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       São Paulo, 20/11/2008, 12:58          
 
   
 

A glória de Deus, que resplandeceu sobre os pastores
na santa noite do nascimento de Nosso Senhor Jesus
Cristo, envolve agora todos os homens redimidos, por
Deus, luz e fonte de luz, e está presente na comunidade
dos fiéis que ouvem sua Palavra com fé e a recebem com
amor.

Alegre-se o céu e rejubile da terra porque nossa noite, a
escura e amarga noite da injustiça e da opressão, da mentira
e da violência, do pecado e da morte, agora, pelo
nascimento de uma criança, tornou-se para nós a noite de
Deus, radiante de luz, plena de doçura. Aquela que era
nossa noite, pelo nascimento de Jesus transformou-se
em noite santa, noite de graça e consolo, noite de perdão
e de vida, noite de glória para Deus no céu, noite de paz
na terra para os homens amados pelo Senhor.

Com vocês, caros irmãos e irmãs,  ajoelho-me hoje diante
de Cristo Jesus, cujo nascimento celebramos; para todos
peço a graça de contemplar o mistério da Palavra que
estava em Deus, a Palavra por meio da qual tudo foi
criado, a Palavra que era a luz verdadeira que ilumina todo
homem, a Palavra que era Deus e que se fez homem e
ergueu sua tenda entre nós.

Deus nos fala na criação

Sagrada Escritura descreve assim o diálogo de Deus com o homem no mistério da criação: “Depois o Senhor Deus plantou um jardim em Éden... e ali pôs o ser humano que havia formado... O Senhor Deus tomou o ser humano e o colocou no jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse” (Gn 2,8.15). Deus cria por meio de sua Palavra e fala por meio de sua criação.

Deus plantou um jardim em Éden... e esse jardim é a palavra pela qual Deus fala ao coração do homem. Desde o início da revelação, a palavra de Deus assume para o homem a forma da graça, da solicitude, do dom, do presente: o Senhor vai ao encontro do homem e lhe oferece, declaração de amor e sinal de aliança, toda a criação.

O relato bíblico que fala do jardim do Éden, no qual Deus coloca o homem para que o cultive e guarde, descreve na realidade a alegria do encontro entre Deus criador e o homem, sua criatura, alegria que se mantém íntegra até o homem perceber no jardim a voz do amor que lho entrega; alegria que há de cessar quando o homem se apropria do jardim e de seus bens e deixar de ouvir nele a voz de seu Criador.

Na aurora do mundo, Deus, de quem tudo procede e que tudo doa, fez-nos ver sua graça, fez-nos conhecer sua bondade. Na aurora do mundo, o homem, a quem é oferecido o dom de Deus para que o cultive e guarde, para que escute e se recorde, para que recordando ame, apropriou-se daquilo que havia recebido e, assim, deixou de ouvir a mensagem de amor que ressoava no jardim de Deus; apropriando-se do dom de Deus, o homem mudou a palavra em silêncio, o amor revelado em amor esquecido, o paraíso em deserto, a alegria em aflição, a confiança em vergonha, a vida em morte. A Palavra estava no mundo, mas o mundo não a conheceu! (cf. Jo 1,10).

Deus nos deu tudo, tudo se doou, no seu Filho

Agora, nos últimos tempos, Deus veio ao encontro do homem e, como sinal de aliança e medida de seu amor sem medida, oferece-lhe seu Filho (cf. Gl 4,4). Enquanto o silêncio envolvia todas as coisas e a noite estava em meio a seu curso, “a Palavra se fez carne e habitou entre nós; e nós vimos sua glória” (Jo 1,14).

Agora, a partir do momento em que a Palavra se fez carne, a revelação de Deus chega à plenitude, cumprem-se as promessas de salvação, a profecia, que enchia de esperança o futuro do povo de Deus, faz-se evangelho que enche de graça seu presente.

Agora, na plenitude dos tempos, a palavra pela qual Deus fala ao homem é Cristo Jesus, o “Filho do Altíssimo”, o Messias, o Senhor, o dom de Deus, “o dom por excelência que brota do amor do Pai”, como nos recorda o documento do Capítulo Geral Extraordinário O Senhor nos fala na caminhada (Sfc 20): “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado” (Is 9,5; cf. J0 3,16). “Se conhecesses o dom de Deus...” (Jo 4,10).

Nesse dom, Deus se entrega totalmente a nós, porque “ao doar-nos, como nos deu, seu Filho, que é uma Palavra sua, pois não tem outras, disse-nos tudo junto e de uma só vez nesta única Palavra e nada mais tem a acrescentar” (São João da Cruz). A beleza, a bondade e a verdade da criação, a eloqüência, o esplendor e a grandeza do universo, o amor do qual procede toda a criação e no qual se sustenta, tudo isso nos deu o Pai do céu ao dar-nos, como nos deu, seu Filho. E para não temermos a voz da divindade, a Palavra de Deus chega a nós no choro de uma criança; para não ficarmos aterrorizados pela presença do sagrado, a palavra de Deus chega a nós no sorriso de uma criança; para que nós, pecadores, não fujamos diante do fogo da divina santidade, a Palavra de Deus chega a nós no olhar de uma criança.

“Ó Senhor nosso Deus, como é grande o vosso nome em toda a terra!” (Sl 8,2). É maravilhoso, caros irmãos e irmãs, que o Pai do céu nos tenha revelado tudo dando-nos seu Filho; maravilhosa é a beleza do dom que no mistério do nascimento de Cristo nos é oferecida, e ainda mais maravilhosa é a humildade com que o Filho de Deus bate à nossa porta para que o acolhamos; é maravilhoso poder contemplar a grandeza de Deus na pequenez de uma criança e ver, nessa criança, a fragilidade humana unida para sempre à natureza divina.

