espécie humana, do desejo ou da vontade da carne, mas do próprio Deus, um dia chamou a si tudo o que estava debaixo dos seus pés e partiu com sua herança, seu título de Filho e o preço do resgate. Partiu para um país distante... a terra longínqua... onde se tornou como são os seres humanos e esvaziou-se. O seu povo não o aceitou e seu primeiro berço foi um berço de palha! Como uma raiz num chão árido, cresceu diante de nós, foi desprezado, o mais ínfimo dos homens, diante de quem escondemos a nossa face. Bem cedo, ele conheceu o exílio, a hostilidade, a solidão... Depois de ter perdido tudo numa caminhada de total doação, seu valor, sua paz, sua luz, sua verdade, sua vida... todos os tesouros de conhecimento e sabedoria e o mistério escondido mantido secreto por tempos sem fim; depois de ter-se perdido entre os filhos transviados de Israel, passando seu tempo com os doentes, “não com os afortunados”, com os pecadores “e não com os justos”, e até com as prostitutas a quem prometeu entrada no reino de seu Pai; depois de ter sido tratado como glutão e bêbado, como amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores, como um Samaritano, um possesso, um blasfemo; depois de ter ofertado tudo, até o seu corpo e seu sangue, depois de ter sentido profunda tristeza, angústia e a alma dilacerada; depois de ter chegado ao limite do desespero tão bem expresso na cruz, onde o Pai o teria abandonado, distante da fonte de água viva, e de onde, crucificado, Ele exclama: “Tenho sede”. Desceu à mansão dos mortos e, então, ao terceiro dia, levantou-se das profundezas do inferno carregando os crimes de todos nós, nossos pecados, nossos sofrimentos. De pé, exclamou: “Sim, estou ascendendo ao meu Pai e ao seu Pai, ao meu Deus e ao seu Deus”. E subiu aos céus. Então, no silêncio, olhando para seu Filho, e todas as suas criaturas, uma vez que o Filho tinha se tornado tudo em todos, o Pai disse aos seus servos: “Depressa! Tragam a melhor veste e o cubram, ponham um anel em seus dedos e sandálias em seus pés, vamos comer e festejar! Porque os meus filhos que, como vocês sabem, estavam mortos voltaram à vida; estavam perdidos e foram encontrados! Meu Filho Pródigo os trouxe todos de volta”. Eles todos começaram a festejar vestidos em seus trajes longos, que se tornaram imaculados no sangue do Cordeiro”. |
O Filho de Deus encarnado é, portanto, o Filho Pródigo, do Pródigo Pai, que despendeu tudo o que o Pai lhe havia dado para que cada um de nós pudesse tornar-se filho como Ele, e com Ele voltar à casa de seu Pai e nosso Pai, seu Deus e nosso Deus. O Filho de Deus, assumindo a condição humana, chama todos os filhos e filhas de Deus e, através deles, toda a criação, à comunhão consigo, princípio e habitáculo originário da vida de todos os seres do universo. O que ainda seremos como filhos e filhas de Deus ainda não se manifestou em plenitude. Sabemos, porém, que “por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2).
Frei João Mannes, OFM, é Doutor em Filosofia e leciona no Instituto de Filosofia São Boaventura, em Curitiba (PR)
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