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FREI JOSÉ MARIANO
DA CONCEIÇÃO VELLOZO
1741 - 1811
Pai da Botânica Brasileira
Entre os naturalistas brasileiros que se empenharam
no estudo de nossa flora, homenageamos Frei
José Mariano da Conceição
Vellozo, que ocupa um lugar de destaque pela
sua obra monumental intitulada Flora Fluminensis,
terminada em 1790.
Frei Vellozo nasceu em 1741, na então
Província de Minas Gerais, na freguesia
de Santo Antônio da Vila de São
José, Bispado de Mariana.
Bem jovem ainda sentiu-se atraído ao
estudo das ciências naturais, principalmente
uma forte predileção pela botânica.
Mais do que qualquer outro tipo de leitura gostava
Frei Vellozo do livro da natureza, fazendo muitas
vezes, com seus companheiros, excursões
botânicas, entranhando-se nos bosques
a procura de flores, a fim de pesquisar-lhes
os nomes e notar-lhes as diferenças morfológicas.
Apesar de nunca ter tido mestre, conseguiu em
pouco tempo aprender muito sobre as principais
plantas do lugar em que nasceu.
Em 1761, aos vinte anos de idade, sentindo vocação
religiosa, entrou para a Ordem Franciscana,
e fez seus estudos de filosofia e teologia no
Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro.
Foi professor de geometria, retórica
e história natural. Das ciências
que lecionou, nenhuma lhe agradava tanto como
a história natural, sendo nomeado professor
em janeiro de 1786.
Naturalista por vocação, transformou
sua cela num gabinete de estudos.
No ano de 1779 veio governar o Brasil, na qualidade
de vice-rei, um português distinto, chamado
Luiz de Vasconcellos e Souza. Tendo notícias
da predileção e do raro talento
de Frei Vellozo pelas ciências naturais,
principalmente pela botânica, pediu ao
então provincial Frei José dos
Anjos Passos para que Frei Vellozo fizesse excursões
em toda a Capitania do Rio de Janeiro e reunisse
o resultado de suas pesquisas numa obra conjunta.
Surge então a fase mais importante da
vida do ilustre frade naturalista. Durante oito
anos consecutivos vemos o incansável
pesquisador subir as serras mais altas, descer
aos mais profundos vales, e emaranhar-se nos
vastos e inextricáveis bosques. Percorreu
as matas e praias do Rio de Janeiro em todas
as direções, subiu a serra de
Paranapiacaba e Parati, visitou as quinze ilhas
do Rio Paraíba do Sul, conseguiu levar
a cabo suas investigações, reunindo
o fruto de suas pesquisas num trabalho magnífico
de imenso valor científico, por ele intitulado
Flora Fluminensis.
Nas suas excursões científicas,
Frei Vellozo era acompanhado por seu secretário-escrevente
Frei Anastácio de Santa Inêz, e
por Frei Francisco Solano, hábil pintor
e desenhista.
A obra gigantesca, trazendo as descrições
e figuras de 1.640 vegetais brasileiros, incluindo
também inúmeras indicações
ecológicas, representa um esforço
notável para aquela época, pois
foi terminada em 1790.
Infelizmente só 35 anos mais tarde, ou
14 anos após a morte de Frei Vellozo,
é que se deu início à sua
publicação, isto é, depois
de viagens e publicações de outros
estudiosos, que continham muitos gêneros
e espécies de plantas descobertas por
Frei Vellozo.
Consta a obra de Frei Vellozo de onze volumes
em fólio, com suas estampas originais
executadas a tinta, juntamente com dois volumes
manuscritos do texto.
Depois de terminada a obra, seu autor foi apresentá-la
à Corte de Lisboa. A obra provocou a
admiração de todos.
Em 1809, Frei Vellozo retorna ao Brasil, trazendo
consigo os originais dos manuscritos e das estampas
da Flora Fluminense. A partida de Lisboa foi
motivada pela marcha progressiva do exército
francês, na Península Ibérica.
Dom João VI veio refugiar-se na Terra
de Santa Cruz, e Frei Vellozo seguiu os passos
do seu benfeitor, recolhendo-se no Convento
de Santo Antônio do Rio de Janeiro, onde
veio a falecer a 13 de junho de 1811, sem ter
tido a satisfação de ver publicada
a sua grande obra.
