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"Por força das presentes, declaramos que
está concluída a restauração das
mencionadas Províncias de Santo Antônio e da
Imaculada Conceição... Temos grande esperança
de que as Províncias restauradas produzirão
abundantes frutos..."
(Decreto de Restauração, 14/09/1901)
Faz dez anos celebramos solenemente, na Província,
o centenário da acolhida dos primeiros missionários
restauradores alemães pelos habitantes de Teresópolis/SC,
no dia 10 de julho de 1891. A intenção dos primeiros
Frades alemães era reimplantar a Ordem, independentemente,
se mediante a antiga Província ou uma nova entidade.
Imaginavam ser difícil uma identidade de idéias
e comunhão de práticas conventuais entre eles
e o remanescente único da velha Província, Frei
João do Amor Divino Costa, com domicílio legal
no Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro, mas residente
com seus familiares à Rua da Carioca, nº 79, e
depositário último da instituição,
com sua história, seu ideário e projeto de vida
e missão franciscana.
Os Frades alemães da Saxônia observavam a reforma
chamada de "recoleta", e a Província brasileira
fora fundada pelos portugueses seguidores da reforma de São
Pedro de Alcântara, sendo os Frades conhecidos como
"alcantarinos" ou "descalços".
Além disso, a fama de decadência de costumes
dos eclesiásticos do Brasil no fim do império
punha no mesmo saco os religiosos e os diocesanos. Lembro-me
de ter ouvido de Frei Hugo Fragoso, nosso confrade historiador
da Província de Santo Antônio, um relato de um
Visitador canônico de Roma dando conta de que, como
resultado de sua visita à América Latina, concluíra
que no Chile entre os religiosos e os diocesanos, uns são
melhores do que outros, na Argentina, outros, do que uns,
e não Brasil não se salvavam tanto uns quanto
outros.
Frei Hugo diz que o preconceito era geral: "Diante da
situação, muitas vezes lastimável, em
que se encontrava o clero brasileiro, passou este a ser olhado,
por parte dos Religiosos europeus, com forte suspeição".
A desconfiança ia mais a fundo, pondo em dúvida
a idoneidade do brasileiro para a vida religiosa: "Igualmente,
achavam os Religiosos europeus, de modo geral, que os brasileiros
dificilmente se adaptariam às exigências da vida
religiosa. Exceção se fazia para os descendentes
de imigrantes, sobretudo, alemães e italianos".
Os missionários alemães, chegando ao Brasil,
ao descerem de Salvador a Santa Catarina, passaram uns 5 dias
no Rio de Janeiro. Se em Salvador foram hóspedes dos
Frades do Convento de São Francisco, no Rio hospedaram-se
no Seminário dos Padres Lazaristas. Frei Humberto Themans,
o escriba do primeiro grupo de missionários alemães
que relatou a viagem ao Brasil e o começo da missão,
escreve que passaram aqueles dias reclusos no Seminário,
sendo aconselhados pelo Pe. Hehn, lazarista alemão
de Colônia, a não fazerem passeios pela cidade,
"devido à atitude do povo na nova República",
que, como se sabe, fora fundada sob inspiração
positivista e maçônica. Frei Humberto não
dá nenhuma notícia a respeito de Frei João
do Amor Divino, nem fala de ao menos terem visto, ainda que
à distância, o imponente Convento de Santo Antônio,
próximo do cais do porto. Ao dirigirem-se ao porto
para tomar o navio, rumo ao sul, escreve que percorreram às
pressas ruas sujas e pouco atrativas que "não
deixam lembranças agradáveis". Mas atesta
um encantamento da cidade ao fazer esse registro: "inesquecível
porém permanece a visão da cidade vista do mar,
como o porto com sua vida e seus arredores".
De fato, é de se supor que nem os quatro frades alemães
estavam interessados em se encontrar com Frei João
do Amor Divino, nem Frei João do Amor Divino interessado
em recebê-los. As suspeitas deveriam ser recíprocas.
