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FREI
FABIANO DE CRISTO (1676 - 1747)
Ao norte de Portugal, numa aldeia chamada Soengas, nasceu
a 8 de fevereiro de 1676, Frei Fabiano de Cristo, que no século
se chamava João Barbosa. Filho de Gervásio Barbosa
e da Senhorinha Gonçalves, formavam uma das muitas
famílias de vida simples que ali viviam, dedicadas
sobretudo ao cultivo da uva.
De suas cinco irmãs, quatro se fizeram religiosas,
o mesmo acontecendo com o único filho da família.
Pouco se sabe sobre os anos de infância e adolescência
de João. Sabe-se apenas que pela vida simples e pobre
que levavam, pouca oportunidade teve de travar contato com
os livros.
À procura de algo mais - João Barbosa
sabia que o ambiente que o cercava não era resposta
aos seus ideais. Sabia que sua família fora, outrora,
abastada e que em suas veias corria a nobreza antiga, agora
oculta na pobreza. Por ser ambicioso, sentiu logo o desejo
de restabelecer a antiga nobreza. Mas não seria em
Soengas que isso poderia acontecer. No primeiro instante pareceu-lhe
que o melhor caminho seria o comércio. Dirigiu-se então
à cidade do Porto, onde as possibilidades se mostravam
mais abundantes e ricas. Aí ouvia histórias
fantásticas de terras distantes e muita riqueza, deixando
o jovem João muito entusiasmado. No final do século
XVII, a novidade mais ambiciosa que os marinheiros traziam
a Portugal era a descoberta abundante do ouro em Minas Gerais.
Assim como muitos, também João viu lá
longe, no Brasil, despontar a solução de seus
problemas.
João despede-se de seus pais e irmãs e parte
para o Brasil numa penosa viagem de meses de balanço
no mar e outra não menos penosa por terra, até
chegar ao seu destino, na região das promessas douradas:
o Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo (hoje Mariana)
e Ouro Preto. Muita riqueza foi vista, muitos homens arrancavam
da terra quantidades enormes de ouro que os tornavam ricos
da noite para o dia. Mas, paralelamente à exploração
das minas, surge outra fonte de renda: a vida do comércio
ou "carreira das minas". Foi esta a profissão
que João escolheu logo que chegou ao Brasil.
Não sabemos exatamente qual a especialidade dos negócios
de João. Sabemos apenas que em pouco tempo conseguiu
uma respeitável fortuna. A partir de 1704, vamos encontrar
João Barbosa com residência fixa na vila de Parati,
tocando seus negócios que lhe rendiam bons lucros,
mas nunca deixando de manter contato com as coisas de Deus.
Assim ligou-se logo ao pároco da vila, auxiliando-o
em tudo. Todas as obras de caridade recebiam dele largas quantias
em dinheiro, não deixando nunca de ajudar os pobres,
que encontravam nele a mão generosa sempre pronta a
ajudar.
Os planos de João eram de trabalhar mais alguns anos
e regressar a Portugal com suficiente fortuna para alterar
a situação de sua família. Mas aí
Deus entrou em sua vida de forma diferente e alterou o plano
do homem. O trabalho espiritual exercido em Parati foi mudando
as concepções de João. Foi sentindo cada
vez mais forte o convite à vida religiosa. Hesita.
Esperava maior clareza. Algum sinal, talvez. Mas um acontecimento
trágico veio pôr fim às suas hesitações.
A morte por assassinato de um sócio e companheiro seu,
por motivos desconhecidos, fez com que João ficasse
profundamente abalado e percebesse como os bens materiais
não significam nada diante da grandeza de Deus.
Nesta altura da história, muitas Ordens Religiosas
já estavam estabelecidas no Brasil. Examinando-as,
pode sentir que nenhuma estava tão de acordo com seus
propósitos como a "Ordem Seráfica de São
Francisco de Assis". Porque, como nascera na pobreza,
passara depois à riqueza pelo trabalho, queria à
luz da fé voltar a ser pobre. E ninguém melhor
que Francisco de Assis para guia nesta troca de valores.
O Franciscano - Tomada a decisão, João
apresentou-se ao Padre Provincial, no Convento Santo Antônio
do Rio, que percebeu imediatamente suas qualidades e, sobretudo,
um homem que sentia o chamado de Deus, logo sendo admitido
à vida franciscana. Primeiro passo de João:
desfazer-se de todos os bens. Dividiu toda a sua fortuna em
três partes: a primeira foi enviada a Portugal para
a família e para outros acertos; a segunda parte foi
destinada às obras de caridade; e a terceira foi distribuída
entre os pobres. Assim, a 8 de novembro de 1704, apresentou-se
no Convento São Bernardino em Angra dos Reis, e no
dia 11 de novembro trocou suas vestes seculares pelo hábito
marrom de São Francisco, trocando também seu
nome de João para "Frei Fabiano de Cristo",
nome pelo qual é conhecido ainda em nossos dias, pois
foi a partir desta troca que ele enveredou pelos caminhos
da santidade.Frei Fabiano de Cristo, no tempo de formação,
optou por ser irmão franciscano.