Todos os manuscritos e impressos pertencentes
ao espólio de Frei Vellozo foram oferecidos
ao Príncipe Regente pelo então
Vigário Provincial dos Franciscanos do
Rio de Janeiro. A oferta foi aceita, segundo
consta no volume III do "Tombo Geral da
Província" (manuscrito), à
página 208.
Os livros e manuscritos de Frei Vellozo deram
entrada na Real Biblioteca em 13 de novembro
de 1811. Entre eles se achavam todos os originais
da Flora Fluminense.
Muito tempo se passou e nada mais se soube da
importante obra de Frei Vellozo. Os manuscritos
da Flora Fluminense, que por muitos anos se
julgavam perdidos, foram descobertos em 1825
na Biblioteca Imperial pelo então bibliotecário
Frei Antônio de Arrabida.
Em carta solene enviada a Dom Pedro I, Frei
Antônio de Arrabida descreve a emoção
que sentiu ao encontrar os manuscritos da Flora
Fluminense e solicita ao Imperador a publicação
do texto aqui no Brasil, oferecendo-se para
as devidas correções de impressão.
Foram enviados a Paris os desenhos para serem
ali litograficamente estampados, pois não
havia ainda no Brasil técnicas adequadas
a esse tipo de trabalho.
Reconhecendo a importância da publicação
da obra de Frei Vellozo, o Imperador, após
uma semana do recebimento da carta de Frei Antônio
de Arrabida, autorizou a imediata publicação.
Em 1825, efetuou-se na Tipografia Nacional do
Rio de Janeiro a impressão quase total
da Flora Fluminense. O volume, que hoje é
uma raridade bibliográfica, abrange 352
páginas e versa sobre 309 gêneros.
A impressão das 1.640 estampas, começada
em 1827 em Paris, levou quatro anos e quatro
meses para ser terminada.
Quando os últimos fascículos já
estavam em fase de impressão, ocorreu
a expulsão de Dom Pedro I, em 1831. O
novo governo deu ordem para suspender a impressão,
recusando-se a pagar o resto da encomenda. Não
obstante, a impressão foi terminada,
e no processo judicial subseqüente o tribunal
francês deu ganho de causa ao impressor.
No livro Fitografia ou Botânica Brasileira
de Melo Morais (1881), consta um capítulo
sobre a História da Flora Fluminense,
que se refere ao triste destino que tiveram
os exemplares dos 11 volumes das estampas. Diz
ele: "Acabada a obra, consta-me que se
mandaram para o Rio de Janeiro 500 exemplares;
ficando em Paris 1.500, os quais, não
sendo reclamados, foram entregues não
sei a quem, e dos quais salvaram-se algumas
coleções; e por fim, se reconhecendo
que essas estampas não eram mais procuradas,
foram vendidas ou dadas ao chapeleiro que fornecia
barretinas (chapéu) para o exército
francês, o qual forrou com as estampas
as barretinas que estava fazendo para os soldados
do exército. Os 500 exemplares que vieram
para o Rio de Janeiro foram parar no saguão
da Secretaria de Estado dos Negócios
da Justiça (em frente ao passeio público),
onde permaneceram apodrecendo, pela umidade;
fazendo-se presente de alguns exemplares, a
uma ou outra pessoa que pedia". E mais
adiante diz o mesmo autor: "No dia 14 de
janeiro de 1861, a Tipografia Nacional anunciou
a venda em leilão de 2.950 arrobas de
impressos, indo entre eles alguns exemplares
da Flora Fluminense". E termina dizendo:
"É digno de reparo, e contrista
o coração dizer-se, que no Brasil
se vende como papel velho, o produto da inteligência
e da arte, adquirido com tantas fadigas e trabalhos,
com o qual o Estado gastou muito dinheiro, para
com ele fazer-se papel de embrulho"!
Terminando, cumpre dizer que a Flora Fluminense,
cuja história, em parte, foi uma verdadeira
tragédia, representa uma obra monumental,
que não apenas suscita interesse histórico,
mas tem também alto valor científico.
Frei Vellozo foi um dos grandes pioneiros da
botânica brasileira. Seu nome figura sempre
com brilho ao lado dos maiores botânicos
que o Brasil possui.
Elisabete Barbero Bonfim
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