Talvez se perguntasse o frade brasileiro o que viriam fazer
por aqui aqueles preconceituosos frades loiros, bárbaros
descendentes de ostrogodos e visigodos mal vestidos com o
burel de São Francisco? Expressando as suspeitas dos
alemães, Frei Humberto registra que "surgiram
dificuldades nas negociações com os antigos
frades no Brasil que ainda viviam nos Conventos. Entre outros
motivos, davam precedência aos padres brasileiros e
frades franceses, ao passo que Roma confiou a missão
a nós, alemães". E a orientação
dada pelo Provincial da Saxônia era de que a missão
à América Latina era definitiva e, se não
pudessem permanecer no Brasil, deveriam se dirigir ao Uruguai
ou Paraguai. Frei Humberto relata que eles se perguntavam,
quando da estadia em Salvador, sobre o porquê da decadência
da Ordem no Brasil. Será só culpa do governo
maçom que fechou os noviciados em 1855? "Ou teria
desaparecido o espírito de São Francisco, principalmente
da pobreza, antes de o edito de morte ter sido proferido pelo
Governo? Será que agora chegou o tempo no qual surge
nova vida e novo espírito nestas ruínas mortas?
Que Deus permita que isto aconteça logo. Foram estes
os meus pensamentos e também os pensamentos dos meus
irmãos ao deixarmos o convento".
Resumindo, está claro que os primeiros missionários
alemães receberam a missão de restaurar no Brasil
a Ordem, ou seja, a vida franciscana, não necessariamente
as velhas Províncias de Santo Antônio e da Imaculada.
Os missionários que começaram em Teresópolis/SC,
em 1891, pouco a pouco foram subindo, espalhando-se por algumas
cidades de Santa Catarina, depois Curitiba e logo em seguida
Petrópolis/RJ. Certamente uma caminhada e um tempo
que possibilitaram irem formando uma melhor visão da
realidade do Brasil e também da nossa velha Província
da Imaculada. Desta forma, aos poucos, a aproximação
entre os Frades alemães e Frei João do Amor
Divino foi se dando e, em conseqüência, se abrindo
o caminho para a integração dos propósitos:
restaurar a vida franciscana, restaurando-se ao mesmo tempo
a velha Província.
Esse processo levou oito anos. Só no dia 18 de dezembro
de 1899 é que a Província Santa Cruz da Saxônia
assumiu o compromisso jurídico de restaurar a Província
da Imaculada Conceição. Durante esse tempo,
muitos outros Frades alemães tinham chegado ao Brasil
e continuavam a chegar, assumiam-se Paróquias e diversos
trabalhos apostólicos, abriam-se casas de formação,
com a Teologia em Petrópolis.
A obra da restauração juridicamente assumida
levou dois anos, tendo se concluído com a assinatura
do Decreto de Restauração Canônica da
Província, no dia 14 de setembro de 1901. Segundo atesta
o Decreto, esta obra da restauração fora assumida
"com tanto zelo e tão feliz êxito que atualmente,
naquela região, existem quatorze Conventos, alguns
retomados entre os antigos, outros são novos, construídos
com as esmolas dos devotos, e nos quais pudera-se abrir Colégios
seráficos, Noviciados e Casas de Estudos" (referem-se
às Províncias de Sto. Antônio e da Imaculada).
Há cem anos, em 14.09.1901, encerrava-se a restauração
da Província da Imaculada Conceição do
Brasil e também da Província de Santo Antônio.
Nossa Província recuperou sua autonomia e, com a graça
de Deus, produziu "abundantíssimos frutos para
a Santa Igreja de Deus e toda a nossa Ordem", cumprindo-se
a esperança de nossos restauradores.
Na Vita Consecrata, o Papa João Paulo II nos diz que
não temos apenas uma história bonita e heróica
a contar, mas uma história maravilhosa a construir.
Os dias de hoje são também de convocação
para, diante dos sinais dos tempos e dos apelos do Espírito,
levarmos adiante, com fidelidade criativa, coragem e ousadia,
o processo de restauração, de revigoramento,
de refundação da vida franciscana e das instituições,
resgatando nossa identidade, carisma e profecia, redescobrindo
o seguimento de Cristo como fraternidade minorítica
e evangelizadora e testemunhando a partilha e solidariedade
com os excluídos deste mundo.
Estamos em busca de uma vida nova, uma verdadeira vida franciscana.
Esta vida verdadeira e nova pede uma nova experiência
de Deus, uma nova missão profética, uma nova
vida fraterna, uma nova prática evangélica.
Então sim, para uma vida nova uma nova instituição,
ou na imagem bíblica, para vinho novo odres novos.
Frei Caetano Ferrari, Ofm
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