No Convento Santo Antônio do Rio - No final
do ano de 1705, Frei Fabiano de Cristo recebeu ordens de transferir-se
para o Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro, com
o encargo de porteiro. Aliás, na Ordem Franciscana
dava-se particular importância a esta função,
pois prescrevia-se fosse ela entregue somente a religiosos
de muita prudência, confiança e virtude, após
15 anos de hábito. A nomeação de Frei
Fabiano de Cristo era um reconhecimento à sua virtude
e confiança, pois estava apenas há dois anos
na Ordem. Apesar do bom trabalho exercido por Frei Fabiano
na portaria, os superiores pediram, no ano de 1707 ou 1708,
que ele tomasse conta da enfermaria. Imediatamente obedeceu
e, aqui como na portaria, deu belíssimo exemplo de
caridade.
Embora não tivesse preparação especial
para esta função, a caridade e o esforço
pessoal substituíam as deficiências. Praticamente
levava sua vida junto aos doentes, a tal ponto que nem sequer
tinha um quarto próprio, por longo tempo, contentando-se
em dormir em qualquer lugar da enfermaria, para que, dia e
noite, pudesse estar à disposição dos
doentes. Só mais tarde aceitou um quarto, mas sempre
junto à enfermaria. Assim consumiu quase todo o resto
de sua vida, cerca de trinta e oito anos, exercendo sua caridade
para com os doentes e idosos.
Enfermidade e morte - Com o passar do tempo, o corpo
de Frei Fabiano foi sentindo o peso da idade e dos sacrifícios,
na forma de sofrimento físico que o crucificaram por
quase 30 anos. A causa inicial destes sofrimentos foi uma
erisipela crônica, localizada nas pernas, acentuadamente
na esquerda, que mais tarde se transformou numa horrível
chaga. Para aumentar estes sofrimentos nas pernas, apareceu-lhe
um quisto num dos joelhos, atribuído por alguns ao
tempo excessivo que o bom irmão permanecia de joelhos
nas suas longas horas de oração.
Jamais se ouviu dele a mínima queixa ou atitude de
revolta diante de tanto sofrimento. A única coisa que
o atormentava era o fato de não poder mais exercer
sua função de enfermeiro. Seu estado de saúde
agravou-se muito, já estava ele na casa dos 70 anos.
Pressentiu que ia chegando ao fim de seus dias e, conforme
dizem, chegou a anunciar aos confrades o dia e a hora de sua
morte.No dia 17 de outubro de 1747, pelas 14h00, Frei Fabiano
de Cristo, rodeado pelos confrades, quase despercebidamente
como vivera, parte ao encontro do Pai.
Uma multidão tomou conta do Convento Santo Antônio.
Todos queriam se despedir de Frei Fabiano, pois ele era visto
como um Santo, um Servo de Deus. Todos desejavam ver e tocar
aqueles restos que representavam a santidade.O local onde
estavam encerrados os ossos de Frei Fabiano começou
a ser abandonado, terminando por cair em ruínas. Dos
cento e tantos religiosos do tempo de Frei Fabiano o Convento
não abrigava, em 1870, mais que seis e, aos poucos,
o Convento foi se transformando numa espécie de hospedaria
até que, em 1885, Dom Pedro II hospedou ali o sétimo
Batalhão de Infantaria do Exército. E vieram
as depredações e os estragos. A ruína
começara um trabalho demolidor, levando consigo a placa
de bronze que assinalava o local da urna com os ossos de Frei
Fabiano. Assim, quando o batalhão se retirou, ninguém
mais sabia o local que se encontrava a urna. Inclusive acreditava-se
que a mesma havia sido violada.
O reencontro - Não queria Deus fosse este o
fim dos ossos de Frei Fabiano, pois em fins de janeiro do
ano de 1924, chuvas fortes e prolongadas, causaram grandes
estragos no Rio e em vários Estados. Às três
horas da madrugada do dia 2 de fevereiro, com um estrondo
terrível, ruiu grande parte do muro, atrás do
qual, antigamente, se achava a enfermaria. Em meados de abril,
foram iniciadas as obras de reconstrução do
dito muro, derrubando a 1° de maio do ano de 1924, o resto
do muro que ainda não ruíra. Parte do muro já
havia sido derrubado, quando do lado do Convento, de repente,
apareceu uma urna de chumbo, cheia de ossos. Imediatamente
entregue ao Guardião, este logo ficou convencido de
tratar-se dos ossos de Frei Fabiano. Abrindo a urna, encontrou
em cima, coberto de cal, um documento em péssimo estado,
onde ainda se lia: "Frei Fabiano........ enfermeiro deste
convento........ Rio........".
Resolveram então encerrá-los em uma urna de
mármore, com uma pequena abertura lateral, por onde
se poderiam ver os ossos. A urna foi colocada numa capela,
do lado esquerdo da Igreja do Convento Santo Antônio.
E a veneração recomeçou. Em pouco tempo,
os fiéis começaram a procurar o santo irmão,
como nos primeiros dias após sua morte. Ainda hoje,
a procissão de devotos continua a desfilar diante do
altar singelo que abriga os ossos de Frei Fabiano. De todos
os cantos do Brasil chegam cartas comunicando graças
e pedindo lembranças do santo irmão que, pequeno
na terra, continua no céu uma presença benéfica,
atestando como Deus é magnífico em seus santos,
pois neles manifesta sua imensa misericórdia e sua
paterna solicitude de ajudar os homens pelos homens.
Frei Hugo Baggio, " Frei Fabiano de Cristo",
1974.
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