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A
CRUZ PARA SÃO FRANCISCO
Por Frei Mauro Strabeli
A encarnação do Verbo está ligada,
para São Francisco, a outro grande mistério:
Jesus Crucificado. Com o "mistério de
Jesus Crucificado", Francisco entra na mais alta
contemplação da Trindade.
A vocação de Francisco nasce do chamamento
a ele feito pelo Crucificado de São Damião.
Ao Crucificado ele vai identificar-se tanto, a ponto
de trazer dele os estigmas da crucifixão.
A Cruz é, para São Francisco, o sinal
do despojamento total do homem para encher-se de Deus.
A meditação e a contemplação
de Jesus Crucificado foram experiências que
São Francisco foi buscar na própria
Palavra de Deus. Parte ele do exemplo do próprio
Cristo: "Ele tinha a condição divina,
mas não se apegou à sua igualdade com
Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo,
assumindo a condição de servo... humilhou-se
a si mesmo, tornando-se obediente ate a morte, a morte
de cruz!" (Fl 2,6-11).
E o próprio Cristo recomenda a Cruz como caminho
de seguimento: "Se alguém quer me seguir,
renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me
siga..." (Lc 9,23). O Novo Testamento coloca
na "loucura da cruz" a razão do "ser
cristão": "Fui morto na cruz com
Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu que
vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta
vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho
de Deus que me amou e se entregou por mim" (Gl
2,19). "Quanto a mim, que eu não me glorie
a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo,
por meio do qual o mundo foi crucificado para mim
e eu para o mundo" (Gl 6,14). "Pois a linguagem
da cruz é loucura para aqueles que se perdem.
Mas para aqueles que se salvam, para nós, é
poder de Deus... Os judeus pedem sinais e os gregos
procuram a sabedoria; nós, porém, anunciamos
Cristo crucificado, escândalo para os judeus
e loucura para os pagãos" (ICor 1,18.22-23).
E o que é a Cruz para São Francisco?
O que é, para ele, Jesus Crucificado? Certamente
não é por masoquismo que São
Francisco faz da cruz um ponto referencial na sua
leitura da Palavra de Deus. Pelo contrário.
Amou a cruz por uma compreensão profunda do
seu significado e do seu "mistério"
- tão desconhecido por nós.
"A cruz, diz J.C.C. Pedroso, deve ser o mais
antigo e mais difundido símbolo humano de que
se tem conhecimento, muito antes da vinda de Cristo
na carne. Nós a encontramos nas seculares mandalas
do Tibete, nos tapetes da Pérsia, nos desenhos
e na arquitetura de todos os povos. Achamos a coisa
mais natural reforçar nossos móveis
e construções com barras cruzadas ou
assinalar nossas opções no papel com
uma cruzinha. Justamente porque está no âmago
da nossa natureza enfrentar o corte e o cruzamento
que simbolizam a tensão entre os opostos...
A cruz é o símbolo que melhor expressa
a união dos opostos que precisa acontecer em
toda vida saudável e madura. A cruz é
um símbolo muito positivo quando consideramos
a vida nova que dela brota. Sem a cruz não
pode haver crescimento no amor ou maturidade, nem
plenitude ou equilíbrio, nem vida e energia,
nem relacionamento pessoal entre Deus e a humanidade.
O amor, a plenitude e a santidade só se tornam
autênticos e ativos na presença de uma
tensão sempre crescente".
Foi isso que São Francisco compreendeu. Esse
foi o significado que ele intuiu no mistério
da cruz. Ele entendeu que a vivência em plenitude
da Palavra de Deus e de seu Projeto só seriam
possíveis mediante a tensão pessoal,
uma catarse às vezes duramente conseguida,
um conflito entre o querer o bem e se inclinar para
o mal.
A cruz é, então, o instrumento de purificação,
de realização, de plenitude. A cruz
não foi loucura para ele; foi símbolo
de purificação e símbolo da dor
também. Ela significa luta, sofrimento e até
a morte. A crucifixão de Jesus representa o
gesto de imenso amor de Deus que, para ser solidário
conosco, assume a cruz, os sofrimentos, para ensinar
que só dessa fonte é que jorra vida
plena.
Jesus viveu o dilema de fugir do sofrimento: "minha
alma está numa tristeza de morte... Meu Pai,
se é possível, afaste-se de mim esse
cálice" (Mt 26,38-39a). Mas, como homem
total, assumiu a sua condição: "Contudo,
não seja feito como eu quero, e sim como tu
queres" (Mt 26,39b). Este gesto maravilhoso de
amorosa submissão à vontade do Pai,
sem valer-se de sua condição divina,
faz de Jesus, o homem verdadeiro: assumiu a condição
de servo (Fl 2,7). "A cruz é mistério...
Simboliza, com suas duas traves que se atravessam,
a dilaceração do cristão entre
Deus e a humanidade, entre o bem e o mal, como todas
as outras tensões da vida.
Francisco expressou isso muito bem em sua famosa
exclamação: "O amor não
é amado!". A cruz não é
para São Francisco o que é para nós:
sinal de glória, de honra, ou símbolo
cultural. Era, sim, instrumento de real e profunda
meditação e contemplação,
pois resume em si toda a ambivalência humana,
toda tensão, toda procura, todo crescimento,
toda realização, toda a vida.
"A cruz é a chave da história
humana e da história de cada um". Parece
ser esse o sentido de toda a meditação
de São Francisco sobre a Paixão do Senhor,
bem como o sentido da VIA SACRA, instituição
devocional bíblica, sem dúvida, inspirada
na sua espiritualidade.
Extraído do livro "Leitura Franciscana
da Bíblia", de Frei Mauro Strabeli, OFMCap
- Centro Franciscano de Espiritualidade
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