|
FREI
DAMIÃO BERGE
(1895 - 1976)
*
Rio de Janeiro, RJ, 29/08/1895
Rio de Janeiro, RJ, 14/09/1976
Já se tornara parte da paisagem do velho
Convento de Santo Antônio a figura esguia
de um frade, magro, solene e lento no andar,
apoiado numa bengala, sem deixar a posição
hierárquica, passos medidos, rosto reluzente
e avermelhado, cabelos ralos, lábios
um tanto contraído, predominantemente
no lado direito, usando hábito sem capuz,
falando macio e baixo, com sons algo sibilado.
Aparecia sempre nas mesmas horas, percorria
o mesmo itinerário e, grande parte do
tempo, passava-o no quarto, sozinho, deixando
na porta, em letras de tamanho respeitável,
como para diluir dúvidas, a observação:
a partir das 13:00 horas não dava audiências.
Metódico em tudo, tinha hora para tudo
e ritual para tudo.
Gostava de conversar e tinha boa conversa, pois
estava por dentro de todos os assuntos, desde
as últimas obras filosóficas ou
místicas editadas nos grandes centros
europeus, até as notícias do jornal
do dia, como fossem os anúncios de morte
de pessoas importantes ou que de algum modo
com ele se relacionaram. À uma hora de
manhã celebrava sua missa, solitário,
numa capela do claustro, cujos preparativos
de véspera obedecia a um ritual impecável.
Celebrava-a à luz das velas, já
que a luz da lâmpada lhe fazia mal às
vistas, deixando aos desprevenidos ou desavisados
a impressão de uma "assombração"
das velhas crônicas que contam que frades
voltavam do além para terminar sua missa
e depois descansar... Agradava-lhe também
ouvir uma piada e contar alguma.
Outra devoção que lhe agradava
era a Via-Sacra, feita em plena noite, no corredor
do segundo piso do convento, às escuras,
com toda a calma e devoção, parando,
no final, à altura do sacrário,
onde se detinha, longo tempo, em adoração.
Certa noite, descuidado, caio no vão
de uma das janelas que dão para a igreja
e, por felicidade, a balaustrada o conteve,
fazendo que além do susto levasse apenas
algumas arranhaduras, ao lado das muitas que
o mercúrio cromo assinalava em seu corpo.
Aliás, não gozava de boa visão,
o que o brigava a usar vários óculos,
alguns levando um dos olhos tampados com pano,
pois não suportava bem a luz intensa,
à semelhança de pirata.
Quando marcava com alguém, por exemplo,
um encontro, na portaria do convento, pelo menos
quinze minutos antes lá estava ele acomodado
na cadeira, junto à mesa, à espera
da visita, pois não queria nunca chegar
tarde. E quando a visita falhava, gastava um
largo tempo na espera e outro tanto para desabafar
com alguém a falta de seriedade nos compromissos
assumidos.
Passava, grande parte de seu dia, na biblioteca
e no quarto, em constante contato com os livros.
Ele e os livros foram um capítulo próprio
em sua vida. Ele mesmo se classificará
de "livresco". Acompanhava, através
de catálogos, a produção
de livros, nos mais variados domínios
da inteligência e da ciência, tanto
sacra quanto profana, e adquiria, constantemente,
publicações através da
Livraria Castelo, que tinha nele um dos mais
assíduos compradores. Certas obras editadas
na Alemanha, por exemplo, ele era praticamente
o único a adquiri-las, no Brasil. Parte
de seu ordenado e depois de sua pensão
foi sempre empregada em livros, com licença
do Provincial, que ele sempre renovava por escrito
e fazia questão de tornar público.
A recepção de livros era outro
ritual: a primeira coisa que fazia era meter-se
na biblioteca, onde cuidadosamente encapava
todos os volumes que acabavam de chagar. Por
isso, na biblioteca e na cela, havia rolos de
papel e de barbante em todos os cantos e gavetas.
Os livros encadernados eram, depois, rapidamente
vistos e anotados, sobretudo na página
de face. Quando tinha recorte de jornal referentes
ao livros, colocava-os dentro do mesmo.
Num terceiro momento, ele os lia com a seriedade
do cientista. Na idade dele, com a precária
saúde de que dispunha, era admirável
sua convivência com os livros, onde renovava
constantemente seu interesse pelas coisas e
seus conhecimentos.
Frei Damião Berge chegou ao dia 14 de
setembro de 1979, sem que ninguém suspeitasse
fosse este o último dia de sua vida.
Nem ele mesmo, embora há muitos anos
andasse preparado. Na manhã daquele dia,
seguiu a rotina costumeira: tomou café
no refeitório, conversou com os confrades
e ficou mais tempo com o Pe. Guardião,
conversando a respeito de uma ex-aluna judia
do curso de Letras. Tomou a bengala e a caneca
de café com leite, tomou o elevador e
subiu ao quarto, entregando-se aos livros. Às
11:00 horas, ainda dentro de seu esquema rígido,
desceu à cozinha, fez o prato e conversou
com as cozinheiras, acompanhado de uma transmissão
radiofônica, almoçou no refeitório
e retornou ao quarto.
