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A Contemplação da
Beleza do Mundo
O ser humano, frente à beleza do mundo, não
pode permanecer apenas movido por um simples sentimento
romântico, mas tem que ser movido das considerações
provenientes da fé. É sempre São Basílio
que afirma:
"E o Senhor viu que era bom". A Sagrada Escritura
não entende nos dizer que o mar é visto por
Deus no seu aspecto de beleza estética... porque
o Senhor não se serve dos olhos para admirar a beleza
das suas obras. Ele contempla os seres através da
inefável sabedoria. Está certo que não
se pode negar o agradável espetáculo que oferece
o mar azul quando nele reina uma profunda calma... Mas não
é esta a razão pela qual, segundo a Sagrada
Escritura, o mar aparece belo e encantador aos olhos de
Deus. A beleza deriva do fato que ela é a base da
obra criador de Deus" .
A contemplação da natureza é um grande
meio que nos ajuda a alimentar-nos da recordação
de Deus. Esta é uma das expressões típicas
da espiritualidade de São Basílio. Escreve
Spidlik: "No pensamento cósmico de São
Basílio, o mundo inteiro na sua multiplicidade, no
seu ritmo e na sua maravilhosa ordem, não tem outra
finalidade a não ser uma recordação
de nossos contatos com Deus". Para o Bispo de Cesaréia,
o "próprio" do ser humano é conservar
constantemente a memória do Senhor: "Quero deixar
em ti uma profunda admiração da natureza,
a fim de que em todo o lugar, contemplando as plantas e
flores, sejas preso de uma viva recordação
do Criador".
Se
trata literalmente de apaixonar-se frente às maravilhas
da natureza, porque o mundo representa um espetáculo
frente ao qual tudo o mais empalidece. De fato, argumenta
São Basílio, os apaixonados pelo teatro ou
pela corrida de cavalos são tomados por esta paixão,
quanto mais devemos nós permanecer admirados e relembrados
"que o Senhor, o grande Autor e Artista das maravilhas
do mundo, nos convida a assistir o espetáculo de
sua Obras. Evitaremos nós , então, de contemplar,
hesitaremos nós em escutar os ensinamentos do Espírito?
Não devemos contemplar o grande laboratório
da criação divina volvendo o nosso olhar sobre
a harmonia do universo, sobre o céu, terra e ar?"
A tradição espiritual do Oriente situa,
numa ordem lógica, a contemplação da
natureza depois da purificação do coração
e antes da contemplação da Trindade. A contemplação
da natureza é chamada "Theoria fysikè".
Trata-se da contemplação religiosa do mundo
feita com sentidos espirituais elevados da graça
para colher os "logos" divinos escondidos em cada
ser, ou seja, a bondade de Deus Criador que forjou todas
as coisas através do seu "Logos" . Somente
assim se supera a exterioridade das coisas e se pode captar
e sentir a sua verdadeira linguagem. Trata-se da verdadeira
ciência das coisas nas quais o humano purificado e
tendo conquistado o coração puro, pode ver
dentro das coisas um Plano divino e descobrir a Providência
Divina feita toda ela de Amor e Sabedoria. Então
a natureza se torna verdadeiramente um livro aberto para
conhecer Deus e seu plano de Amor. Máximo, o Confessor,
retomando alguns conceitos bíblicos, escreve:
"Não conhecemos Deus na sua essência,
mas das suas grandes obras e da sua Providência nos
seres. Através dos quais, como num espelho, nós
compreendemos a sua infinita bondade, sabedoria e potência".
Para São Basílio, tudo é uma concretização
da Palavra do Criador. Todo ser deve, portanto, falar, narrar
a glória do Senhor. O Espírito a perfecciona;
assim como o esplendor pertence ao sol, assim a glória
do Senhor pertence ao Espírito . A Beleza é
sempre relativa, é enviada à Beleza Suprema,
por isso é capaz de suscitar na alma o "exultar
no Senhor", porque esta nos lembra que somente o Senhor
possui "uma tal Beleza, uma tal bondade e uma tal sabedoria".
