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COMO
TUDO COMEÇOU
Frei Basílio Röwer, ofm
Quis a Providência Divina que os religiosos
franciscanos, chamados pelo Seráfico
Fundador com o humilde nome de Fratres Minores
- Irmãos Menores - fossem os operários
da primeira hora na vinha inculta do Senhor
no vasto Brasil; que eles também oferecessem
as primícias do sangue a fertilizar a
terra para germinar cristãos e que, outrossim,
fossem, durante decênios, os únicos
religiosos a espalhar a semente do Evangelho.
A terra de Vera Cruz, de Santa Cruz, do Brasil
foi descoberta, em 1500, para o Rei por D. Pedro
Álvares Cabral, para a santa religião
pelos franciscanos. Achavam-se estes em companhia
de Cabral, que navegava para as Índias.
Frei Henrique, superior da caravana de missionários,
celebrou no dia 26 de abril, domingo da Pascoela,
a primeira missa no ilhéu da Coroa Vermelha,
na qual fez "solene e proveitoso sermão".
Outra missa celebrou no mesmo no dia 1°
de maio; mas já foi na terra firme e
com assistência de muitos índios,
que todos, em atitude semelhante à dos
descobridores, acompanharam o ato solene.
Nesta ocasião, Cabral e Frei Henrique
ergueram uma grande Cruz, sinal da tomada de
posse em nome de Cristo e do Rei. Em seguida,
Cabral continuou a viagem às Índias
e com ele os franciscanos.
Não tardou, porém, a chegada
de outros missionários da Ordem Seráfica.
De 1503 a 1505, estiveram em Porto Seguro dois,
que, tendo zelosamente exercido o seu ministério,
foram ambos trucidados pelos selvagens e assim
se tornaram os protomártires do Evangelho
no Brasil.
Decorridos trinta anos, em 1532, aportaram
com Martim Afonso a São Vicente dois
franciscanos, onde celebraram, junto com o padre
secular Gonçalo Monteiro, que ficou de
vigário, o primeiro culto divino e levantaram
uma capela em honra de Santo Antônio.
Um deles teve de oferecer a Deus o sacrifício
de sua vida, pois foi flechado por um índio
ao atravessar um rio. Em 1534, achamos alguns
franciscanos na Bahia, onde batizaram duas filhas
naturais de Diogo Álvares Correia, o
lendário Caramuru.
Retiraram-se com Martim Afonso de Souza para
as Índias. Não consta se um deles
tivesse ficado, mas certo é que uns quinze
anos depois um franciscano percorria a zona
da Bahia doutrinando os tupinambás. Construiu
uma capela em honra de São Francisco.
Poucos anos depois, temos notícia de
cinco franciscanos espanhóis que, em
viagem ao Rio da Prata, foram acossados pela
tempestade até ao porto de Dom Rodrigo,
hoje São Francisco do Sul, e em seguida
missionaram entre os carijós. O seu superior
Frei Bernardo escreveu em 1° de maio de
1538 que mal bastavam as horas do dia para batizar
a todos que pediam o sacramento.
A estes missionários refere-se Nóbrega
ao chegar a São Vicente (1549) com estas
palavras: "Os gentios são de diversas
castas, uns se chamam guaianases, outros, carijós.
Este é um gentio melhor do que nenhum
desta casta. Os quais foram, não há
muitos anos, dois frades castelhanos [na verdade
foram cinco] ensinar e tomaram tão bem
a sua doutrina, que têm já casas
de recolhimento para mulheres como de freiras
e outras de homens como de frades".
Já se vê, pelos frutos, que o
trabalho dos cinco franciscanos foi metódico
e incansável. Depois da chegada dos inacianos,
em 1549, as crônicas dão notícia
de dois frades menores que durante alguns anos
puderam exercer benéfico apostolado.
São Frei Pedro Palácios e Frei
Álvaro da Purificação.
O primeiro, apesar de irmão leigo, missionou
na Capitania do Espírito Santo de 1558
a 70. Frei Álvaro, que em 1577 foi levado
por ventos contrários da ilha da Madeira
para as costas do Brasil, trabalhou em Olinda
tão zelosamente que era geral o pedido
de ele ficar, e o donatário D. Jorge
de Albuquerque Coelho instou que obtivesse de
Portugal maior número de franciscanos.
Não só não o conseguiu,
mas teve o desprazer de receber ordens para
voltar.
Por este tempo consta de mais alguns mártires.
