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DA
CRIAÇÃO DA CUSTÓDIA AO
RESTAURO DA PROVÍNCIA
Frei Clarêncio Neotti, ofm
A Gilberto Freire afirmou que "não
há data ou glória franciscana
que não seja data ou glória brasileira".
De fato, a Ordem Franciscana é a única
que aqui chegou no primeiro momento e jamais
se ausentou da nossa História. Durante
os primeiros 50 anos de colonização,
os Franciscanos foram os únicos missionários
e os primeiros mártires.
No dia 13 de março de 1584 foi instituída
a Custódia de Santo Antônio, filha
de uma jovem Província portuguesa, também
dedicada ao Santo de Lisboa e Pádua.
Quando alcançou fundar 12 conventos,
tornou-se Província (1657) e, no primeiro
Capítulo que celebrou, desmembrou os
conventos do sul e os erigiu em Custódia
(1659), com sede no Rio de Janeiro e lhe deu
o nome de Imaculada Conceição.
Com o aumento dos frades e criação
de outros conventos, a custódia foi declarada
Província, em 1675.
As vocações eram numerosas. Mas
a Coroa portuguesa pusera como condição
para reconhecer a Província que ela não
passasse de 200 religiosos. A Coroa tinha medo
que os conventos, por sua cultura e liderança,
se tornassem foco de apoio a movimentos separatistas.
E exigira que o número de frades portugueses
fosse sempre maior do que o de brasileiros.
Em 1739 o Provincial conseguiu licença
para elevar o número de religiosos a
350. O auge foi conseguido em 1761, quando alcançou
o número de 481 frades.
A Província teve membros famosos por
sua santidade e ciência. Assim o irmão
porteiro Frei Fabiano de Cristo (português),
até hoje venerado no Convento Santo Antônio,
no Rio de Janeiro; Frei Antônio de Sant'Ana
Galvão, paulista de Guaratinguetá,
sepultado no Mosteiro da Luz, em São
Paulo e, recentemente, beatificado pela Igreja;
Frei Francisco do Monte Alverne, o maior orador
sacro brasileiro; Frei Francisco Sampaio, que
escreveu a primeira Constituição
do Brasil independente, promulgada por Dom Pedro
I; Frei José Mariano Veloso, mineiro,
de que se diz não se saber o que nele
brilhava mais, se a ciência da Botânica,
se a santidade seráfica.
Um decreto imperial de 1855proibiu definitivamente
a recepção de noviços.
Com isto, a Província entrou em inevitável
declínio, chegando ao extremo de haver
um único frade sobrevivente ao se proclamar
a República, no dia 15 de novembro de
1889. A queda do Império e a conseqüente
separação entre Igreja e Estado
favoreceram a restauração.
Já no dia 18 de dezembro de 1889, o
Ministro Geral da Ordem assinava um decreto
entregando aos franciscanos recoletos da Província
de Santa Cruz da Saxônia a restauração,
tanto da Província da Imaculada Conceição
quanto de Santo Antônio (que chegara à
República com seis frades).
O Provincial da Saxônia, Frei Gregório
Janknecht (1829-1896) que já fora provincial
duas vezes antes e definidor geral, estava reerguendo
sua Província de uma série de
humilhações, dificuldades e fechamentos
de conventos ocasionado pela Kulturkampf, e
achava que o fogo das boas vocações
devia ser aceso pelo fogo missionário.
Por isso se ofereceu ao Governo Geral para
abrir uma missão no Oriente Médio.
E o Ministro Geral lhe ofereceu o Brasil. Frei
Gregório aceitou com as duas mãos
e com a plenitude de seu experiente coração.
De volta à Saxônia, começaram
os preparativos, tomando todas as informações
possíveis.
Padres jesuítas alemães lhe aconselharam
não começar pelo nordeste nem
pelo Rio de Janeiro, mas por Santa Catarina,
onde o clima era ameno e a colonização
alemã lhes daria certo apoio afetivo.
No dia 23 de maio de 1891 partiram os primeiro
quatro missionários: Frei Amando Bahlmann,
29 anos de vida e um ano e meio de padre, doutor
em teologia; Frei Xisto Meiwes, com dois anos
incompletos de padre, embora já tivesse
38 anos; Frei Humberto Themans, irmão
leigo com 13 anos de profissão e 30 de
vida, e Frei Maurício Schmalor, com 18
anos e ainda irmão terceiro.
Aportaram em Florianópolis, depois de
passarem rapidamente por Salvador, Rio de Janeiro
e Santos. Na verdade, ainda não tinham
destino certo. O Padre Jakobs, vigário
de Blumenau, ex-redentorista e alemão,
os queria lá. O Padre Francisco Topp,
alemão de Warendorf, os levou a Teresópolis,
onde fora pároco e de onde se transferira
para Tubarão. Chegam a Teresópolis
no dia 10 de julho, uma sexta-feira, às
19 horas. O Padre Topp os apresenta ao povo,
que nunca tinham visto um franciscano; E, já
no domingo, Frei Amando celebra e prega em português.
Estava assumida a paróquia e suas 17
capelas.
Nas semanas seguintes, enquanto os irmãos
arrumam a casa, a horta e o galinheiro, Frei
Arnaldo visita as vilas vizinhas.
Sonham com um colégio. E o Padre Jakobs
lhes oferece o colégio e a paróquia
de Blumenau. Em novembro, Frei Armando viaja
a Blumenau, mas volta a tempo de encontrar a
segunda turma de missionários, chegada
no dia 12 de dezembro de 1891. Eram oito. Quatro
deles eram padres e quatro eram irmãos
leigos. Frei Zeno Wallbroehl (que pouco depois
seria o primeiro vigário franciscano
de Blumenau, mas que ficaria na história
como o construtor da gruta de Angelina/SC);
Frei Lucínio Korte (que seria coadjutor
de Blumenau e responsável pela capela
dos italianos de Rodeio/SC); Frei Herculano
Limpinsel (logo nomeado pároco de Lages/SC,
será o primeiro Provincial da Província
restaurada, e abandonará a Ordem e o
Sacerdócio); e Frei Rogério Neuhauss
(nomeado coadjutor de Lages/SC, encherá
com sua santidade todo o Planalto Catarinense).
Nenhum destes tinha mais de um ano de padre.
Frei Germano Wunsick, por saber italiano, foi
lecionar em Rodeio, onde morreu pouco depois.
Frei Quintiliano Borren construiu o novo colégio
de Blumenau e retornou mais tarde à Alemanha.
Frei Patrício Tuschen era artesão
de imagens sacras; e Frei Mariano Feldmann que,
em 1922, abandonou a Ordem.
Ainda em dezembro, Frei Amando viajou a Lages.
O vigário morrera e o Bispo do Rio de
Janeiro oferecia a paróquia aos franciscanos.
Frei Amando celebra o natal com os lageanos
e aceita a paróquia.
As casas cresceram. Agora: Lages, a partir
de 12 de janeiro de 1892. Blumenau (paróquia
e colégio) a partir de 1º de maio
de 1892.
Seguem, Rodeio (1894), Petrópolis (a
partir de 16 de janeiro de 1896) e Curitiba
(1898). A esta altura já haviam chegado
outras 11 expedições de missionários.
Uma delas com 50 frades, outra com 29, e uma
outra até com 27 alunos postulantes e
alguns candidatos a irmãos leigos. E
já se desenvolvera bastante também,
a partir de 1893, a restauração
da Província de Santo Antônio.
Frei Clarêncio Neotti, ofm, em "Cem
Anos - Memória, Celebração
e Renovação", Coleção
"Centenário", nº 8
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