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A MÍSTICA
DA PAZ EM FRANCISCO E CLARA
Frei Nestor Inácio Schwerz, Ofm
A Concepção de Paz
na Idade Média
Na visão cristã, evitam-se guerras entre cristão,
mas ao mesmo tempo faz-se guerra contra os inimigos do cristianismo,
os não-crentes e os hereges, que a ameaçam a
existência do cristianismo. A paz interior da pessoa
adquire-se pela conversão do pecado, penitência
e paz com Deus. A meta dos cristãos crentes, através
do afastamento do pecado, do mundo, e através das obras
de misericórdia, é a paz do paraíso.
A paz nas cidades era entendida como garantia aos cidadãos
da inviolabilidade do corpo, da vida e do matrimônio.
A cidade garante a segurança dos bens dentro dos muros.
A cidade assume o dever de construir e manter relações
pacíficas entre seus cidadãos.
1. A Mística da Paz em Francisco
e Clara
Francisco faz referência a uma revelação
em relação à saudação da
paz. "O Senhor me revelou que nós devíamos
saudar da seguinte forma: 'O Senhor te dê a paz' "
(Test. 23). Várias fontes biográficas confirmam
essa expressão e contam como os irmãos desde
o início usaram em diferentes modos essa saudação
(cf. LTC, 26; LP, 67; LM 3,2; EP,26). A Legenda Perusina e
o Espelho da Perfeição relacionam a revelação
da saudação da paz com revelação
do nome de "menores". Dizer que algo é revelado
por Deus é dizer que vem carregado de força
de vida, de verdade, de amor e bondade, de graça e
salvação. Torna-se normativo, tem peso de responsabilidade.
Tem o caráter de dom, de iniciativa divina e do que
não pode ser guardado, mas deve ser comunicado, anunciado,
testemunhado. A expressão "saudação"
indica busca, abertura, desejo de relação. Saudar
alguém é estabelecer relação com
alguém. Saudar, desejando a paz do Senhor, é
construir relação de paz. Este desejo terá
tanto mais credibilidade quanto mais vier do coração,
do testemunho de quem vem carregado da vontade divina.
Dois são, portanto, os traços que caracterizam
o movimento dos irmãos que se reuniram ao redor de
Francisco. Juntando esses dons com a experiência do
Evangelho (envio missionário), temos um núcleo
certamente bem central no carisma francisclariano. É
uma fraternidade enviada em missão para dar testemunho
e anunciar o Evangelho, como Irmãos Menores e arautos
da paz.
Esta saudação da paz soava estranha para muitos
que nunca tinham ouvido algo semelhante de outros religiosos.
Alguns ficavam até mal humorados e questionavam os
frades, de modo que houve quem sentisse vergonha e pedisse
a Francisco a dispensa de tal saudação. Francisco,
porém, animou o frade envergonhado e admoestou-o para
que não se encolhesse (cf. EP,26). No tempo de Francisco
haviam muitos grupos e movimentos que buscavam a pobreza e
a pregação. No entanto, a novidade estava nessa
saudação da paz. Diante do irmão envergonhado,
Francisco esclarece que essa saudação pertence
essencialmente à compreensão da nova Fraternidade.
Segundo o franciscanólogo João Batista Frayer,
são quatro os elementos que impregnaram a compreensão
inicial dos irmãos que se juntaram a Francisco: a minoridade,
a vida de penitência, a fraternidade enquanto tal e
a saudação de paz. O novo estaria na saudação
de paz, ao passo que os demais elementos são comuns
a outros grupos da época. As fontes testemunham com
clareza que se pode falar com a mesma ênfase de um movimento
de paz como se costuma falar de um movimento de pobreza e
penitência.
Podem-se identificar alguns traços característicos
do significado da paz em Francisco: a paz interior como fundamento
da paz exterior, atitude de paz como estilo de vida, contemplação,
paz a ser construída, teologia e espiritualidade como
base para a paz.
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