A alma exulta porque o Senhor é grande e Belo. Toda
a verdadeira Beleza, portanto, sendo um reflexo da Beleza
Divina, não distrai o humano de Deus, não
o perturba, porque lhe dá um aspecto feliz e doce
que lhe torna sereno e jovial. .
A ligação alegre do humano com o Cosmos
aparece freqüentemente em vários autores. Máximo,
o Confessor sintetiza: "Tudo o que foi criado por Deus
nas diversas naturezas, concorre junto com o Humano como
numa cozedura, para formar nele uma perfeição
única, como uma harmonia formada de diversos sons"
. Nemésio, bispo de Emesa, cerca de 400 anos d.C.escrevia
que o humano condivide a própria natureza com todas
as categorias dos seres e que constitui a coligação
ideal com cada um destes seres. O humano é uma comunhão
com todas as coisas e participa vitalmente de tudo .
Clemente de Alexandria explicava que o Verbo fez do Humano
um instrumento composto da harmonia de todo o universo para
fazer um hino harmonioso a Deus. Assim o Humano não
é um tirano frente à natureza, mas é
integrado harmoniosamente nela, nascendo assim uma simpatia
que liga o Humano ao Cosmos no Amor e na Amizade. São
Basílio Magno exprime este pensamento de forma geral:
"O estar junto ao Cosmos, do qual o Humano faz
parte integrante, mesmo que seja composto de partes desiguais,
pelo Criador foi estreitamente unido como uma indissolúvel
amizade e uma comunhão harmoniosa que os seres, os
mais distantes uns dos outros, são entre eles unidos
na mesma simpatia"
Por este motivo que Máximo, o Confessor, tem uma
concepção cósmica do amor. Para ele
graças ao amor se cumpre uma síntese total
da Humanidade e do Mundo numa idêntica Unidade. Não
são dois amores, um pelo mundo e outro para Deus,
mas dois aspectos do único e Indivisível Amor
com que se ama o mundo e através dele: Deus! Por
este motivo o Humano feito voz das criaturas, cria um Sacerdócio
Cósmico, para louvar o Senhor por todas as criaturas.
Diz o Confessor: "O universo é uma Igreja Cósmica,
da qual a nave é o mundo sensível enquanto
o coro é o mundo espiritual" O Humano é
convidado a entrar nesta catedral do universo para descobrir
sob a direção do Logos, a verdadeira razão
dos seres:
"A alma se refugia na contemplação
espiritual da natureza como no salão de uma igreja,
num asilo de paz... Ela entra junto com o Logos e é
conduzida por ele, vosso verdadeiro pontífice. Ali,
como por uma leitura divina aprende a conhecer os conteúdos
significantes dos seres"
Aqui o Humano se torna o verdadeiro sacerdote do mundo,
que oferece a natureza a Deus, com o seu próprio
coração como sobre o altar, e faz do íntimo
do seu espírito o "Santo dos Santos", e
penetra até o Grande Silêncio de Deus .
O humano, mesmo sendo um microcosmo, não está
em meio ao universo com um sentimento titânico de
superioridade no confronto com a natureza; consciente de
seu ser efêmero se põe a serviço do
cosmos.
Inspirado e lírico, diz Máximo, o Confessor:
"E nós mesmos, por força do imperioso
decurso da nossa natureza presente, agora gerados e dados
à luz como todos os outros animais terrestres, depois
tornados crianças e enfim invadidos pela juventude
até chegarmos às rugas da velhice, como uma
flor que dura um breve momento para depois morrer e passar
para a outra vida, na verdade merecemos chamar-nos um jogo
de Deus" . É o sentimento cósmico, a
existência considerada como um ato litúrgico,
como uma adoração, um culto celebrativo, uma
dança sacra e estética.
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