Ao terminar a refeição da Comunidade,
Frei João Antunes subiu ao segundo andar
e encontrou Frei Damião deitado ao chão,
no saguão do Convento, com a cabeça
batida, escorrendo sangue e inconsciente. O
Guardião, que chegava naquela hora, ligou
imediatamente para o hospital da Penitência,
na Tijuca, chamando médico e ambulância,
enquanto Frei Damião era conduzido para
sua cama, respirando com dificuldade e apresentando
um quadro geral muito grave. Frei Marcos lhe
administrou a Unção dos Enfermos.
Por volta das 14:10 horas percebeu-se, nitidamente,
que eram os últimos momentos. Frei Hugo
e Frei Beraldo que estavam ao seu lado lhe deram,
ainda uma vez, a absolvição. Quando
o socorro chegou nada mais havia a fazer, aquele
corpo franzino e judiado já estava frio.
Sua morte não foi, rigorosamente, uma
surpresa, pois dela falava sempre e com muita
naturalidade e a gente sentia, nos últimos
tempos, que se ia tornando mais frágil.
Segundo o laudo médico, um enfarto do
miocárdio derrubou as últimas
resistências de Frei Damião.
Imediatamente, os parentes e amigos foram notificados
e o corpo de Frei Damião, no salão
do Convento, recebeu muitas visitas de amigos,
antigos alunos, admiradores, colegas de magistérios
e no enterro, no dia 15, às 15:00 horas,
quando houve missa concelebrada pelo Pe. Provincial
Frei Antônio Nader e mais 16 confrades
da casa e de casas vizinha. Foi colocado numa
das urnas do cemitério do Convento, onde
tantas vezes, com passos arrastados, se dirigira,
amparado pela bengala, levando parentes e amigos,
para mostrar onde iria morar um dia, e rezar
por aqueles que lá descansavam.
Formação: lento desenvolvimento
do estudante, quer como seminarista (Blumenau
1907-1912), quer nos cursos de filosofia (Curitiba
1914-1915) e de teologia (Petrópolis
1916-1919), anos sem colorido individual, acrescentando-lhe
os de especialização nas Universidades
alemãs de Bonn e de Freiburg (1925-1928).
As grandes compensações: não
faltaram, mesmo no âmbito simplesmente
humano: o gosto pela música (foi organista
por longos anos e adorava o cantochão)
e pela arte, sobretudo pela gótica que
pôde contemplar na Europa. Publicações:
sejam suficientes umas breves observações
sobre seu "Logos Heraclítico",
Rio 1969, esgotado desde dois anos. É
este um livro essencialmente humanista, de humanismo
clássico, e não filosófico,
apesar de versar sobre um pensador pré-socrático.
Tanta enuclear o sentido fundamental do termo
"logos", através de paciente
análise dos textos em que ocorre, é
este o proceder humanista: estuda a palavra
em discussão, não sobe aos cimos
do pensar abstrato, e sim desce às profundidades
das raízes.
Lista das obras e trabalhos escritos por Frei
Damião:
1) "Palestra sobre o Belo", (1924).
2) "Exegetische Bemerkungen zur Daemonenauffassung
des M. Minucius Felix, (1929).
3) "A Filosofia Existencial de Martin Heidegger",
(1937).
4) "A estrutura fundamental do sentimento
religioso à luz da psicologia experimental",
(1939).
5) "A estruturação psicológica
da oração devota" (1942).
6) "Um livro de horas do século
XIV" (1945).
7) "A vida de Heráclito de Éfeso"
(1947).
8) "Spiritus" (1951).
9) "A lírica mariana de Tiago Balde"
(1954).
10) "Introibo ad altare Dei" variações
sobre o Salmo 42, (1955).
11) Entre 1930 e 1932 trabalhou com outros professores
do Seminário de Rio Negro na elaboração
da "Ars Latina".
12) Um trabalho que ficou inédito: "São
João Crisóstomo e a filosofia
pagã".
13) "O Logos Heraclítico" (1969).
É sem dúvida a obra culminante
de Frei Damião, no seu valor intelectual
e no trabalho que lhe exigiu. Tratasse de uma
das mais sérias contribuições
à bibliografia dos pré-socráticos.
Alguns dados cronológicos: Reinhold
José Augusto Berge nasceu em 29 de agosto
de 1895. Seu pai foi Emílio Otto Berge
e sua mãe Ida Henriette, irmãs:
Augusta, Marta.
Foi enviado ao seminário seráfico
de Blumenau, onde esteve de 1907-1912. Recebeu
em 1913 em Rodeio, o hábito franciscano
e o nome de Frei Damião. No Convento
de Santo Antônio ficou até sua
morte, em 14 de setembro de 1979, quando a Irmã
Morte o recolheu, em plena ocupação,
pondo fim aos seus sofrimentos físicos
e levando-o à plenitude da luz, onde
sua curiosidade ficou satisfeita, suas dúvidas
esclarecidas, sua ânsia de belo plenamente
satisfeita, plenificando aquilo que escrevera,
no relato sobre sua vida: "À vossa
misericórdia, Senhor, entrego meu passado,
ao vosso amor, minha vida presente e à
vossa providência, meu futuro".
Frei Hugo D. Baggio
Vida Franciscana, 1980, nº. 54, páginas
135 a 144
|