|
FREI BASÍLIO RÖWER
1877 - 1958
Nasceu em 2 de novembro de 1877, na cidade renana de Neviges,
diocese de Colônia, situada ao norte de Wuppertal. Local
conhecido não só pela presença de grande
siderúrgica e outras indústrias, mas também
pelo castelo de Hardenberg, pelo santuário mariano
de grandes romarias, fundado em 1681, e pelo convento franciscano
de quase mesma idade.
Seus pais, Wilhelm Röwer e Wilhelmina Schulte, pertenciam
à classe operária. Na casa paterna, o pequeno
Hugo - nome de batismo de Frei Basílio - não
só recebeu os fundamentos de sólida piedade
e os estímulos para a vida cristã, que mais
tarde o levariam ao conventos dos Frades Menores, mas aprendeu
também o amor e gosto pela música, que o acompanhou
pelo resto da vida.
Durante os oito anos de escola elementar e complementar, Hugo
Röwer apresentou bom aproveitamento. Entre seus mestres
havia músicos exímios, até verdadeiros
maestros que sabiam reger música clássica. Esta
época coincidia também com os últimos
anos do "Kurturkampf", questão religiosa
que despertou nos católicos alemães o espírito
de luta e afervorou muito a piedade cristã.
Terminado o período escolar, o jovem Hugo trabalhou
como aprendiz de alfaiate. Sentindo desde cedo a vocação
para missionário franciscano, dedicava-se ao estudo
do latim nas horas da noite. Pouco depois entrou no Colégio
Seráfico de Bleyerheide, dirigido por Frei Ciríaco
Hielscher. Mais um pouco de tempo e deixou sua terra natal
em busca da segunda pátria, o Brasil. Junto com outros
alunos e bom número de religiosos chegou ao Recife
em 3 de dezembro de 1894. Os alunos foram alojados no velho
convento de Olinda, onde começou a funcionar o primeiro
seminário seráfico. Entretanto bom número
dos jovens começou a adoecer. Por isso, resolveram
os superiores da Saxônia transferi-los para Blumenau,
onde encontrariam clima mais saudável. Hugo Röwer
e seus colegas chegaram em Blumenau a 1º de maio de 1895.
Pouco tempo, porém, ficou aí. O visitador geral
Frei Gregório Janknecht, outrora Provincial da Saxônia,
determinou que a turma mais avançada nos estudos fosse
logo para a Bahia, a fim de começar o noviciado. Hugo
foi um dos escolhidos, e a 2 de fevereiro de 1896, no histórico
convento de São Francisco, recebeu das mãos
de Frei Amando Bahlmann o hábito franciscano e o nome
de Frei Basílio.
Logo depois surgiu a terrível epidemia da febre amarela.
Frei Basílio, que escapou ileso, foi com outros noviços
recolher-se ao velho e já decadente convento de Cairu.
Em fins de julho, passando o perigo da febre, voltaram os
noviços a Salvador, onde foram encontrar-se com cinco
substitutos vindos recentemente da Alemanha a fim de fechar
a brecha feita pela implacável doença.
Terminado o noviciado, Frei Basílio fez o curso de
Filosofia na Bahia e, em 1899 iniciou os estudos de teologia,
em Petrópolis-RJ. Em 12 de maio de 1901, na igreja
da Terra Santa em Petrópolis, Frei Basílio foi
ordenado sacerdote por D, Francisco do Rego Maia, e em novembro
do mesmo ano foi aprovado para a cura d'almas.
Concluindo os estudos, continuou trabalhando em Petrópolis
até 1907. Em 1908 estava no convento do Senhor Bom
Jesus, em Curitiba, com a função de vigário
cooperador. De 1909 a 1914 foi superior da pequena residência
do convento São Francisco, em São Paulo. Eleito
definidor da Província em 1914, mudou-se outra vez
para Curitiba, onde ficou também com os cargos de vigário
do convento, mestre dos clérigos e irmãos, e
comissário provincial da Ordem Franciscana Secular.
O próximo capítulo o transferiu para Petrópolis
com os ofícios de mestre dos irmãos, bibliotecário
e cronista. Em 1920 tornou-se guardião do mesmo convento,
até 1923. Continuou como vigário da casa, professor
de teologia pastoral e homilética e diretor do "Eco
Seráfico", até 1931.