No dia 4 de outubro de 1580 foram mortos pelos
selvagens diversos frades em Olinda ou nos arredores
e em 1583 foi assassinado por um soldado espanhol,
em S. Paulo, o irmão leigo Frei Diogo,
que repreendeu o soldado por causa das suas
constantes blasfêmias.
Tinha vindo com outros três franciscanos
na armada de Diogo Flores Valdez. Foi dito que
o donatário não conseguiu mais
franciscanos por intermédio de Frei Álvaro.
Por isto, passados alguns anos, ele mesmo fez
igual pedido ao Rei Felipe, que por sua vez,
o transmitiu ao ministro geral da Ordem, Frei
Francisco Gonzaga.
Achava-se este em visita canônica aos
conventos de Portugal e quando celebrou Capítulo
em Lisboa, aos 13 de março de 1584, decretou
a fundação de uma Custódia
no Brasil - a Custódia de Santo Antônio
- e destinou para isso seis religiosos de virtude
e zelo, sendo superior Frei Melquior de Santa
Catarina, com, patente de custódio. Todos
eles pertenciam à Província reformada
de Santo Antônio chamada dos Currais,
cujos religiosos o povo alcunhava de "capuchos"
por causa do capuz piramidal que traziam.
A palavra "capucho", que não
se deve confundir com "capuchinho",
encontra-se frequentemente nos documentos e
não significa outra coisa que franciscano,
pobre, observante. A dita expedição
chegou a Pernambuco aos 12 de abril de 1585
e foi recebida com grandes demonstrações
de júbilo e veneração.
O primeiro Convento que se fundou foi o de N.
Sra. Das Neves de Olinda.
Uma generosa benfeitora, D. Maria da Rosa,
havia antecedentemente construído para
os frades uma casa com capela ao lado e de tudo
fez doação à Ordem por
escritura de 27 de setembro do mesmo ano de
1585. Oito dias depois, na festa do Seráfico
Patriarca, os fundadores passaram para essa
residência em solene procissão,
assistida pelo donatário com seu senado,
clero e muito povo.
Desde logo iniciaram os frades o seu trabalho
na vila e arredores e de tal modo granjearam
a estima de todos que, decorrido apenas um ano,
isto é, em 1586, abriram noviciado para
os candidatos à Ordem e juntamente um
seminário, isto é, educandário
para os filhos dos índios.
Na catequese dos indígenas, destacou-se
nesses anos até 1590 Frei Francisco de
São Boaventura. As suas excelentes qualidades
de índole unia um conhecimento perfeito
da língua brasiliense, que em pouco tempo
falava tão bem que os próprios
Índios se admiravam, tendo-o por grande
feiticeiro. Enquanto os poucos missionários
franciscanos labutavam arduamente na vinha do
Senhor nas partes de Pernambuco, a fama de seu
zelo e religiosa observância espalhava-se
pelas outras capitanias. De diversas localidades
vinham pedidos de fundação de
conventos e missões.
Em 1587, o Custódio acedeu à
solicitação do bispo e do governador
geral, aceitando por escritura de 8 de abril
o sítio para um Convento na Baía,
iniciando ele mesmo a construção.
Quando, em abril de 1588, o Custódio
voltou a Olinda, encontrou a recém-chegada
segunda turma de seis missionários. Com
isto se animou a aceitar novas fundações.
A primeira foi a de Iguaraçú,
em junho do mesmo ano. A Câmara e o povo
haviam oferecido um sítio com casa, que
foi transformada em Convento. Os seus melhores
esforços dedicaram os franciscanos ali
à catequese dos índios, doutrinando-os
e arrebanhando-os em aldeias. As três
missões de Itapessima, Ponta das Pedras
e Itamaracá passaram para a história
como obra de Frei Antônio de Campomaior,
que as fundou na sua segunda estada em Iguaraçú,
de 1592 a 94.
Em 1589 principiou-se a fundação
de um Convento na vila de Paraíba, a
instâncias do Cardeal Alberto, Governador
do Reino de Portugal. Na mesma ocasião,
o Custódio providenciou acerca das missões
entre os índios daquela zona. Tal era
o estado, próspero na verdade, da missão
franciscana no Brasil, quatro anos depois da
chegada dos fundadores da Custódia.
Foi justamente em 1589 que dois religiosos
vieram para a capitania do Espírito Santo
encaminhar a fundação do Convento
de Vitória, o primeiro convento franciscano
nas partes do Sul, como também o primeiro
da que mais tarde foi a Província da
Imaculada Conceição.
Frei Basílio Röwer, no livro
"Páginas de História Franciscana
no Brasil", da Editora Vozes, 1941.
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