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FREI
HUGO MENSE (1878 - 1944)
Frei Hugo Mense, que no século se chamava Johannes
Conrad Aloysius Mense, nasceu na Alemanha, a 6 de janeiro
de 1878, segundo filho do casal Johannes Mense e Catarina
G. Mense. Passou os anos de sua juventude na sua cidade natal.
Bem cedo manifestou-se nele a vocação missionária,
e tendo mais ou menos quinze anos de idade, decidiu ingressar
na Ordem Franciscana, iniciando sua caminhada religiosa na
Alemanha.
Em 1894, Johannes Mense atravessou o Oceano em direção
ao Brasil, onde, em 2 de fevereiro de 1896, na cidade de Salvador
- BA, tomou o hábito de São Francisco, passando
a chamar-se Frei Hugo. Foi ordenado sacerdote em 25 de julho
de 1901.
Como sacerdote, passou os primeiros anos de ministério
em diversos lugares do Sul brasileiro. Seu talento aparece
também no campo da imprensa. Em Curitiba, colaborou
no jornal "Der Kompass", e, mais tarde, em Petrópolis,
foi o primeiro redator da revista "Vozes de Petrópolis",
fundada em 1906.
Todavia, a alma missionária de Frei Hugo não
se julgava satisfeita nessa esfera de apostolado. Aspirava
por outro campo de ação. Em 1907, quando o administrador
apostólico da nova Prelazia de Santarém, no
Pará, Dom Frei Amando Bahlmann, chamou voluntários
para a sua vastíssima diocese, Frei Hugo foi um dos
primeiros a se apresentar. Em 1908, tendo obtido licença
do Ministro Geral da Ordem, mudou-se efetivamente para a Amazônia.
Durante os primeiros três anos, percorreu uma grande
parte do território de Santarém, indo até
o longínquo Amapá, conforme ele mesmo declara
em carta escrita do Alto Tapajós em 7 de junho de 1911.
Após repetidas insistências de Frei Hugo e de
Frei Luiz Wand, também missionário, foi determinada
a fundação de uma estação missionária
entre os índios mundurucus, nos campos gerais do planalto
brasileiro, entre os grandes tributários do majestoso
rio-mar, que são o Tapajós e o Xingu. Após
duas viagens de reconhecimento, cheias de peripécias,
realizadas por Frei Hugo, em 1911 procedeu-se à instalação
definitiva da missão, sendo seus fundadores: o próprio
Frei Hugo, Frei Crisóstomo Adams e Frei Luiz Wand.
Desde então, por quase trinta anos, interrompidos apenas
por algumas viagens ao sul do Brasil, aos Estados Unidos,
e à Alemanha, Frei Hugo dedicou-se inteiramente, de
corpo e alma, à catequese dos seus "filhos",
como gostava de chamar, enternecido, os seus queridos índios
mundurucus.
As primeiras viagens foram de grande risco. Frei Hugo e os
outros missionários passavam entre 34 a 60 dias navegando,
e passavam por cachoeiras e corredeiras, até alcançarem
a embocadura do célebre Rio Cururu, que deságua
no Tapajós.
Assim, muitas vezes, Frei Hugo e seus companheiros se viam
diante de eminentes perigos de vida, como a travessia de certas
cachoeiras, com manobras perigosas que os levavam amiúde
a naufrágios. Tinham que alcançar as margens
a nado, a duras penas.
Durmiam muitas noites ao relento, na mata-virgem, em suas
redes, expostos a vários perigos, entre os quais, os
animais ferozes.
Fixaram residência nos campos do Caruru, construíram
Igreja e escola para os índios. As dificuldades eram
enormes, sobreviviam através da caça, da pesca
e de ovos de tartarugas.
Já entre os índios, Frei Hugo e os missionários
continuavam a enfrentar grandes problemas, como a epidemia
de sarampo, que, naquela época, significava morte.
Centenas de índios, entre homens, mulheres e crianças,
eram recolhidos na Missão, socorridos dia e noite pelas
incansáveis Irmãs Clarissas.
Numerosas crianças perderam pai e mãe pelo fato
da epidemia incidir mais devastadoramente entre os adultos,
ficando a Missão com a incumbência do sustento
dessas crianças órfãs.
Para realizar o trabalho de evangelização, Frei
Hugo e seus companheiros são levados a empreender grandes
e penosas viagens pelos campos e matas virgens, por caminhos
trilhados pelos índios há séculos, atravessando
riachos e igarapés que se estendiam às vezes
a distâncias de 300, 400 quilômetros e até
mais. Sem contar os ataques constantes de mosquitos, de dia
e de noite.
Nessas excursões missionárias batizavam e crismavam
crianças indígenas e também adultos já
instruídos nos mistérios principais da Fé.
Pregava-se e catequizava-se na língua de origem dos
índios, a qual, depois de anos de estudo, os missionários
dominavam bem. Orações e cânticos, os
Evangelhos dos domingos e dias santificados eram anunciados
na língua-mãe indígena.
Frei Hugo Mense estudou com esmero palavra por palavra que
ouvia da boca dos índios. Decifrava o sentido das frases
estranhas aos ouvidos dos homens "civilizados".
Formulou regras e conseguiu colocar a língua mundurucu
num pequeno catecismo chamado "Cabi-ã", que
significa "caminho do céu".
A Missão, cujo nome oficial é "Missão
de São Francisco do Cururu", revestiu-se de grande
importância para o desenvolvimento do interior brasileiro,
visto achar-se naquela época em pleno sertão,
em terras que eram consideradas as mais desconhecidas.
Frei Hugo ficou sabendo, por intermédio dos índios
mundurucus, de outras tribos indígenas totalmente desconhecidas,
que nunca haviam tido contato com o homem branco, e que ainda
viviam muito primitivamente.
Considerando as tantas tribos indígenas espalhadas
pela florestas virgens e pelas campinas, a Missão fundada
entre os mundurucus certamente foi um ponto de apoio muito
importante para a pregação do Evangelho no Brasil
central.
Assim, na Missão do São Francisco do Cururu,
dia após dia, notava-se um franco progresso em todos
os ramos do trabalho missionário em favor dos indígenas.
O progresso nas escolas foi grande, deixando os missionários
entusiasmados.
Em 1938, devido à sua saúde abalada, Frei Hugo
viu-se na dura contingência de deixar a Missão,
seu campo de ação de tantos anos. Certamente
foi um passo bem difícil para o coração
do missionário, mas ele deu-o com coragem. Assim, passou
os últimos anos de sua vida no Convento Santo Antônio
do Rio de Janeiro, dedicando também aí seus
esforços pelo bem-estar e desenvolvimento da Missão
do Alto Tapajós. Com tenacidade invulgar, sabia angariar
donativos em grande abundância para os índios
de sua predileção. Visitava também com
freqüência vários departamentos do Governo
a fim de obter ajuda para a Missão.
Porém, seus últimos anos de vida, foram também
de saudades. Impossibilitado de retornar à antiga atividade,
nunca deixou de esperar. Não desprezou meios, ocasiões
e oportunidades para sempre de novo tentar a volta. Sentia
uma grande e insaciável vontade de rever os índios.
E quando teve uma resposta negativa definitiva, aliás
absolutamente justificada, Frei Hugo chorou.
Frei Hugo Mense faleceu no Convento Santo Antônio do
Rio de Janeiro, no dia 22 de abril de 1944.
Elisabete Barbero - arquivista
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