Em 1932, o Capítulo Provincial o nomeou superior e
vigário de Quissamã. Seis meses depois, em 31
de julho, como guardião do convento de Santo Antônio
no Rio de Janeiro, em substituição ao falecido
guardião, Frei Libório Grewe. No Capítulo
de 1934 foi reconfirmado para o mesmo guardianato para mais
um triênio. No triênio seguinte, 1938-1940, foi
superior em Ipanema, concluindo assim sua carreira administrativa.
Desde 1941 voltou a residir no Convento de Santo Antônio
do Rio, até o dia de sua morte. Durante 24 anos, exerceu
o cargo de Comissário da Venerável Ordem Terceira
de São Francisco da Penitência.
Em dois setores de atividade Frei Basílio se distinguiu
e conquistou merecimentos extraordinários: como músico
e como escritor. Na música, não se conteve em
reproduzir e interpretar coisas dos outros, mas criou coisas
novas e originais. Sua alma lírica sabia criar lindas
melodias, que acertaram com a preferência do povo brasileiro.
É dele os cânticos: "Ó Maria, concebida
sem pecado original", "salve, salve, divino tesouro",
"Salve Mãe Imaculada", e a mimosa ladainha
do Sagrado Coração de Jesus, para coro e solistas.
No catálogo das composições de Frei Basílio,
conservado pela Editora Vozes, constam 63 obras de sua autoria.
Ele foi um dos mais destacados pioneiros da música
sacra no Brasil.
A transferência para o Convento de Santo Antônio
do Rio, em 1932, o colocou em contato com os arquivos da antiga
província. Esses velhos documentos fascinaram a alma
de Frei Basílio que logo formulou o propósito
de elaborar cuidadosamente a história dos predecessores,
publicando os dados completamente inéditos e desconhecidos.
O propósito transformou-se em realidade. Já
em 1937 saiu o primeiro tomo de maior fôlego. Outros
seguiram de 1940 em diante, quando, livre de outros compromissos,
recebeu a incumbência oficial deste trabalho pelo Capítulo
de 1941. Suas obras principais:
1922 - A Província Franciscana da Imaculada
Conceição do Brasil nas festas do Centenário
da Independência, 334 pp;
1937 - O Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro,
468 pp.
1941 - Páginas de História Franciscana no Brasil,
216 pp.
1942 - A Ordem Franciscana no Brasil, 216 pp.
1951 - História da Província Franciscana da
Imaculada Conceição do Brasil através
de seus provinciais de 1677 a 1901, 308 pp.
1954 - Os Franciscanos no Sul do Brasil durante o século
XVIII - A Cntribuição Franciscana na Formação
Religiosa da Capitania das Minas Gerais. - Os Estudos na Província
Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
nos Séculos XVII e XVIII, 93 pp.
1958 - O Convento de N. Senhora da penha do Espírito
Santo, 94 pp.
Como historiador, Frei Basílio merece os mais altos
elogios por sua aplicação, paciência e
perseverança. Soube valorizar os anos da velhice criando
obras de valor durável. Nas suas obras predomina a
voz das fontes, dos documentos históricos. Conhecia
perfeitamente suas limitações afirmando várias
vezes que pesquisas ulteriores de certo haveriam de ampliar
e aprofundar o quadro traçado por sua pena paciente
e cuidadosa.
Para aquilatar o valor de sua contribuição,
basta lembrar que foi eleito sócio honorário
do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, e que recebeu
o doutorado honoris causa da Universidade São Boaventura,
em Olean, nos Estados Unidos.
Aproximando-se dos 80 anos, a fraqueza corporal e as doença
de Frei Basílio tornaram-se mais evidentes. Aos poucos
sua cela virou enfermaria. Mas nas duas mesas e nas estantes
continuavam os volumes e documentos aos quais voltava sempre
que podia. O diagnóstico médico revelou câncer
intestinal. Faleceu no dia 19 de agosto de 1958 no Hospital
da Venerável Ordem Terceira, na Tijuca.
Frei Estanislau Schaette, Ofm
Vida Franciscana, nº 24, dezembro 1958, pp. 188-194
|
|