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A Mais Algumas Idéias Sobre
a Contemplação da Natureza nos Místicos
Orientais
A contemplação cristã da natureza não
é um fenômeno esotérico reservado a
poucos intelectuais de matriz cultural grega. Existem muitos
exemplos, no mundo oriental grego e eslavo, de almas culturalmente
pobres, mas ricas de interioridade cristiforme.
Isaac, o Siro, de Nínive, que viveu no século
IV, se sente totalmente solidário com todas as criaturas,
a ponto de crer não poder salvar-se a não
ser em total comunhão com todo o criado. À
pergunta que se põe: o que significa um coração
puro, assim responde:
"É um coração que sofre com
todas as criaturas. E o que significa um coração
que se compadece? É um coração que
se inflama de caridade, pela criação inteira,
pelo ser humano, pelos pássaros, pelos animais, pelos
demônios, por todas as criaturas. Quando pensa nestas
criaturas, quando as vê, os seus olhos não
podem a não ser encher-se de lágrimas. É
assim tão grande e violenta a sua paixão que
o seu coração se despedaça quando vê
o mal e o sofrimento das criaturas mais humildes. Por isso
não cessa de rezar entre lágrimas em todos
os momentos pelos inimigos da verdade e por todos aqueles
que lhe tenham feito algum mal, para que sejam protegidos
e perdoados. Ele reza também pelas serpentes, movido
de piedade infinita, que desperta no coração
de todos aqueles que se assemelham a Deus" .
Estas
palavras apaixonadas de Isaac são uma relação
do humano reconciliado com o universo inteiro e por isto
considera todas as criaturas suas irmãs e se sente
solidário com elas. Isto trouxe um grande influxo
em todo o cristianismo oriental, seja grego ou eslavo. No
romance "Os Irmãos Karamazov", de Dostoievski,
Grigorij, o servo de Ivan Karamazov, se aplica obstinamente
às pregações contidas no livro: "Os
sermões do nosso santo padre Isaac, o Siro".
O pensamento do santo vem reproduzido nas palavras do Starezt
Zosima:
"Amai toda a criação divina, juntamente
com cada grão de areia. Amai toda a pequena relva,
todo o raio de sol! Amai os animais, amai as plantas, amai
todas as coisas! Se amardes todas as coisas colhei nelas
o mistério de Deus".
Temos também Silvano do Monte Athos, falecido em
1938, portanto bem vizinho ao nosso tempo, destacando a
sua doutrina e escritos, pelo testemunho de seu discípulo
Sofrônio:
"A alma do starezt exultava de alegria diante da
beleza do mundo visível... Sob este aspecto era como
um menino: todas as coisas o maravilhavam!"
Nos seus ensinamentos Silvano dá também
a razão pela qual o humano deve permanecer estático
frente à beleza da natureza:
"O humano que perdeu a graça não
sabe mais perceber a beleza do mundo e nada mais o maravilha;
e não lhe toca mais nem mesmo a inexprimível
beleza da criação de Deus. Eu sei quando a
graça do Senhor está com o humano, tudo o
que existe dá à sua alma um inconcebível
maravilhamento, e contemplando a beleza visível a
sua alma dá conta da incrível presença
de Deus em todas as coisas" .
Enquanto observava as nuvens moverem-se no céu azul
da Grécia, disse: "Que beleza criou Deus em
sua glória, para o bem do povo que é seu,
para que o povo glorifique com alegria o seu Criador...
Ó Rainha dos Céus! Fazei que o povo seja digno
de ver a glória do seu Senhor!" .
Para um companheiro de estrada, que com um bastão
rompia as folhas dos arbustos à beira do caminho,
dizia: "A folha era verde sobre a árvore e tu
a estraçalhaste sem necessidade. É verdade
que não é um pecado, mas o coração
que aprendeu a amar se reconcilia com todas as criaturas,
sobretudo com as mais pequeninas" .
A sua piedade para com os animais era comovente. Diz seu
discípulo: "Lendo os escritos do starezt, é
muito bom pararmos sobre seus pensamentos e seus sentimentos
para com os animais. Não podemos experimentar a paixão
que ele provava por cada criatura, e isto podemos sentir
relendo o passo que dá ao deplorar a sua crueldade
por ter matado uma mosca, ou por ter jogado água
quente num morcego que se instalou no seu depósito;
e assim podemos compreender a sua compaixão por cada
criatura que sofre". Naturalmente, nestes casos, não
se trata de um amor pelos animais que substitui o amor pela
humanidade, como muitas vezes pode acontecer. Ele deplora
o amor exagerado pelos animais que esquece o amor pelos
humanos e por Deus, último termo de todo amor pelas
criaturas. O amor pelas criaturas deve nascer de graça.
"A sua compaixão pelas criaturas não
era um fenômeno patológico, mas sua a expressão
de uma grandeza de alma sobrenatural e de uma bondade derivada
da graça" .
Temos também São Serafim de Sarov (1759
- 1833). Ele é conhecido como o "São
Francisco do mundo russo". Este santo, que viveu grande
parte da sua vida em contemplação dentro das
impressionantes florestas russas, conseguia transfigurar
o mundo numa contínua oferenda para o Criador. Através
da oração contínua aprendeu a "conhecer
a linguagem da criação, a escutar o louvor
das criaturas e a compreender como é possível
dialogar com elas" . Um testemunho ocular relata:
"À meia noite, ursos e lobos, lebres e raposas
circundavam o êremo de Serafim, junto a insetos e
répteis de todos os tipos. Terminada a prece... o
asceta saía da sua cela e começava a matar-lhe
a fome dividindo com eles o seu pão seco. Um grande
urso gozava de particular amizade com o santo homem... O
que tocava a todos era a alegria que o Pai Serafim irradiava
naquela ocasião. Sorridente mandava o urso pegar
qualquer coisa, e este retornava pela rampa trazendo um
favo de mel que o anacoreta oferecia gentilmente a seus
hóspedes. Mais tarde as representações
mais comuns de Serafim serão aquelas que o apresentam
sentado à sombra de um pinheiro enquanto dá
um pedaço de pão a um urso." .
Mesmo após a revolução russa, a caça
ao urso é proibida na floresta em que viveu São
Serafim, o "semelhantíssimo a Cristo",
como era chamado na tradição póstuma.
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