Com Frei Francisco na escola de Deus no mistério da criação

Bem-aventurados os puros de coração, porque terão olhos puros para ver a Deus e experimentarão, como Frei Francisco, a doçura de contemplar nas criaturas a sabedoria do Criador, seu poder e sua bondade. Mais ainda, como Francisco,  terão olhos límpidos para ver os vermes e recordar-se de Cristo, para recordar-se de Cristo e ter grandíssimo afeto pelos vermes; terão olhos límpidos para contemplar a beleza das flores e voltar o coração para a beleza daquela flor que, brotando luminosa da raiz de Jessé, com seu perfume deu vida a milhares e milhares de mortos; terão olhos límpidos para convidar todas as criaturas para o amor divino e para uma alegre fidelidade (cf. ICel 80-81).

Frei Francisco, que, livre de toda a posse por graça do Altíssimo, viu a criação inteira se transformar em mensageira do amor divino, mostrou a nós que abraçamos sua forma de vida, o caminho para que pudéssemos também nós ouvir a voz do Senhor e ver sua glória em todas as criaturas.

“Os Irmãos não se apropriem de nada: nem de casa nem de lugar nem de outra coisa” (RB 6,1). São verdadeiramente puros de coração aqueles que, expropriando-se das coisas terrenas, buscam as celestes e jamais deixam de adorar e contemplar o Senhor Deus, vivo e verdadeiro (cf. Ad 16). Ao contrário, priva-se da luz necessária para ver seu Senhor aquele que se apropria de sua vontade e se orgulha pelo bem que o Senhor diz ou faz nele (cf. Ad 2). “Recordados que foram criados à imagem do dileto Filho de Deus, os irmãos louvem o Pai, o Filho e o Espírito Santo com todas as suas criaturas, restituam ao Senhor Deus altíssimo todos os bens e lhe rendam graças por todos eles” (CCGG 20,1). Os Irmãos de nada se apropriem e tornarão a sentir a Deus na criação!

Com Frei Francisco na escola de Deus no mistério da encarnação

Bem-aventurados os puros de coração! Porque, também em Belém, são aqueles que têm olhos límpidos para ver a Deus: a Virgem Maria, seu esposo José, os pastores, Simeão... Ela, “a Virgem pobrezinha”, a humilde serva do Senhor; José, o patriarca que abre caminho na noite para que Deus nasça; os pastores, guardiães que, por turno, durante a noite, vigiam o misterioso rebanho das estrelas, as esperanças de Israel; Simeão, olhos de ancião satisfeito, que o Espírito de Deus ilumina com toda a luz do universo.

Somente os pobres são livres para se aproximar de Cristo pobre; somente eles entram na humilde morada da santa família, sem se envergonhar da penúria que circundava a Virgem pobrezinha no dia do nascimento de Cristo (cf. 2Cel 200); nesse dia, somente eles podem ter lágrimas e alegria, ternura e festa, privações e doçura; somente a eles se aproximam os anjos; somente a eles é anunciada a paz.

Chamados a reconhecer Cristo entre os pobres, devemos ir pelo mundo “como servos e submissos a todos, pacíficos e humildes de coração” (CCGG 64), abraçando “a vida e a condição social dos pequenos, vivendo sempre entre eles como menores” (CCGG 66), vivendo “felizes em meio a pessoas desprezadas, entre os fracos e os pobres, com os doentes, os leprosos e os mendigos de rua” (Sfc 8), “para que em nós nada dificulte a epifania do outro”, como nos pede o documento do Capítulo Geral Extraordinário de 2006 (Sfc 28; cf. 29-30). Dessa forma, ternamente tomaremos em nossos braços a Deus que, pequeno e pobre, se fez nosso Salvador! E será Natal para nós e para aqueles que encontrarmos.

Conclusão

Irmãos e irmãs, se, para o mundo em que vivemos, devemos ser a palavra pela qual Deus fala, a partir da lógica do dom (cf. Sfc 19-25), esforcemo-nos por ser um presente de Deus para todos. Também nossa vida, a “palavra” mais autêntica, que nenhuma outra pode substituir, deve tomar a forma do maravilhoso dom de Deus: “Nada nos pertence, tudo é dom recebido, destinado a ser partilhado e restituído” (Sfc 19).

Se realmente desejarmos que em nós Cristo resplandeça com sua luz, também o dom de nossa vida deve ser sempre humilde, pequeno, “menor”, envolvido nas cândidas faixas da pobreza e de “uma minoridade pessoalmente assumida” (Sfc 29), lugar no presépio da simplicidade e da caridade, para que os humildes, os pequenos, os “menores” da terra se aproximem de nós e em nós descubram a Cristo. O Capítulo Geral Extraordinário, em seu documento, nos pergunta: “Temos a lucidez e a audácia necessárias para viver a boa nova da minoridade?” (Sfc 30). Somente se a resposta for positiva poderemos celebrar verdadeiramente o Natal e poderemos “reconhecer-nos sinais, humildes e simples, da estrela que continua a brilhar em meio à noite dos povos, guiando a todos para a centralidade da vida” (Sfc 9), Cristo, luz de todos os povos.

Que a luz de Cristo nos ilumine a todos. Cristo, nossa bênção, chegue para todos nós. Que cada um seja para o mundo uma mensagem de amor e de paz. Bom Natal!

Frei José Rodriguez Carballo, OFM
Ministro Geral